ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

José Arrabal


Luiz Gama: um negro brasileiro    

 

Na história da inteligência brasileira, no século XIX, não há personagem mais instigante e original do que o ex-escravo, poeta, jornalista, advogado e combativo militante negro Luiz Gama, autor da obra “Primeiras Trovas Burlescas”, poesia de briga e sátira com excelente qualidade literária.

 

            Sua vida de escritor e valente publicista surpreende, sobretudo, por ter sido bem sucedida num meio social escravocrata totalmente adverso às suas condições e possibilidades pessoais.

 

            Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu na Bahia a 21 de junho de 1830.

 

            Consta que é filho natural de mulher negra da Costa do Marfim, uma quitandeira livre da cidade de Salvador chamada Luiza Mahin.
            De seu pai, nada se sabe, senão que era um fidalgo de tradicional família baiana.

 

            De Luiza Mahin, a mãe, diz-se que tinha leitura, sendo valente mulher de saber, provavelmente uma fiel muçulmana, pois referências históricas a comprometem com a Revolta dos Malês, levante acontecido em 1835, quando negros maometanos se puseram contra a escravidão na província da Bahia.

 

            Há também registros da participação dela na rebelião conhecida por Sabinada de 1837, ocasião em que, após frustrado o movimento revoltoso, Luiza, sob forte perseguição policial, teria fugido de Salvador, Bahia, para o Rio de Janeiro.

 

            No ano seguinte, viu-se expulsa do Brasil, sob a acusação de ser uma africana rebelde e turbulenta. Assim retornou à África. E dela nada mais se soube.

 

ESCRAVO EM SÃO PAULO

 

           O menino Luiz, aos dez anos de idade, é vendido como escravo pelo próprio pai, transferindo-se para as mãos do comerciante paulista Antonio Pereira Cardoso, dono de uma pensão na capital da província paulistana.

 

           Ainda escravo, o moleque aprende a ler e a escrever por obra graça do estudante Antonio Rodrigues do Prado Júnior, um dos pensionista de seu senhor.  Ativo e inteligente, convencido de seu direito à liberdade, aos 18 anos Luiz Gama, provavelmente ajudado pelos jovens hóspedes da pensão, foge do mando de seu dono.

 

           Em seguida, aparece alistado na Guarda Municipal, onde ganha a simpatia e a proteção de uma das maiores autoridades de São Paulo, o Conselheiro Furtado, catedrático da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e Chefe da Polícia paulista, de quem o moço negro se torna ordenança.

 

           O rapaz permanece na tropa por seis anos, chegando à patente de cabo de esquadra. Abandona, porém, a carreira militar, após ter passado um mês preso por insubordinação.

 

           Não deve, contudo, ter perdido as boas graças do Conselheiro, que arranja para o protegido o emprego de amanuense, na Chefatura de Polícia de São Paulo.

 

           Autodidata esforçado, Luiz Gama por essa época, se não freqüenta qualquer curso regular, mantém, por sua vez, estreita amizade e convivência permanente com os agitados moços da Faculdade de Direito do  Largo de São Francisco, em São Paulo, partilhando de suas idéias radicais libertárias, em torno da liderança do poeta e professor de Direito José Bonifácio, o Moço, sobrinho do Patriarca da Independência do Brasil.

 

           Em 1859, destaca-se no ambiente cultural da cidade, ao publicar seu livro de poesias “Primeiras Trovas Burlescas”. Obra que encontra grande receptividade na imprensa e junto ao público leitor, sobretudo por rimar contra alguns costumes literários da maré romântica, fazendo uso da sátira de costumes e acentuando com irreverência e humor os ideais iluministas da jovem intelectualidade paulista.

 

           Desde então cresce a estrela de Luiz Gama na cidade. Brilho que alcança a Corte três anos depois, com uma segunda edição do livro no Rio de Janeiro, sede do Império.

 

           Sua obra poética ataca com áspera e hilária ironia os hábitos urbanos conservadores, a justiça, os políticos, a Guarda Nacional, os privilégios da Igreja, os barões e a impunidade dos poderosos. Não poupa sequer o Imperador Pedro II. E, sobretudo, se expõe como uma radical defesa da raça negra, de sua linguagem, hábitos, valores, estética e inteligência, desferindo vigorosos ataques contra os preconceitos escravocratas da sociedade branca dominante.

