ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Hugo Pontes


Poesia: Hugo PONTES: O pastoreio do esteta    

I.

 

 

Dois poemas

(2019)

 

MINAS

 

Pastos de pedra
  aboio do ouro

raízes ruínas

    restos

do nada
que sobrou.

 

 

 

 

III.

 

POEMAS entre 2.000 e 2014

 

ENTRE ÁGUAS

 

Dos rios
da vida
lembro-me com saudade.

 

Saúde, meu rio Verde.
Grande, Araguaia,
Sena e Pardo.

 

E o pequeno
Ribeirão do Doido?
que leva as águas
ao agricultor de estrelas,
e ao pescador de sonhos.

 

 

 

 

 

 

MITOLOGIA

 

No passado,
num reino próximo,
dois bois centauros
sentaram
para conversar
e
cultivar amizade.

Dois centauros,
bois centauros
hoje
não valem centavos.

 

 

 

 

 

 

LOTERIA

 

Anti-povo
anti-ovo

 

no xis
os ais

 

bolso menos,
oco mais.

 

 

 

 

 

 

CONSTATAÇÃO

 

Banqueiro
   não rima
   com poeta.

 

   Aquele
Conta dinheiro,
   Este canta
   É esteta.

 

 

 

 

 

 

SEM PALAVRAS

 

Para não dizer
que não falei de flores

 

Coloco uma rosa
no poema,

 

Mas os espinhos
ficam no coração

 

 

 

 

 

 

VELHO CHICO

 

O
Rio
São Francisco
não cabe
no corpo
da terra

 

não cabe
no corpo
de Minas

 

não cabe
no corpo
do homem

 

mas cabe
no coração.

 

 

 

 

 

 

CRÍTICA

 

Decidido:

 

Nem crítico,
  nem poeta.

 

Um esteta.

 

 

 

 

 

 

VERDE RIO VERDE

 

Rio Verde
de meu primeiro banho.

 

Águas da minha sede,
Peixes da minha fome.

 

Rio
meu mar
da infância.

 

Morres lento,
na morte dos meus sonhos.

 

 

 

 

 

 

EMPÓRIO

 

Poemas são linhas
empilhadas como mercadoria
nas prateleiras da vida.

 

Poemas,
quem há de comprá-los?

 

Mercadoria tão rara,
tão cara
aos olhos de quem a fez.

 

Poemas,
quem se dispõe encontrá-los?

 

 

 

 

 

 

VULCÃO

 

Os mortos não,
os mortos são
mais os mortos
da minha vida.

 

A lava do vulcão
não traz a fertilidade
mas faz um sulco
e marca
o coração do homem.

 

 

 

 

 

 

PASTOREAR

 

Subir a montanha
e guardar o rebanho
a fogo e ferro.

 

Salgar o rebanho
em rastro de terra
e palmo de pedra.

 

Subir a montanha
e pastar a palma nativa
e regar a areia
e criar o limo.

 

Subir a montanha
colher e comer a pedra
em vinagre e sal.

 

 

 

 

 

Hugo Pontes é um poeta e professor brasileiro, nasceu em Três Corações, Minas Gerais, 22 de julho de 1945. Formado em Letras (português/ francês), pelo Instituto de Ensino e Pesquisa de Divinópolis, em Minas Gerais. Possui especialização em literatura brasileira pela Pontifícia Universidade Católica de Belo Horizonte. Em 1963, inicia a carreira literária em Oliveira, Minas Gerais. No mesmo ano, funda o Grupo VIX de poesia de vanguarda junto com Márcio Almeida (1947), Márcio Vicente Silveira Santos e Waldemar de Oliveira. Além disso, faz parte do movimento de Poema/Processo com o grupo de poetas da cidade de Cataguases, Minas Gerais.
Mantém desde 1996 o sítio: http://www.poemavisual.com.br/
Desde o começo, revela-se um poeta preocupado com o espaço branco do papel, tanto que cria o primeiro poema (visual) símbolo do Grupo. No final dos anos 1960 integra o movimento de Poema/Processo com o grupo de poetas de Cataguases. A partir de 1970 volta-se para o poema visual e desenvolve intenso trabalho, integrando o movimento visual a Arte Postal no Brasil e no exterior, tendo participação em mais de 500 exposições por diversos países. Suas atividades literárias e de pesquisa histórica resultaram em uma lista de obras publicadas de poesia, poema visual, o ensaio e a história. Tem cerca de trinta obras publicadas entre livros-solo e antologias.

