ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Flávia Fernanda Cunha


Entrevista    

FLÁVIA FERNANDA CUNHA é natural de Uberlândia, Minas Gerais, e vive em Foz do Iguaçu, Paraná. Tem o mestrado em Ciência do Envelhecimento Humano, especialista em Fisiologia Humana, graduada em Educação Física. Cursa agora o curso de Medicina. É escritora e ativista política. Empenhada na defesa da Liberdade, da Justiça e da Dignidade humanas, defendeu os governos do PT de Lula e Dilma, lutando hoje contra o regime de Bolsonaro que considera opressor. Interessa-se pela Europa, particularmente por Portugal. É colaboradora da incomunidade.com. No momento em que o Brasil atravessa uma enorme crise desde o plano material ao plano moral, a incomunidade.com quis entrevistá-la sobre o modo como vê o seu país. Aqui fica o seu depoimento.

 

Stefan Zweig disse que o Brasil é o país do futuro. Mas será que o Brasil tem futuro?

 

Creio que, até por seu tamanho, economia e recursos, o Brasil necessariamente tem futuro. Acredito que não se trata apenas de um desenvolvimento interno. O Brasil tem condições de ser ator importante na nova agenda global. Tínhamos uma pauta moderna, com preservação ambiental, estímulo a novas matrizes energéticas, novas ideias sobre o que significa desenvolvimento social. Mas o governo atual representa um atraso. Estamos regredindo a uma velocidade que realmente compromete a possibilidade de um futuro melhor para o país.

 

Por que um dos países mais ricos do mundo é um país de imensa pobreza?

 

São muitas as razões históricas que nos levaram a essa concentração de renda e imensa desigualdade social. O fato é que falta às elites uma visão mais humanista e a percepção de que uma sociedade mais justa é melhor para todos. Fomos uma colônia portuguesa por 322 dos 519 anos de nossa história. Ao nos tornarmos independentes, prosseguimos com os vícios coloniais. Ou seja, nossa elite explora e subordina os recursos naturais humanos do país visando ser inserida numa elite global que, no fundo, a despreza.

 

A escravidão ainda existe no Brasil sob outras roupagens?

 

Sem dúvida. Como diz o grupo de Rap O Rappa, “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”. Assim como em outras partes do mundo, ainda temos muitas pessoas trabalhando em condições tão ruins que podem ser consideradas semelhantes às do escravagismo.

 

E a vida não é fácil para o negro e a negra no Brasil. O racismo é disfarçado de diversas formas, o que levou muitos a dizer que por aqui não havia racismo. Não houve legitimação legal do racismo, como as leis Jim Crow americanas, mas evidente que no país com a maior, mais longeva e mais brutal experiência escravista da história da humanidade, as cicatrizes são profundas.

 

E continuam a dominar os coronéis?

 

Sim, especialmente no campo. Em regiões como o Norte e Nordeste, ainda existem grandes donos de terras que mantêm sob seu domínio as comunidades onde exercem todo o poder. Em algumas regiões, é como se o Estado nunca tivesse chegado. É um arranjo quase feudal, em que o dono da terra é a lei, a justiça e a religião.

 

Como explicar o fenômeno avassalador da religião no Brasil?

 

É algo também muito complexo. Mas a falta de educação e a ausência do Estado em muitas comunidades contribui para o desenvolvimento de crenças mais conservadoras, e até obscurantistas. Essas pessoas buscam atenção, além de benefícios objetivos que esperam obter nessas comunidades neopentecostais. Mas não podemos culpar o fiel. São pessoas à procura de segurança, sentido para a vida e ser parte de alguma comunidade. Se o Estado não é capaz de garantir esses deveres primários, alguma outra instituição o fará.

 

Há semelhanças entre os chefes religiosos e os coronéis?

 

Ambos conquistaram ampla influência política, e a usam para aumentar o próprio poder em um círculo muito perverso. Com a eleição de Bolsonaro, vimos pela primeira vez esses dois setores conservadores convergindo, o que não acreditávamos possível até poucos anos antes. Muitos religiosos votam exatamente em quem os seus pastores recomendam.

 

Qual a percentagem de brasileiros que vivem da religião como atividade econômica e que efeitos tem isso na economia?

 

Não tenho esses dados. Não acredito que alguém os tenha, porque o governo brasileiro é extremamente leniente com a movimentação financeira das igrejas. Tanto que o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, hoje preso, usava uma instituição evangélica para lavar dinheiro. É sabido que essas “novas igrejas” movimentam uma enorme quantidade de dinheiro. São donas de várias empresas de comunicação e cada estão aumentando sua influência em todas as esferas da vida pública e política.

 

Acabar com tanta a violência no Brasil é uma impossibilidade? Como fazê-lo?

 

A raiz do problema, sabemos, é social. Mas, para além da pobreza e da desigualdade, o crime organizado é uma realidade no Brasil. Só com investimentos em educação, saúde e infraestrutura podemos diminuir gradativamente a violência. Isso significa incluir grande parte da população na agenda de Estado. E isso, com certeza, ameaça as classes dominantes.

 

Como enfrentou o PT essas três realidades: domínio sufocante da religião, violência e corrupção?

 

Acredito que os governos do PT promoveram inúmeros avanços nessas áreas, com grandes investimentos na educação, melhoria da distribuição de renda e até mesmo no combate à corrupção. O problema é que acabou sendo vítima do próprio sistema que combatia, fazendo concessões demais para se manter no poder sem o apoio da grande mídia e das classes dominantes. Hoje, líderes do PT reconhecem que deveriam ter feito uma reforma política, evitando ter que se submeter ao jogo viciado da política brasileira.

