ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Thássio Ferreira


Cinco contos    

Tetris
(vencedor do Prêmio Off Flip de Literatura 2019)

 

Foi um caminho acidentado até aqui, ele pensa. Mais um emaranhado de descaminhos. Como aquele joguinho que ele me mostrou no minigame, antes dos celulares dominarem o mundo, como era mesmo? Peças de formatos recortados caíam do alto da tela e a gente precisava encaixá-las, cada vez mais rápido, e quando as peças encaixadas completavam fileiras horizontais a fileira desaparecia, e a gente ia encaixando aquela porra tentando impedir que se amontoassem até o alto, cada vez mais rápido, mais rápido, era um inferno aquele jogo. Tetris, eu acho. Quando as peças não encaixadas se amontoavam até o topo da tela a gente perdia, e tinha que começar de novo. É, foi assim com a gente, ele pensa, ligeiramente animado com a nova metáfora, que julga mais elaborada que a primeira. Nós dois tentando encaixar nossos recortes, nossos ângulos, nossas quinas, tentando aplainar, e amontoando um monte de peças até um ponto em que era necessário começar de novo, fingir que limpávamos a tela e que as peças desencaixadas não continuavam lá, em algum lugar: nas mãos subitamente em trégua e cansaço, no fundo das línguas, em vez de na ponta, nas paredes da vesícula biliar dele, que a minha já não tenho. Sei lá.

 

Ele gosta de usar palavras do seu tempo de engenheiro do exército, como aplainar, no meio dessas divagações que cultiva com esforço quando está com o filho, tentando se conectar a ele, nada engenheiro, nada militar: tentando encaixar sua dureza naquele mundo sensível que até hoje não entende bem como o filho construiu para si.

 

Percorrem a exposição em silêncio. O filho muito concentrado, atentíssimo a cada fotografia. Ele mergulhado em seu próprio dentro, observando as molduras apenas o suficiente para  estar ali, junto do filho. Participar do mundo daquele homem que ele ama de um jeito incompreensível para si mesmo. O silêncio entre os dois: um misto de trégua e carinho. O cansaço de tantas diferenças amontoadas que eles insistem em tentar conciliar, porque esse amor incompreensível pede sem fim, e cansa muito não conseguir desamar quando o amor é tão complicado. Mas o cansaço não cansa. O amor: maior. E por vezes o silêncio que aplaina mais que as palavras.

 

–– Pai, tem uma exposição. De fotos. Quer ir comigo?

 

A coreografia já dançada outras vezes, com variações. Depois das surpresas que impôs ao pai para chocá-lo, ele agora sabe que provavelmente virá a pergunta sobre do que trata a exposição. E sabe também, com muita calma, com a vontade do amor maior que o cansaço do amor, que se a pergunta não vier, como não vem, ele terá a força e a disciplina de lhe dizer, como diz –– com muita calma, com a vontade do amor: o artista se chama Alair Gomes. São fotos que ele fez nos anos setenta e oitenta de rapazes se exercitando na praia de Ipanema. Talvez ele não devesse dizer rapazes, pensa antes mesmo de terminar a frase. Conhece os fantasmas que rondam o pai, aquelas velhas ideias: monstros no armário tocaiando jovens desprotegidos, desvirtuando-os, como há tempos ouviu o pai dizer que fora seu caso, entre acusatório e suplicante que ele admitisse que sim, que fora desvirtuado, um jovem inocente, logo ele: menos inocente do que engenheiro. Apressa-se em tentar uma outra forma de dizer, um outro encaixe: aquela época em que a galera começou a malhar, sabe? Tinha uns aparelhos na praia, mais simples do que os de hoje, e os caras –– cara é uma palavra menos inocente, menos alarmante –– faziam barra, abdominais em pranchas de madeira. O Alair tirava várias fotos e depois juntava de um jeito que sugere uma história, como se ele narrasse algo com as fotos. Ficaram bem famosas. Os truques. Os gatilhos que ele já conhece: dar nomes aos fantasmas, para que assustem menos o pai, e trazê-los à claridade da fama, essa legitimação quase absoluta dos nossos tempos.

 

Um pedaço de silêncio. Tentando se encaixar.

 

–– Eu vou.

 

Ele hesita um pouco. É sempre difícil saber o quanto dizer. Que os rapazes estão sempre em sunga, ou pelo menos sem camisa. Que as composições, no mais das vezes, sugerem uma tensão sexual criada pelo fotógrafo. O Alair. Mas ele cala. O cansaço. Afinal, o que se espera de fotos na praia? Daquele filho que já tanto disse, gritou, cuspiu tantas palavras. O pai sabe, ele pensa. Ou que tire suas próprias conclusões.

 

O pai sabe. Não completamente, mas sabe. O que não sabe, pressente, encaixando as palavras, os silêncios, o passado. E vai. Esforçando-se naquele exercício de amor: amoldar suas fronteiras às do filho. Rapazes exercitando-se na praia, pois bem. Vamos. Eu vou.

 

Em silêncio, ele se aproxima do filho, que admira mais demoradamente uma sequência específica de fotos. Não lhe interessa muito, a princípio, aquelas três imagens na moldura, como nenhuma das outras. Interessa-lhe o filho. E reconhece nele pequenos sinais cujo significado já aprendeu, a contragosto. O rapaz passa a língua nos lábios, discretamente: primeiro o de cima, depois o de baixo, sem intervalo. Recolhe a língua. Tem o olhar vidrado mirando as fotografias. Sorri de leve, inclinando a cabeça. Aperta com a mão direita a falange do dedo médio da mão esquerda. 

