ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: "A poesia de cada dia"    

O título da crônica deste mês refere-se a um verso de Oswald de Andrade, um dos nossos mais famosos escritores Modernistas brasileiros. O poema no qual ele se insere intitula-se “Escapulário” (foi musicado por Caetano Veloso) e, roga, como proteção divina, a presença da “santa” e poderosa poesia diária, aquela que nos desenvolve a sensibilidade, a contemplação meditativa, a fé em nós mesmos, a criatividade e o senso crítico. No entanto, a Geração Poética de 70 foi duramente criticada justamente por ela ter desmitificado o fazer poético como a procura do belo inacessível e sublime, abordando assuntos considerados comezinhos e “prosaicos” (no sentido de triviais), focalizando (e perdendo tempo com) questões “de somenos”. Este deslocamento radical do altar em que a veneravam os vates beletristas e suas musas diáfanas para o “rés do chão” (poesia com os pés no chão, sem sombra de dúvida), fez com que esta produção fosse desvalorizada e até estigmatizada em nosso país, condenada principalmente pela temática, como se fôssemos nós a criar esta proposta – sociologicamente denominada “estética da banalidade” por Maffesoli, que a analisa com seriedade, por ela ser um componente marcante e presente em todas as artes contemporâneas. Esquecem os detratores da poesia coloquial de que o cotidiano apresentado como contraplano contextual não foi inovação do Modernismo, nem tampouco da Geração 70. Veio muito antes da sociedade de consumo, recua até os ensinamentos filosóficos do zen budismo (séculos XIII-XVII, ou até mesmo antes) através dos quais tudo o que acontece na natureza, em qualquer um dos seus reinos, motiva a reflexão – até mesmo as moscas pousadas nas mãos de um velho, em Issa, ou uma simples pimenta, em Bashô:

Bando de moscas –
Que gosto pode haver
Nestas mãos enrugadas?
Issa

Uma pimenta.
Colocai-lhe asas:
Uma libélula rubra.
Bashô

 

Paladares... Gostos... Alimentos... No Budismo, a atenção dirigida ao próprio sustento é importante, por ser a comida uma forma de praticar a não violência, de reverenciar o preceito do  ahi?s?, que preconiza não se cometer crueldades/atrocidades contra outros seres, portanto de praticar a compaixão; na “cozinha de devoção” (sh?jin ry?ri) japonesa, na cozinha budista (zh?icàie) chinesa, todos os atos anteriores, durante, e posteriores à refeição são igualmente significativos e relevantes. Há muitos koans contados a este respeito. Talvez o mais conhecido deles seja a de um monge que certa vez, na hora do café da manhã, veio até Joshu (japonês sagrado mestre em idade precoce, aos treze anos) e disse: – "Acabei de entrar neste mosteiro. Por favor, ensine-me." – "Você já tomou seu mingau de arroz?", perguntou Joshu. – "Já, sim", replicou o monge novato. – "Então é melhor lavar sua tigela", disse o mestre. Esta foi a primeira lição que o neófito recebeu no mosteiro – simples e objetiva, mas também repleta de sutilezas: a prática “vulgar” de lavar a louça, do desjejum ao famoso ritual do chá, reveste-se de transcendência: envolve, para além da limpeza (sua finalidade imediata), vários tipos de atividades perceptivas, tais como: a observação do tato em contato com diversas texturas, do entorno, a concentração no aqui-agora, a reflexão e valorização da nutrição, o agradecimento por ela, etc.. Ensina o Hexagrama 62 do “I Ching – Livro das Mutações” (texto clássico chinês anterior à dinastia Chou (1150-249 a.C.): “EXCEDENDO-SE SENDO PEQUENO se exerce influência. É conveniente insistir, mas só em assuntos restritos e não importantes. Um pássaro voando deixa sua mensagem: ‘não é apropriado subir, o certo é descer’; nesse caso haverá grandes benefícios!”. Viver, sem grandes pretensões, mas equilibrada e intensamente; voar o mais alto possível (sem chegar muito perto do sol se tiver asas de cera, como Ícaro), e saber quando pousar para descansar. Transpondo para nosso dia a dia ocidental: nenhuma tarefa é enfadonha em si mesma, nós é que a rotulamos como entediante.

 

A filosofia zen mergulha na prática de cada ato simples da vida para dela apreender o significado da existência em sua unidade. Paulo Leminski (amigo curitibano e companheiro da minha geração poética) escreveu em seu livro “Vida”: “Bashô elevou a prática cotidiana, no haicai, a um patamar altíssimo, a uma arte (haiku-dô). (...) Os pensamentos mais sutis revelam-se nas condições materiais. E a mais alta poesia, nas circunstâncias mais pedestres e corriqueiras. Assim, Bashô transformou uma prática de texto, uma produção verbal, em ‘caminho’ para o zen”.

 

Nesta dimensão, tendo Bashô e Issa como exemplos, esvazia-se o argumento pejorativo que amesquinha na poesia a relevância do debate das questões cotidianas, alijando-as da Estética – do estudo do belo em suas manifestações artísticas – e da Filosofia – investigação da dimensão essencial e ontológica do mundo real, segundo Platão, em direção ao entendimento do Holos: o todo. O “tema central do zen é a superação das dualidades. A dissolução dos maniqueísmos”; e a poesia alternativa da época rompeu com a visão separatista do que era ou não tematicamente adequado a ela, ao mesmo tempo fazendo emergir o microcosmo e transcendendo-o ao mostrar, implícita e sutilmente nas entrelinhas, que os gestos mais comuns e rotineiros podem ser celebrados enquanto fonte inesgotável de vivências plenas. Nesta mesma direção, eis o belo haicai de outro famoso escritor paranaense:

Montanha que brilha
a louça lavada
empilhada na pia
Domingos Pellegrini

 

 

A poesia da década de 1970 despertou uma práxis mais consciente e holística (com maior impacto ainda na escrita das mulheres), lidando com sentimentos, sensações e emoções não apenas como transbordamentos individualistas, intimistas, porém inserindo-os no contexto sociopolítico do nosso tempo. Como explana brilhantemente o ensaio leminskiano, “os sentimentos são históricos – não dá para abandoná-los no meio do caminho, rumo à trajetória das transformações sociais”.

 

Aprendemos na escola que, em poesia, palavras pertencentes à mesma categoria gramatical são classificadas como rimas pobres – no caso, pias e poesias. Seriam? Serão? Sejam ou não, parafraseando Oswald, peço contrita e fervorosa: dai-nos, Senhor, a poesia de cada dia dessas ricas rimas pobres!

 

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Paginação:

Nuno Baptista


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