Em sua atividade como educador, ao longo de 40 anos, foi professor de várias instituições, entre elas, PUC-Minas, professor e coordenador do curso de Turismo, da Extensão Universitária e das Relações Institucionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - Poços de Caldas - tendo sido um dos integrantes na implantação do Campus (1997-2005); professor da Universidade de Alfenas, Campus de Poços de Caldas (2005-2007); Supervisor Pedagógico da Prefeitura Municipal de Poços de Caldas,  desde 1987. Em 1997 ocupou o cargo de Secretário Municipal da Educação e Cultura de Poços de Caldas.

Em 1974, muda-se para Poços de Caldas, onde leciona no campus da Universidade de Alfenas e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Correio do Sul, Estado de Minas e Jornal de Poços. Sua produção está ligada à poesia, ao poema visual, à arte postal e arte-xerox. Nos anos 1990, participa de exposições no Canadá, Hungria, Rússia e Austrália com a temática do poema visual. Desde 1996, mantém o site Poema Visual, que divulga poemas visuais e arte postal. Publica os livros Defesa de Tese: Poemas sem Fronteiras (1997) e Poemas Visuais e Poesias (2002). É homenageado pelo 24° Congresso Brasileiro de Poesia, em 2016.
Seu trabalho é influenciado por Lêdo Ivo (1924-2012), João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). O conjunto de sua obra é marcado pela temática social e pelo teor combativo com traços de experimentalismos visuais.
Fontes para pesquisa:
Artigo sobre Projeto: 100 anos de Paulista: Casa das Rosas
Artigo sobre Brazilian Visual Poetry (2002 : Texas, Estados Unidos) Mexic-Arte Museum (Austin, Texas, EUA)
Artigo sobre Poéticas Visuais: arte, conceito e intimidade (2008 : São Paulo, SP)
Poéticas Visuais: arte, conceito e intimidade (2008 : São Paulo, SP)

Seu sítio: http://www.poemavisual.com.br/
PONTES, Hugo. Poemas visuais e poesias. São Paulo: Dix Editorial, 2007.
Disponível em:
<https://books.google.com.br/books?id=wQo1sI8Od4cC&pg=PA157&lpg=PA157&dq=caderno+de+poesia+poema+visual&source=bl&ots=XQ0vElNCkP&sig=SRfR8aqavHGv9og2DUf_Zk_tu6M&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwj2n4nMzrLQAhWGUZAKHQa3DBkQ6AEIPjAK#v=onepage&q=caderno%20de%20poesia%20poema%20visual&f=false   >. Acesso em: 18 nov. 2016.
Entre os links:
ANTÔNIO MIRANDA. Site oficial. [Brasília], 2004.
Disponível em:
< http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_visual/hugo_pontes.html  >. Acesso em: 18 nov. 2016.
BLOCOS ONLINE. Maricá, 2013. 2016.
Disponível em:
<http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/obrasdigitais/mudarmundo/01/paginas/hpontes.php  >. Acesso em: 18 nov.
IARA SCHMEGEL. Página oficial. [Porto Alegre], 2016. 
Disponível em:
<https://www.facebook.com/iaraschmegelpoetaescritora/photos/pb.812669215432730.-2207520000.1474414816./1242852389081075/?type=3 >. Acesso em 18 nov. 2016.
LEÃO, Rodrigo de Souza. Entrevista concedida por Hugo Pontes a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco. In: A garganta da serpente. [s. l.], 2002.
Disponível em:
 http://www.gargantadaserpente.com/entrevista/hugopontes.shtml  .Acesso em: 18 nov. 2016.
MOSTRA Internacional de Poesia Visual e Eletrônica. Itu, 2005.
Disponível em:
< http://arteonline.arq.br/museu/library_pdf/catalogogrande.pdf  >. Acesso em: 18 nov. 2016.

Fonte:
HUGO Pontes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019.
Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa254448/hugo-pontes>. Acesso em: 11 de Ago. 2019. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


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