 

A coreografia já dançada outras vezes, com variações. Antes que sua disciplina de engenheiro, de militar, possa impedi-lo de olhar o que prende a atenção do filho, ele olha, talvez numa esperança eternamente frustrada –– e que ainda assim insiste em subsistir –– de ver o que nem mesmo acredita que verá, e que ali, em meio àquelas fotografias, todas de rapazes, é ainda mais improvável. Talvez uma vontade atávica de entender o filho, quem sabe um dia ele consiga, num lampejo qualquer, entender: o desejo daquele homem tão carne da sua carne mas tão diferente dele, ali defronte a uma imagem em preto e branco que ele pressente como quem sabe –– ele já sabe há tanto tempo –– do que se trata.

 

Ele mira a foto: o rosto de Valter mirando o espaço para fora da moldura. Algum ponto atrás de seu ombro esquerdo, parece. O Valter? Sim, ele reconhece, sem nenhuma dúvida: o Valter. E um rapaz ao lado dele, o corpo (teso) em perfil, o rosto em direção oposta, olhando para trás de Valter, para o fundo da foto, quase totalmente de costas, mas ainda reconhecível, ao menos para ele: ele. Ambos de calças e sem camisa, um dia qualquer em Ipanema, saindo do quartel, ele nem lembrava que um dia, mas lembra. Ele. E o filho que olha sua foto, pés descalços na areia, o corpo alongado ao sol, aquele rapaz dos anos setenta ou oitenta preso numa fotografia de quem mesmo, qual a porra do nome desse fotógrafo que o meu filho me trouxe para ver, e o filho novamente passa a língua nos lábios, discretamente, primeiro o de cima, depois o de baixo, enquanto aperta com a mão direita a falange do dedo médio da mão esquerda.

 

(peças caem muito mais velozes do que ele é capaz sequer de tentar encaixar, até cobrirem toda a tela)

 

 

 

 

 

 

Seis e vinte e oito


(3o colocado no Concurso de Contos “Prêmio Ignácio de Loyola Brandão” 2018)

 

Quando acordei, tinha o corpo todo virado para a janela, por onde entrava uma claridade suave. Alcancei o celular na mesa de cabeceira: seis e vinte e oito. Eu dormira pouco, mas não sentia mais sono. Virei-me.

 

Ana estava sentada, abraçando os joelhos erguidos em um V invertido, fitando o vazio.

 

— Bom dia, falei com certo cuidado.  tudo bem?

 

Ela voltou o rosto para mim, e junto com ele o vazio que ela observava, como se a membrana gelatinosa dos seus olhos não existisse, apenas o oco de dentro misturado ao oco de fora.

 

— O Guilherme morreu.

 

É difícil lembrar com alguma confiança nossas reações quando levamos porradas assim. Talvez eu tenha arregalado as pupilas, ou talvez, ao contrário, tenha apertado um pouco os olhos, contraídos de dor. O mesmo com a boca: posso tê-la aberto levemente — mudo espanto — ou cerrado os lábios com força também leve, absorvendo o impacto. O que lembro é de ter desviado o olhar, por um fragmento estilhaçado de instante, e mirado o espelho do armário atrás dela, emoldurando Ana sentada nua, com a cabeça virada para mim e para a janela por onde entrava uma luz baça pela cortina rolô. Desde que viera morar comigo ela pedia que eu colocasse uma cortina blackout por trás daquela, para vedar a claridade da manhã, mas eu não queria. Já me bastavam as escuridões de dentro e as noites sem fuga nem perdão: quando havia luz, eu queria beber luz. O cabelo dela despenteado no espelho parecia reluzir mais que o olhar que ela me lançara, mais vivo, mais real. Será que eu ainda amava a mulher com quem compartia diálogos, contas, refeições, ou agora amava apenas aquelas imagens meio Vermeer que captava nos espelhos, nos silêncios, nos reversos?

 

Tornei a focar seu rosto. Ela agora parecia mais familiar, os olhos meio aguados perguntando: me abraça, me consola, vamos chorar juntos? Perguntando bem devagar. Eu, arisco:
— Como?

 

Ela pegou o celular largado à cama, desviando os olhos da minha recusa.

 

— Tomou um vidro de diazepam com uma garrafa de vodka. A Márcia disse que vão enterrá-lo às seis e meia.

 

— Ele se matou?

 

Pergunta estúpida. Mas ela me poupou a ironia afiada que costuma usar nesses casos. Fez que sim com a cabeça, só.

 

— Caralho...

 

Eu permanecia imóvel, feito dentro de reticências triplas, quíntuplas, eternas. Ana levantou-se (já que eu não dava nenhum sinal de que fosse atender o que seus olhos me pediam após o vazio) e dirigiu-se ao banheiro. Só quando ouvi o barulho do chuveiro consegui me libertar daquela letargia feita de choque e distância. Alisei o pedaço de lençol onde ela estivera sentada, ainda quente do seu corpo, e de novo me perguntei quase sem perguntar, como se a resposta não fizesse diferença, se eu ainda a amava: ela, em sua carne, seus movimentos, suas dores; ou se o que eu vinha amando já nem sei há quanto tempo eram esses vestígios, essas ausências da Ana real, que eu podia traduzir como bem entendesse.