 

A comunicação social sempre foi hostil ao PT e à esquerda em geral?

 

Muito hostil. A grande imprensa brasileira, apesar das dimensões enormes do país, sempre esteve nas mãos de algumas poucas famílias, todas com uma visão bastante conservadora e com uma enorme influência sobre a opinião pública. O Grupo Globo é o melhor exemplo desse oligopólio da comunicação.

 

Como parte da elite, as empresas de mídia estão interessadas na manutenção de um certo estado de coisas. E devemos citar novamente a atuação das igrejas na mídia. A Universal do Reino de Deus é a dona da segunda maior rede de tevê do Brasil. Ou seja, o campo progressista tenta combater duas forças ideológicas muito poderosas: a mídia e a religião.

 

Não seria possível a esquerda criar formas alternativas de comunicação?

 

Não só é possível como acredito que já estão sendo criadas. Mas as novas mídias não são de uso exclusivo da esquerda. A direita também tem se utilizado desses meios alternativos que, aliás, foram decisivos nas últimas eleições. E quem tem poder econômico tende a desequilibrar o jogo para o seu lado.

 

As políticas de assistencialismo que o PT levou a cabo prejudicaram a sua imagem?

 

Não considero “assistencialismo” a atuação petista, com seus programas de inclusão social. São modelos científicos de combate à desigualdade, economicamente racionais. Foram reconhecidos pela ONU e levados a outras partes do mundo. Mas a versão que a mídia conservadora passou para criticar as políticas de diminuição da desigualdade dos governos petistas afirma que o PT “comprou eleitores”. E essa versão foi assumida especialmente pelos setores mais tradicionais da classe média, rancorosos por ver as classes C e D ascenderem para mais perto delas.

 

Não seria possível fazer politicas diferentes dando a cana para pescar em vez de peixe, segundo o provérbio chinês?

 

Como disse, foi exatamente isso que o PT fez. Os programas exigiam contrapartidas, como manutenção dos filhos na escola. O estímulo às economias locais propiciou o surgimento de milhares de microempresários entre gente que antes sequer tinha conta bancária. Isso é inclusão produtiva.

 

Como foi possível depois de um Lula haver um Bolsonaro?

 

Parece absurdo irmos de um extremo ao outro, mas não é tanto assim. Além do país ter uma democracia ainda frágil e imatura, após tantos anos de ditadura militar de direita, há pouca consciência ideológica por parte dos eleitores. Por isso, esse tipo de voto é muito mais ligado ao carisma do candidato do que à sua orientação ideológica.

 

A magistratura brasileira é conhecida como muito corrupta. Também houve corrupção na condenação de Lula?

 

Tudo indica que sim. As recentes revelações do The Intercept parecem confirmar inteiramente a tese de que o processo envolvendo o presidente Lula foi, no mínimo, pouco ortodoxo e comprometido por interesses políticos. Sérgio Moro, o juiz que o condenou, hoje é um político bolsonarista. Não se constrange mais em atuar como representante de uma ideologia. Joga com as cartas abertas, revelando seu estratagema com a condenação de Lula. O ex-presidente Lula é um preso político!

 

Quem é Sérgio Moro: justiceiro ou corrupto? E Dellanhol? O que fazer para combater a corrupção na justiça brasileira?

 

Na minha opinião, ambos são “farinha do mesmo saco”. Pertencem à mesma escola de juízes alinhados à direita e aos interesses americanos. A imagem do judiciário brasileiro está terrivelmente comprometida. Creio que será necessário uma grande renovação e muito tempo para recuperá-la.

 

Como está o caso Marielle Franco? Os filhos de Bolsonaro estão a ser ligados à morte de Marielle?

 

As investigações prosseguem. Já foi comprovado que o crime foi praticado por milicianos - identificados e presos. Falta saber, e duvido que um dia saibamos, quem foi o mandante do crime. Há inúmeros indícios de ligação do clã Bolsonaro com milicianos.Vários foram nomeados em seu gabinete parlamentar. Um era seu vizinho num condomínio de luxo e portava mais de 100 fuzis. Familiares de sua esposa também estão associados às milícias. A quem interessa investigar? Essa é a questão.

 

Se isso se provar, é possível a demissão de Bolsonaro?

 

Se surgirem provas, deve ser afastado, e também como preso. Mas duvido muito que cheguemos a isso. Não existe isonomia neste governo para que um investigação profunda seja realizada.

 

Como explicas que ainda 33% da sociedade brasileira aprove a nomeação do filho de Bolsonaro para embaixador nos EUA?

 

Ignorância, fanatismo, falta de visão do papel de um embaixador… nem sei o que dizer. A popularidade de Bolsonaro está caindo, porém há os que ainda acreditam que esse governo pode, por exemplo, nos tirar da grave crise econômica. Prefiro me consolar no fato de que pelo menos 67% da população não concorda com esse absurdo.

 

Significa isso que grande parte do Brasil aceita que o país seja um quintal dos EUA?

 

Não tenho dúvida disso. Para estes, que lá chamamos de “bolsominions”, se o Brasil fosse literalmente uma colônia dos EUA, seria uma perfeição. Essa é a triste realidade.



Uma boa parte da população brasileira tem complexo de vira-lata ou chega a desprezar-se a si mesma?

O brasileiro ainda está por desenvolver uma ideia de nação. Somos uma sociedade fraturada, governada por e para uma elite. Assim, muitos brasileiros acabam admirando modelos estrangeiros em detrimento de nossa própria realidade.

 

 

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


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MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


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