ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Maritaca    

Tarde de inverno. Atípica. O tempo anda meio esquecido de suas estações, confuso, nem sempre consegue dar conta das temperaturas, volta e meia comete equívocos estranhos, trocas as bolas e agora, por exemplo, o calor é de verão em pleno mês de julho. Sentado aqui em frente ao computador, tenho a janela aberta ao meu lado, e a brisa inundando o ambiente dá-lhe um frescor com sabor de férias, embora elas estejam distantes, a gente sempre associa o período de folga com tardes ensolaradas e noites cobertas de estrelas. Apesar disso não reclamo, embora reconheça e acredite nos perigos do aquecimento global, gosto de usar roupas frouxas e leves, não aprecio ter a barriga, cada vez mais proeminente, apertada. Bom sentir os dedos livres em sandálias havaianas, ter os pés descalços, os calçados espalhados em cada canto do escritório.

 

Aqui passo boa parte do tempo, escrevo meus textos, leio os livros capazes de entupir as estantes, não adianta tentar colocar ordem na confusão, eles parecem possuir vontade própria, preferem se enfiar nos cantos, brechas, ou simplesmente empilharem-se sobre a escrivaninha, formando torres altas e tortas, jamais aceitando a ideia de comportarem-se bem perfilados nas prateleiras.

 

Quem costuma ler minhas histórias sabe de meu apreço por maritacas. Acho as bichinhas lindas, adoro quando passam voando em algazarra, sempre em bando, alegrando as tardes com sua folia de animais felizes, comunicativos e sociáveis. Aqui no meu bairro, as árvores estão invariavelmente cheias delas, pode-se escutar suas conversas francas, existe alguma coisa humana em seus diálogos, discutem o tempo todo e nunca parecem chegar a alguma conclusão ou acordo. Quando se cansam daquele papo inútil e vazio, exibem certo desaforo e saem em debandada como se apostassem corrida e pudessem encerrar a conversa com uma disputa, vendo qual delas seria capaz de chegar primeiro em algum canto. Para minha observação apaixonada de amante das avezinhas verdes, parece uma boa forma de se encerrar atritos: uma competição. Ganha quem for melhor.

 

Não sei se por coincidência ou dessas sincronicidades capazes de nos deixarem atônitos e meio sem entender certas forças energéticas espalhadas pelo universo, ouço baixinho o arrulhar doce e meigo característico de uma maritaca. Desisto por um instante de lutar com as palavras, dou essa alegria a Drummond reconhecendo momentaneamente ser uma luta vã, e olho para o lado. O grande periquito está parado no parapeito da janela me olhando. Seus olhinhos mostram grande curiosidade. A cabeça se movimenta para todos os lados, como se quisesse encontrar uma posição mais favorável, capaz de dar-lhe um ângulo de visão mais acurado. Permaneço imóvel para não assustar o pássaro. Tão bonito!  Não para de emitir o seu som particular, diz todas aquelas coisas sem afastar o olhar de mim, parece querer me transmitir algum recado, mensageiro sabe-se lá de quem. Diferentemente dos pombos, seu idioma é menos uivado e gargarejado, bem mais delicado e carinhoso. Às vezes se abaixa e encontra alguma coisa gostosa, uma semente, sei lá. Movimenta o biquinho em forma de gancho mastigando ruidosamente, não parece ter recebido grande educação, falta-lhe polidez ao se alimentar. Penso isso com medo de que tais animais sejam capazes de lerem nossos pensamentos. Detestaria magoar um coraçãozinho tão pequeno e sensível. Essa mania herdada de meu pai, de observar a maneira como os seres comem é um hábito horrível, deveria abandoná-la. Por sorte ele parece não se dar conta de minha introspectiva observação. Continua por aqui curioso, pertinho de mim, observando o escritor paralisado. Quando decide se movimentar caminha desengonçado, balançando o corpinho de para um lado e outro, em um gingado bem brasileiro, passarinho malandro.

 

Em determinado momento, cansado de ficar tanto tempo apenas atento ao pequeno animal, percebo o celular ao alcance de minhas mãos. Talvez consiga tirar uma foto, perpetuar aquele momento. O mundo mesmo se tornou um lugar curioso. Nada vale se não ficar registrado em fotografia. Quase sem respirar, bem lentamente, vou esticando o braço em direção ao aparelho. Alcanço o objeto, aproximo-o do rosto, aponto para a ave. Imediatamente ela escapa, mergulha em voo gracioso e ao mesmo tempo estabanado. Talvez não estivesse com as penas alinhadas o suficiente. Volto ao Drummond. Brigar com as palavras, tentar fotografar a maritaca, tudo é vão. Retomo meu parágrafo, quem sabe consiga seguir em frente sem me distrair.

 

Um trovão anuncia uma chuva de verão. Estará a maritaca também confusa? Inverno. Fecho a janela.

 

Jun/2019

 

 

Ricardo Ramos Filho

, é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil. Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


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