 

Levantei-me também e fui até a porta aberta do banheiro:
— Você quer que eu te prepare algo?

 

— Não precisa. A voz dela não trazia mais qualquer pergunta, qualquer pedido. Soava como o vazio que pouco antes eu tinha visto no seu rosto. Ela ainda me amava?

 

— Vocês... eu principiei, de novo enredado em reticências. O chuveiro elétrico chiava e apitava por cima do barulho da água se esbatendo contra o corpo de Ana, contra as paredes, contra o irrefutável chão.

 

— O que?

 

­— Vocês se falaram alguma vez, desde o divórcio?

 

Ana demorou a responder. Era uma manhã cheia de reticências.

 

— Não. O chuveiro zunia. Ele me enviou umas mensagens de aniversário e feliz natal, acho que umas duas vezes. Eu só respondi obrigada. Aí ele parou.

 

Ela fechou a torneira e saiu do box. Gostava de sair pingando, sentir o choque térmico antes de começar a se enxugar, mesmo que empapasse o tapete de água. O corpo nu, molhado, com aquele desenho de coxas que me punha louco, desde o princípio, a cicatriz no seio esquerdo de quando ela contara a Guilherme sobre nós e ele a arremessara com um soco sobre a quina da mesa de centro (depois de toda a dor, o vidro cravado fundo na carne tendo que ser removido por cirurgia, ela costumava brincar: dizendo que era a marca de guerra do amor dela por mim), os pés estreitos com os dedos de cabeças gordinhas (eu sei lá como se chamam essas partes dos dedos com as unhas) que ela odeia e eu sempre adorei. Ana, ali, inteira, real, e eu olhando o vapor que ainda subia do box e se condensava nos azulejos, até o teto, feito fossem um rastro dela.

 

— A gente destruiu a vida dele... corte: antes que eu pudesse continuar as reticências, que eu nem sabia como continuar, Ana explodiu:
 — Vai se foder, Rafa! Você não vai nunca superar essa palhaçada, essa culpa sem sentido, essa broderagem ridícula entre machos? Vai ficar me arrastando pra esse martírio, porra, esmagando com esse peso o que a gente foi, o que a gente é, o que a gente pode ser? A gente escolheu o nosso caminho, o Guilherme escolheu o dele. A gente não fodeu a vida de ninguém, ele que fodeu a própria vida.

 

— Eu não te culpando, Ana, não culpando a gente. Nem todas as consequências do que a gente faz podem ser realmente atribuídas a nós. Mas...

 

— Não tem caralho de mas nenhum, Rafa, para de voltar sempre nisso, porra! Aconteceu. Você fica falando que as consequências não são nossa culpa mas que foi a gente que destruiu a vida dele como se toda a merda em que ele afundou fosse inescapável, como se ele não tivesse feito as escolhas que fez.

 

Ela parou de gesticular e deixou pender os braços, toda nua, toda ela, na sua materialidade palpável e ofegante de carne e sangue, como interpondo-se ao vapor ainda dentro do box, que talvez fosse essa ausência indefinível dela, uma ausência do que eu queria que ela fosse, que a gente fosse, e não era.

 

Meu ex-amigo morto.

 

— Você precisa decidir, Rafa, se vai viver comigo ou com essa culpa, esse fantasma. Com os dois não dá.

 

— O que a gente é, Ana? O que a gente pode ser?

 

Ela estremeceu.

 

— A gente é isso aqui. A gente é amor acontecendo, Rafa. Pelo menos pra mim. Se o Guilherme não foi capaz de encontrar outro tipo de amor depois do nosso, do meu com ele, do seu com ele, isso é um problema dele. Foi. Mas eu não vou entrar no mesmo buraco que ele. Nem por você. Amar tem muitos jeitos de doer, alguns a gente aceita, outros não. O Guilherme fez a escolha dele, eu fazendo a minha. Você tem que fazer a sua.

 

É difícil lembrar com alguma confiança nossas reações quando levamos porradas assim. E essa já era a segunda antes mesmo do café. Eu: paralisado.

 

O celular dela tocou. Ana passou por mim em pisadas firmes, quase raivosas, o ombro resvalando no meu como quem não se importa em machucar. Oi. Sim, eu sabendo, a Sarah me avisou. Vou, vou sim. Vou sair do trabalho e ir pra lá. bom. Tchau. Ela começou a se vestir sem me olhar. Lavei o rosto e fui à cozinha. Fiquei parado (encostado à pia). Ela saiu ainda sem me olhar.

 

— O enterro vai ser no Parque da Colina. Seis e meia. Não se atrase.

 

Sentei-me à cama, e quase sem perceber, como se eu também fosse um rastro de mim mesmo, liguei a caixinha de som na mesa de cabeceira em modo aleatório, enquanto recostava a cabeça à parede e fitava o vazio.

 

Toca movimento dos barcos, na voz de Bethânia. Alcanço o celular na mesa de cabeceira. Seis e vinte e oito.

 

 

 

 

 

 

Duas noites e um talvez


(publicado na antologia do Prêmio VIP de Literatura)
                             
Era noite, era sexta-feira e talvez por acaso, talvez por acaso não, era dia dos namorados, e você (re)encontra alguém e ora diabos, é dia dos namorados e vocês passam o show juntos agarrando-se e lambendo-se e conhecendo-se e entregando-se como talvez nunca antes um ao outro, e esse dar-se e esse descobrir-se também é um deixar-se levar ao mundo, ao público, ao tempo, a estar vivo, ora diabos.