 

JORNALISTA RADICAL

 

            O poeta respeitado torna-se jornalista combativo. Defende as mais ousadas teses progressistas, principalmente a abolição do trabalho escravo. Funda jornais e revistas satíricas. Abre escolas gratuitas para crianças pobres. Cria bibliotecas. E se junta ao movimento anti-monarquista,  participando como militante polêmico e inquieto de todos os encontros, comícios e congressos que culminam na fundação do Partido Republicano, em 1873.

 

            Defende a instauração da República como conseqüência de um forte movimento popular. E combate com intransigência crítica as intenções políticas retrógradas da oligarquia rural escravocrata que se aliava ao republicanismo.

 

            Poeta e jornalista vigoroso, Luiz Gama, mesmo sem o diploma superior da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, obtém registro provisório de Advogado. Passa então a defender gratuitamente, na capital, no interior do Estado e mesmo na sede do Império, as mais diversas causas dos escravos.

            Consta que ao longo de sua vida, com argumentos jurídicos conseguiu a liberdade de uns 500 negros cativos.

 

            Era uma espécie de “terror dos fazendeiros”. A Luiz Gama, inclusive, atribui-se a convicção de que “perante o Direito, é justificável o crime de homicídio na pessoa do senhor”. Nos tribunais consta  que era seu costume bradar para a corte de jurados, juízes e platéia: “ - Todo escravo,  se mata seu dono, mata em legítima defesa”. Grito que fez crescer sua fama de tribuno ousado, guerreiro abolicionista.

 

           Criou, coordenou e comandou brigadas de homens que, na calada da noite, invadiam fazendas de café para facilitar e ajudar na fuga de escravos levados à liberdade até locais com segurança.             

 

              Claro está que toda essa militância rebelde e radical não aconteceu sem dificuldades ou duras atribulações. Por várias vezes, o polêmico publicista enfrentou processos e prisão. Chegou a ser acusado de “agente da Internacional Comunista e fomentador de insurreições de escravos”, em 1871,  quando acontecia, na França, a Comuna de Paris.

 

            O valoroso ex-escravo que se tornara destacado homem público tinha, porém, a seu favor a imprensa independente, a simpatia da juventude liberal, o respeito dos políticos progressistas e o poder da maçonaria, onde ocupava cargo de relevo. A isso se somava a firme admiração do povo paulistano e mesmo carioca, que considerava Luiz Gama como uma espécie de incansável titã libertário contra os desmandos dos poderosos fazendeiros do Segundo Império.

 

            Ao morrer, em 24 de agosto de 1882, registra a crônica jornalística de época que seu funeral foi o mais concorrido e jamais visto igual, na cidade de São Paulo.  Nos meses que se seguiram, foram incontáveis as homenagens póstumas prestadas a sua memória por todo o país.  

 

PRESENÇA E CONTROVÉRSIA

 

O baiano Luiz da Gama costuma chamar a atenção como escritor, no mais das vezes, por ter sido ex-escravo e por sua vida quase lendária de militante radical e rebelde intransigente, jornalista e advogado comprometido com as causas da abolição da escravatura e proclamação da República.

 

Pode-se especular, contudo, que tais aspectos biográficos contribuíram para que ele fosse, no decorrer do tempo, colocado um tanto à parte e visto com desprezo racista pela história oficial da literatura em nosso país. Desprezo que se acentua pelo costumeiro desdém que muitos ensaístas conservadores manifestam frente à sátira como modelo poético.

 

Já os que admiram Luiz Gama tendem a superestimar sua poesia. Procuram avaliá-la a partir da duvidosa consideração de que o poeta seria uma espécie de precursor nacional das ideologias norteadoras da identidade negra e da negritude, no Brasil.  Vale dizer que ainda hoje até mesmo a crítica mais especializada se divide a respeito de sua obra.

 

Há os que não hesitam em considerá-lo um poeta menor, ainda que reconheçam que o ex-escravo foi em vida um escritor extremamente bem conceituado. Outros comparam Luiz Gama ao poeta baiano Gregório de Matos Guerra. Muitos até o consideram superior.

