ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Mexer no vespeiro: o maior barato    

Segundo o contista mineiro Francisco de Morais Mendes, quando mexi no vespeiro, achei uma boa senda para bagunçar a literatura. A coisa, entretanto, não é muito complicada: é só você se lembrar de algumas passagens de livros que foram marcantes. Pegar um trecho deste, um pouco daquele e concluir com um outro.

 

Desta feita, resolvi pegar um tema só, com quatro belos autores: Franz Kafka, com A metamorfose; Clarice Lispector, com A paixão segundo G.H; Luíz Vilela, com um trecho de sua novela Entre amigos, finalizando uma crônica muito engraçada de Millôr Fernandes, “Barata à vista”, extraída do livro Lições de um ignorante. Vamos a eles.

 

Ao despertar pela manhã após ter tido sonhos agitados, Gregor Samsa encontrou-se em sua própria  cama transformado num inseto gigantesco.

 

Ao mesmo tempo eu também estava um pouco desconfiada. É que, assim como antes eu me tinha apavorado com a entrada naquilo que poderia vir a ser o desespero, agora eu desconfiava de estar de novo transcendendo as coisas... Estaria eu alargando demais a coisa exatamente para ultrapassar a barata e o pedaço de ferro e o pedaço de vidro?

 

- Vocês por acaso já pensaram algum dia no pavor que uma barata deve ter da gente? A gente deve ser pra elas uma espécie de monstro, o que um monstro antediluviano devia ser para o homem das cavernas. [...]

 

- A semana passada a Rita comprou um remédio pra barata...

 

- Quê que a barata tinha? – perguntou Ezequiel: - dor de cabeça? dor de barriga?

 

Não se deixe levar pela vaidade. Às vezes você atinge uma barata de leve e ela vira-se de barriga para o ar agitando as perninhas ininterruptamente, com a expressão de quem está dando uma gargalhada, achando você engraçadíssimo. Continue lutando até que possa, como nós, cobrar caro pelas lições administradas. E essa é nossa última recomendação: cobre sempre caro pelos seus conselhos nesse setor. Não se barateie.

 

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


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