 

E vocês caminham de volta, findo o show, como quem volta e ao mesmo tempo como quem vai, como quem retorna ao sentido mais terno e mais íntimo e mais primevo de: retornar, e como quem vai ao desconhecido com o destemor e a alegria da véspera do amor, porque o amor é um medo infindo e a coragem e a felicidade do amor são disfarces e são ruídos e são efeitos colaterais e são compensações psíquicas do inconsciente porque senão o medo imenso, imensurável nos paralisaria e é preciso que o amor mova o mundo.

 

E caminham pela noite, pelas calçadas e pelas ruas, pela Lapa e por dentro dos sons e entre conversas e entre abraços e afagos e sorrisos e sobem a ladeira que leva à porta.

 

E no momento da despedida em frente à entrada do prédio que é tão perto do seu mas hoje você está romântico e calmo e você já teve aquele corpo nas mãos antes e sabe que terá de novo, não há pressa, e no momento em que as últimas palavras pertencidas à madrugada de junho são ditas você ouve "te amo" e vê o corpo pequeno que entra pela porta e te olha de relance, você sente um espanto sem adjetivos e sem dicionário que traduza e defina com exatidão isso que você então só consegue chamar de espanto embora não seja bem isso nem apenas isso, um medo que é infinito mas ainda é pequenino e suportável diante do amor que ainda não é, e você foi atingido com tanta força que até fica sóbrio por um instante mas só por um instante, o fôlego volta, o sangue corre de novo, você processa e percebe, como uma lembrança já, no momento em que vê aqueles olhos que te olham de relance que na verdade o que os lábios disseram foi: tchau.

 

Apenas: tchau.

 

Simples, simplesmente, trivial.

 

Você suspira.

 

O perigo passou. O amor esteve tão perto, mas fugiu. Todavia, o perigo do amor nunca foge para longe.

 

E uma semana depois, com outro corpo nas mãos, porque os corpos são tantos para o seu corpo que tem sede, sede tamanha — ajudai(-me) —, e você tem um pescoço nos lábios e um ouvido tão perto, à distância apenas de um mero sussurro, e você percorre a distância, porque a sede é tamanha — ajudai(-me)! —, sussurrando "o que mais você quer fazer comigo?" e você ergue a cabeça em sorriso e meneio de tigre, e talvez tanto com os olhos quanto com seus próprios ouvidos você escuta a resposta "te amar" e novamente a incompreensão da largura de um silêncio infinito contida num instante como é infinita toda respiração (guardando em si toda vida no movimento de inspirar e toda morte no movimento de expirar), e também dura apenas uma brevidade e novamente o medo e o tesão do medo e do que está por trás do medo até que você volta à órbita do mundo e percebe que a resposta, tão menor, muito menor, foi: "te amarrar", e você dobra de volta o corpo porque a sede não passa.

 

E talvez esses espantos que você anda ouvindo equivocadamente sejam uma carência braba mas talvez seja um amor enorme amedrontado e amedrontador de você por você mesmo que para se revelar com mais suavidade esteja escolhendo ser dito pelas bocas de outros sem nem mesmo isso, sem nem mesmo ser dito de verdade, mas apenas ouvido por você nas vozes dos outros, porque só disfarçado de outra coisa, que muitas vezes também chamamos amor, é que o amor pode se revelar.

 

 

 

 

 

 

A eternidade e seu epílogo

 

(publicado na Revista Ponto n.  15, de SESI-SP Editora)

 

Fazia um frio sutil na sala de espetáculo. Um frio que, entre os espaços da música, era sentido como um retinir metálico, um badalar de sinos, só que esférico. A plateia, imersa em breu e silêncio, era toda olhos e ouvidos atentos e pele arrepiada ao toque daquele frio esférico que preenchia os hiatos da melodia feito uma contravoz distante, em tom menor. E então.

 

A música não se interrompeu, não reprimiu qualquer nota dissonante, nem prendeu sua respiração de sons, quando. Aliás, o que houve nem mesmo se deu no intervalo minúsculo entre um retinir e outro. Não, foi bem ao meio mais agudo de uma das ritmadas notas que enchiam a imensidão negra do teatro. Quase como se fizesse parte da sequência de movimentos coreografados e exatos que se desenrolavam no palco. Quase como se não fosse um acidente.

 

Mais que um acidente. Uma pequena tragédia, uma ferida aberta, em carne lacerada e sangue doído, numa das pétalas daquela rosa a se desabrochar que era o espetáculo de dança, deslizando sobre o tablado seco e ao mesmo tempo úmido feito uma campina depois da chuva. Quase uma lâmina a seccionar milimetricamente um sorriso, uma guilhotina, um ato cru e inexplicado de impiedade, a bailarina caiu.

 

Do alto do ar, onde voava lançada pelo parceiro de corpo tão esguio e forte quanto o dela, tão ensaiado e capaz quanto o dela, do alto do movimento agudo em meio à nota aguda de retinir metálico, do alto do frio seco que inconscientemente todos acreditávamos não fosse permitir que nada escorregasse um palmo além do necessário, do alto da ausência dolorosa e impressentida de onde deveriam estar as mãos que não estavam, de onde ambos achavam que estariam, de onde todos queríamos que estivessem, no instante que precedeu a ausência; ou talvez do alto do espaço deslocado onde ela não deveria estar, quem sabe tão libertada em seu voo –– como nunca antes –– que tivesse flutuado para fora do alcance firme e lógico de seu par, cegamente guiada por uma ousadia inata, toda sua e toda entranhada em seu corpo desde sempre, desde o primeiro engatinhar que foi seu primeiro passo de dança, do alto mais alto, a bailarina caiu, sem perdão.