 

Distante de quaisquer deméritos preconceituosos ou de fáceis exaltações míticas, a publicação, no ano 2000, de sua obra completa (“Primeiras Trovas Burlescas” )  pela editora Martins Fontes, no Brasil, procura encontrar um lugar justo e preciso para situar a presença do poeta na literatura nacional.

 

O que Luiz Gama produziu como poesia foi sátira política e de costumes. Escreveu, igualmente, alguns poemas líricos, mas, sendo por excelência um escritor engajado, coloca-se de maneira apaixonada como observador crítico, irônico, imediato e cotidiano do Segundo Império.

 

Deste patamar, alcança uma poética de feitio tão inconformado, quanto divertido, sendo, no fundo, um ousado moralista social.

 

Combate a corrupção política, a hipocrisia e os desmandos dos poderosos, o “branquismo” dos mulatos, os abusos do baronato e do clero, a inépcia do poder judiciário. Também ridiculariza certos comportamentos urbanos submissos às novidades da moda. Não escapam da acidez aguda de seus versos hilários os doutores, os magistrados, os políticos, os militares, os nobres, os conselheiros da Corte e até mesmo o Imperador.

 

BELEZA NEGRA 

 

Sua estrela guia é toda uma compreensão um tanto carnavalizada dos ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade, expressos de modo radical e intransigente, também com traços de caricatura:

 

Se temos Deputados, Senadores,
Bons ministros e outros chuchadores
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;

............................................................................
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,

Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!


Não livra sequer a si mesmo de suas ironias: 
Quero que o mundo me encarando veja,
Um retumbante Orfeu de carapinha,
......................................................................

Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,

Montado num Barão com ar de zote(...)” 

 

E nem se leva muito a serio como poeta:
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
À virtude e à inteligência”. 

 

Claro está que sua bandeira privilegiada é o combate ao racismo escravocrata existente na sociedade brasileira. Sua sátira e mesmo sua lírica, com vasta liberdade criadora, são, sobretudo, falas de um escritor negro a favor de sua gente.

 

Por sinal, é o primeiro poeta do Brasil a cantar a beleza peculiar da mulher negra e a fornecer respeitabilidade estética aos hábitos, valores, vocabulário e linguagem da comunidade afro-brasileira. Cultura que dispõe em pé de igualdade com as referências literárias européias.

 

Contudo, se Luiz Gama dignifica o negro, sua meta ardorosa de escritor iluminista será fraternalizá-lo com os irmãos brancos, nacionais ou estrangeiros, na perspectiva da igualdade social.

 

Em suma, suas aspirações libertárias são universalistas e modernas.

 

Sendo um poeta guerreiro, militante e combativo, Luis Gama apreende, polemiza, mistura, devora e devolve, em sátira ou lírica, o cotidiano do Segundo Império, no Brasil. Elabora seu modelo de poesia popular com sinais de ocasião, o que algumas vezes dificulta o diálogo com nossos dias.

 

 Entretanto, ainda hoje é divertido e sábio ler a sátira de Luiz Gama, ou é pungente e emocionante entrar em contato com sua lírica.

 

 Sem dúvida, estudar sua obra como sintoma de um tempo torna-se uma justa necessidade para melhor compreendermos o desenvolvimento da história da inteligência brasileira em seus compromissos e procedimentos críticos.

 

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SP/SP

 

 

JOSÉ ARRABAL é professor, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular Na Cultura Brasileira – Teatro” (Editora Brasiliense), “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras - Vol 1/Vol. 2”, “Histórias do Brasil”, “Cacuí, O Curumim Encantado”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta”, “Da Vinci das Crianças”, “O Terrível Gosmakente”, “Lazarilho das Crianças”, “A Chave e Além da Chave” (Paulinas Editora), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço” (Editora FTD), “Histórias do Japão”, “O Lobisomem da Paulista...” (Editora Peirópolis), “Contos Brasileiros” (Editora Expressão Popular), “Sherlocks On The Rocks Nas Diretas Já”, “A Sociedade de Todos os Povos” (Editora Manole) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora), “Nouvelles Brésil” (Éditions Reflets d’Ailleurs - /França/2014). Blog: http://josearrabal.blogspot.com.br/ 

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