 

Não se ouviu o baque de seu corpo teso ao bater o chão. Disciplinados, nem ela nem o bailarino que não a segurara precisaram sufocar nenhum grito, nenhum gemido, o qual simplesmente não houve, não se formara, ambos inteiramente corpos em silêncio na cena nua. A música não silenciou. Nenhum dos outros bailarinos, talvez sete ou oito em cena, estancou seus movimentos, nem alongou ou desacelerou qualquer gesto, na tentativa de recuperar, como quem se esforça em rejuntar estilhaços de um cristal partido, a harmonia rompida por aquela queda sem disfarce. O frio da sala de espetáculos prosseguiu, sutil. O tempo, ao contrário do que se diz, não parou.

 

Mas dentro daquele instante –– não tivesse ele existido com a intensidade enorme dos desastres, alguém poderia dizer ter parecido não existir, tão breve em seu percurso do ar ao chão –– germinou-se uma eternidade. E a eternidade varreu a plateia eletrizando-nos como se cada um de nós fosse uma partícula da mesma corrente. Eletrodos, conduítes, da primeira à última fila, todos nós. Circuito fechado. Nós presenciáramos o desastre. Nós, que não esperávamos nada daquela sorte, fomos tocados pelo desastre como se ele tangesse nossas espinhas feito a corda de um violino. Nossos nervos em rede, entrelaçados, conectados todos, fios a constituírem-na, viva, pulsante, reconhecível enfim (mas não compreensível, isto nunca!), porque éramos todos inocentes a sentir dor, e a dor dos inocentes é a própria eternidade.

 

E como dentro da eternidade, dentro da dor, cabem espantos incalculáveis, cada um de nós sentiu em sua carne, e em seus nervos conectados, a dor do outro, as infinitudes da dor do outro. De muitos outros, todos os outros, na multidão sentada a ouvir a música que não se interrompera.

 

Dentro daquela eternidade que não era cronológica, que não se sucedia nem permanecia estancada, mas era toda simultaneidade, a leve náusea que subiu à garganta da senhora da poltrona A5. Como um engasgo, com o qual todos nós, nas poltronas quase todas ocupadas, tínhamos que lidar. Dentro daquela eternidade, como dentro da noite uma noite dentro do peito, a angústia da moça da terceira fila, que a custo contem um gemido, sacrificando a empatia que é sua grande qualidade, controlando a vontade de se levantar e acorrer ao palco, sem todavia impedir sua mão de gelar no braço da poltrona, transmitindo a mesma angústia, mas por outros motivos, ao namorado ao lado, que pouco se dera conta da queda, absorto em outro ponto do palco, e que lhe aperta a mão com força porque prefere não se virar para mirar o rosto da moça tão linda linda linda que ele ama mas ainda não tem certeza se o ama, e ele não pode, em plena noite de sábado, correr o risco enorme de se deparar com algo maior do que suas forças, um rosto tão lindo e tão amado que pode não hesitar em demonstrar que não o ama de volta, com a sinceridade dos rostos pegos desprevenidos.

 

Dentro daquela eternidade que era toda tumultos, o espanto que se formou todo, pleno, gordo em ser espanto - antes mesmo de compreender sua própria causa - dentro da carne tão pouca daquele jovem da terceira fila, que aspirava secretamente reunir um dia a coragem de ser bailarino também, mas que por enquanto só reunia espantos pela vida que nem mesmo chegava a compreender. Esse espanto de quem descobre, com o horror eletrizante de toda primeira vez - porque toda descoberta das incomensuráveis possibilidades da vida traz horror e traz volúpia - que os bailarinos erram, que as bailarinas caem, que a beleza é frágil, o salto é grande, e haverá sim joelhos quebrados e vergonha e medo e, enfim, se é mortal; esse espanto convulsionado de compreensões que de tão novas eram ainda incompreensíveis, nós todos o sentimos, com os mesmos espasmos musculares do jovem franzino que desejava ser bailarino e agora o deseja ainda mais, porém quase desejando não desejar, porque descobriu o medo e a potência inebriante contidos no desejo.

 

Naquela eternidade compartilhada, que não era paz, não era quietude, nem remanso, nem regaço, a dor na córnea da mulher solitária feito um arrancão, como se lhe extraíssem o pulmão esquerdo à força de presenciar aquela queda, aquela impossível queda, inaceitável queda. Toda tão metódica, tudo tão necessariamente, organizadamente, inafastavelmente metódico, porque assim ela mantinha a sanidade contra o mundo de acasos e improvisos, agarrando-se e refestelando-se no que de menos imprevisto podia encontrar, as comidas industrializadas congeladas assépticas, as roupas de tecido sintético que não amarrotava, as traduções que lhe davam o ganho sem que as palavras a serem traduzidas oferecessem resistência, as apresentações de dança que eram a celebração do ensaio, do exato, sem espaço para a invenção nem para o erro, e ali então aquela queda, como um soco, e era também à nossa boca gelada que vinha o sangue quente agredido e estúpido daquela mulher solitária e medíocre, e tão contundida e tão coitada que do contato com sua dor ecoávamos todos uma piedade imensa que expandia a eternidade, dores e dores e penas e afagos a ressoarem e se multiplicarem aproveitando-se da acústica da sala como nenhuma música jamais fizera.

 

No centro geográfico daquela eternidade que preenchia o teatro como a areia de uma ampulheta infinita, a senhora vestida com a ostentação dos impiedosos. Vistosa. Impávida. Só os que não têm compaixão ostentam roupas (e maquiagem, e joias, e carros, e salas de estar, de jantar e de chá) como uniformes, como medalhas por sua dureza que lhes permite caminhar pelo mundo sem dobrar-se ao peso da iniquidade que vestem. Impávida. No centro da sala de espetáculos, no melhor assento que o dinheiro poderia comprar, a executiva de um grande banco transmite, pela rede neural que toma o ambiente, sua impassibilidade, acostumada a ver os outros caírem, a ver os outros errarem, saltos que não se completam, mãos que não acolhem, esgarçamentos. Impávida. E triste, ligeiramente, quase imperceptivelmente doída, lá ao fundo, não da queda, não de tantos desastres que já presenciara, mas de sua própria incapacidade de solidarizar-se. Mas ao mesmo tempo em que transmite essa frieza de esfinge, de montanha que mira o lago e jamais se abala com a neve que a recobre, e essa dorzinha nas suas entrelinhas, no subtexto de si mesma, tão estranha a sua personalidade que mal chega a percebê-la, a dama de chumbo também recebe — com a brutalidade de um vagalhão que nos arrasta e nos afoga e nos faz vomitar sal e espuma — a piedade que nós, os outros, reverberávamos por compaixão com a outra senhora bem ao seu lado!, sua vizinha na segunda ou talvez terceira melhor poltrona do teatro, arrancada para sempre de seu mundo sem erro. Para sempre, por toda a eternidade.

 

Na fila H, o grupo de adolescentes — já anteriormente tão conectados entre si, meninos e meninas e hormônios e transgressões e diluições de fronteiras e identidades e regras - e o espanto muito simples, a dor muito natural, a inquietação muito pura de flagrarem algo que não deveria estar lá, para deleite e pasmo de suas retinas ainda desacostumadas com os solavancos do mundo. Para suas retinas aprendizes, a novidade é apenas uma naturalidade a mais, desconhecida. Três rapazes, quatro garotas, desnudos de medo ou julgamento, espraiando pelo ar frio a sensação muito límpida e muito ingênua, toda descomplicada e quase inexplicável, de doer ao contato do mundo que se altera e absorver na carnatura de sua própria existência essa mutação, qualquer que seja, como um alimento que se ingere, como os seios que crescem, como a voz ou os pelos que se engrossam, como uma eternidade que se vivencia sem interrogações. Os inocentes dentre os inocentes!

 

E logo atrás, porque dentro da eternidade cabem todas as contradições, a antítese: o velho senhor com olhos impacientes de quem busca sempre o inesperado, sôfrego, doendo a cada minuto — há tantos anos! — em que a vida não lhe traz o imprevisto, a ruptura; e doendo ainda mais sofregamente quando, como agora, o atordoamento que saboreia é pouco para quem vive dessas fagulhas, como um viciado condenado à escassez de sua droga e a precisar de doses cada vez maiores para saciar, pelas breves eternidades do tempo afora, sua fome, seu vício de assombros que lhe façam sentir vivo e que lhe digam, na linguagem clara dos fatos, que o mundo ainda se modifica ao acaso, apesar das células tão acostumadas à mesmice de tudo que seu corpo carrega, enrugado, ressecado, quebradiço. Mas ainda curioso, ainda sôfrego, ainda esperançoso das dores que busca nos incalculados da vida. Inocente, nos dando de beber seu vício, agrura e delícia.

 

À direita da eternidade, o crítico, ofendido pelo erro como se lhe fosse uma injúria pessoal. A ele!, que tão cuidadosamente cultivara sua sensibilidade e buscava, nas penumbras dos teatros, fugir da rudeza do mundo acelerado sob o sol, e mergulhar apenas em beleza sua alma cultivada. Ofendidíssimo, as mãos tremendo. Inocente.

 

À esquerda, a irmã da bailarina, sofrendo uma vergonha muda sem sentido, por dever familiar, por convenção social que nada tem a ver com seu amor pela bailarina.

 

A noroeste. No balcão nobre, nas frisas e camarotes. Nas bordas todas daquela eternidade. Nos oitocentos e trinta e sete lugares ocupados. Em todos, entre todos, de cada inocente ao outro, a dor, as muitas dores, tão pungentes, delicadas, expostas aos desconhecidos com quem se compartilhara uma visão da queda. Para sempre.

 

E então, porque tudo cessa, a eternidade cessou. A dor, toda dor, sempre amaina. E no instante seguinte, nos entremeios da dança que prosseguia, coreografando o tempo infinito, nossas dores inculpadas, matéria da eternidade, também foram se aquietando e a eternidade foi desvanecendo, até que não mais. Mistérios, porque tudo são mistérios.

 

Epílogo

 

Depois de recomposto o mundo, depois de cessada a eternidade - porque as eternidades também se acabam -, muito depois, quase ao fim do espetáculo, um outro desastre, um outro soluço na fluidez do mundo. Esgarçamento, ruptura. Desta vez, sim, a música. Interrompida. Durante segundos que gritavam tão alto o seu silêncio que poderiam ensurdecer as aves migratórias do Ártico em pleno voo. E o silêncio, vocês sabem, é sempre perigoso. Sempre emprenhado de eternidades possíveis. Mas dessa vez, mesmo já tão longe daquela outra eternidade, desvanecida, outra não se germinou. Já fôramos tocados. Não éramos mais inocentes.

 

 

 

 

 

 

Recorte de uma espera
(inédito)

 

Soube que vais voltar. E poderia mesmo não escrever mais nada.

 

Declarar, apenas: vais voltar. Sem nem ao menos a honestidade de explicar-me. Pois quando compreendi a notícia, foi como se nada mais eu processasse: nem como soubera; nem o que pretendia com esse sol que me luzia ardentemente, ofuscando tudo o mais. Declarava-se em mim, apenas: vais voltar. Era tudo, e não havia o que mais dizer, por instantes incontáveis. Porém mesmo sem que eu os contasse, passaram esses instantes em que havia tão somente aquela compreensão nua e pura de um fato.

 

Então, como se os raios desse sol — vais voltar! — alcançassem e energizassem ao mesmo tempo inúmeras partículas do que sou, transbordei-me em movimento turbulento de ti em mim, rodopiando, em vagas, tu em mim. Fragmentou-se em implicações infindas a força daquele sol que durante imprecisos momentos estancara a contagem do tempo, e agora eu queria, ainda que tremendo, tentar descrever a agitação em que eu me pusera. Porque me encontro quando (d)escrevo-me. E transbordando como eu estava do que em mim reflete a ti, eu corria o risco de me perder indefinidamente.

 

Passei, pois, a tentar identificar e organizar o tanto que em mim se agitava. Respirei fundo e repeti com lentidão, como ponto de partida, dando a cada fonema o peso de uma certeza: vais voltar. E daí? Primeiramente, instintivamente, pensei assim: tu, com quem sonhei tanto, vais voltar. Não uma consequência, mas uma memória. Sorri. Porque ter sonhado contigo, assim tanto tanto tanto, me fazia tão feliz e era de grandeza tal que se agregava ao conhecimento da tua volta antes de qualquer outro pensamento. Voltará alguém com quem sonhei. Era morno isso.

 

Ainda saboreando essa memória, tanto e tanto, lembrei-me porém que não fizera planos desde a última vez em que te vira. Planos, concretos. Com a calma possível, naquela agitação que em mim fremia, procurei dissipar o sobressalto desta aparente contradição. Reconciliei, com inocente dignidade, essas duas constatações que ora se chocavam, ora se encadeavam: sonhei tanto! E não planejei nada! Tudo bem. Não era tempo, ainda. Era tempo dos sonhos, antes: devaneios, apenas, imaginares. Mas agora! Agora... E agora?

 

É importante manter a clareza e exatidão das coisas, eu me disse, ou toda esta dança de ti em mim vai me enlouquecer. Não há projetos a retomar, certifiquei-me. Muito bem, apertei o maxilar para me concentrar. Podia avançar outro passo na construção que eu tentava do discurso da tua volta, alinhando, com a dificuldade de quem se contém, toda aquela desordem que latejava em minha carne.

 

Eu tentava estabelecer com sólida racionalidade em que posição tinha mantido a ti no horizonte do que me ocupa, desde quando nos conhecêramos até aquele momento. Para reposicionar-me perante o deslocamento que tu, aqui!, representava nesse horizonte.

 

Mas enquanto essa parte de mim que é a necessidade de manter-me lúcido buscava construir uma arquitetura de lógica e solidez em torno desse sol que todo me desordenava, irradiou-se no meu corpo um arrepio de ânsia por aquilo que de incerto (e talvez feliz!) temos à frente, quando uma mudança qualquer se encaminha, e cortou-se o discurso linear que eu tentava, como numa explosão: VAIS VOLTAR! (— vinha-me novamente). E pouco importava então a conciliação que eu pudesse conseguir das forças que eram tu-em-movimento-em-mim: turbilhonavas-me vez mais.

 

Caoticamente assim o conhecimento da tua volta me remexia.

 

E feito essa quebra brusca (como todas as quebras) da linearidade que eu a custo ensaiava tivesse rompido o início de um fluxo direcionado, e acelerado em muito o convulsionar em que eu me debatia, e ainda além, feito me impedisse de retomar qualquer lógica que me salvasse de um afogamento em sensações e pensamentos fora de controle, eu me perdi.

 

Sem mais o poder de enlaçar e organizar o tanto que em mim ebulia; sem mais tempo para contornar as ideias e espantos que me ocorriam e corriam, e analisá-los de outra perspectiva até compreendê-los em si mesmos, e não apenas como seu alvo; sem forças que dobrassem a força maior e mais veloz das vagas enormes de excitamentos vários que em mim se criavam e me atingiam, por todos os lados de dentro, sem qualquer aviso, eu me perdi. Novamente, por instantes incontáveis.

 

Talvez a intensidade desse transe fosse grande demais para ser registrada. Dele restaram apenas digressões e fragmentos desconexos, desimportantes. Embora eu saiba que verdades se revelaram a meus olhos e minha carne, suas cicatrizes, sem que eu conseguisse resguardá-las da tormenta, foram distorcidas, apagadas e escondidas por imagens outras, pequenas muitas bobagens que se geram em nós quando assim indefesos contra o que nos consome. Embora eu saiba que respostas cruzaram meu ser em brasa e se aninharam sorridentes em recônditos onde eu poderia tê-las preservado em outras circunstâncias, para que não fugissem, expulsas pelas não-respostas e não-verdades, eu não tinha elaborado as perguntas, e apenas o que não pesava, justamente por superficial, é que se fixava em mim.

 

Lembro-me de ter pensado que voltarás ao mar que te embalaste quando eu nem sonhava em te encontrar, e beijar-te, e perder-me em ti, como me perdi, e tocar-te, e afastar-me, como me afastei, porque era preciso, muito embora eu não quisesse.

 

Lembro-me de ter pensado que podes não gostar do meu novo corte de cabelo. E que adoro a marca de nascença que tens no ombro esquerdo. Que provavelmente teu voo deve chegar à noite. Tantas leviandades lembro, e fragmentos que não chegam a ser nem mesmo leviandades inteiras, como pequeninas asas translúcidas de insetos, desgarradas após o vendaval. Mas nada do que seria importante.

 

Talvez não seja bem que a intensidade daquele rebuliço me tenha impedido de manter em nitidez o que de importante me atingiu. Não exatamente. Talvez tenha sido o que seguiu que tenha reavivado meu senso de autopreservação, e esse instinto, tão mais forte quando acossado, tenha varrido de mim tudo o que, por sua gravidade, pudesse me estilhaçar irreparavelmente.

 

O que seguiu foi que, do meio de toda a balbúrdia e toda a ventania, certa inflexão do fato que iniciara todo este fragor — vais voltar! — subitamente fez cessar o convulsionamento em que eu me encontrava. Tu vais voltar! Tu! Como eu podia me alvoroçar tanto por tua volta sem saber o que em ti vai se passar, quando vieres? Não, não, vinte vezes não! Entregar-me assim era perder-me demais. Vivenciar sozinho tantas possibilidades de interação a dois, fosse ela qual fosse, era absurdo demais, e injusto demais comigo mesmo. Era estúpido demais.

 

Congelou-se em mim o torvelinho de conjecturas, lembranças, emocionamentos do qual tu eras a causa, mas que também era essencialmente um desenrolar-me de mim mesmo. Um desenrolar-me de mim em mim. Congelou-se numa expectativa que vibrava imóvel, cheia de uma inquietude que desejava gritar, mas não sabia o que. Porque a expectativa era por algo fora de mim. Expectativa de ti.

 

Assim boquiaberto e imerso em uma claridade oca de qualquer conhecimento – do que tu queres, sentes, pretendes! – foi que consegui, ao fim de uma incompreensão tão vasta que parecia eterna, articular a pergunta que agora parecia óbvia: tu, que me atiraste neste redemoinho de sorrir ao antegozar irrealidades, pensas em mim?

 

E porque a imobilidade que se fizera enquanto eu criava aquela pergunta não mais se pudesse conter, agora que a pergunta escapara de mim, a expectativa desenhada no ar vibrou mais forte e mais forte até disparar em ânsia cega, galopante, por uma resposta.

 

Eu e meu alvoroço nos mantínhamos ainda latentes, sob a lâmina daquele instinto de autopreservação que deslocara de mim para ti toda a fúria que a tua volta me causava. Mas novamente algo se debatia. Não dentro, e sim fora, nos espaços onde voava a indagação que eu formulara. Debatia-se no vazio essa dúvida, desesperada por algo sólido em que esbarrar e lhe servir de pouso.

 

Mas não, minha dúvida ansiosa não encontrou pouso algum. Apenas um silêncio tão pesado e vasto como um mar imensamente fundo. Um mar de estranhas águas paradas, que eu não poderia saber se eram silenciosas porque — turvas feito um céu noturno — me impedissem de nelas enxergar qualquer resposta; ou se porque tão transparentes que através delas eu visse que a resposta simplesmente não estava lá, no mar que a minha pergunta criara.

 

A resposta estava em ti. A resposta está em ti, e não alcanço.

 

E agora é onde me encontro: nesse mudo mar cujo único som é o eco do meu desejo de saber se pensas em mim. Sou todo um mar que te aguarda. Um mar que congelou suas próprias vozes – minhas próprias vozes — e agora existe como uma incessante febre que queima sem ondas, sem movimento, sem ruído, sem cais onde bater ou praia onde dar. Tu és o que virás dar sentido a este mar que eu sou, e por enquanto a espera e a febre de esperar são tão enormes que não deixam sequer espaço para especulações sobre como tudo vai se resolver.

 

Isso. Todo o resto congelado, aguardo. Ardo, enquanto isso. Tu não tardas, vais voltar. Porém, durante a espera, que me resta? Ardo em água, aguardo.

 

Thássio Ferreira (1982). Escritor radicado no Rio de Janeiro, publicou os livros de poesia (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016) e Itinerários (Ed. UFPR, 2018). Editor e curador da Revista Philos de Literatura Neolatina. Tem poemas e contos publicados em revistas (virtuais e impressas) e antologias, como a Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Escamandro — poesia tradução & crítica, Gueto, Mallarmargens e Germina. Seu conto “Tetris” foi o vencedor do Prêmio Off Flip 2019, e seu livro inédito “Cartografias”, finalista do Prêmio Sesc 2017. Participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2017, a convite da Liga Brasileira de Editoras — LIBRE, e em 2018 e 2019 como realizador e debatedor da Casa Philos.

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Nuno Baptista


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