ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Érico Hammerström


Monotonia    

1º DIA — SEGUNDA-FEIRA

 

         Mantenho a calma, relato nestas páginas a minha alma. Sou um poeta em meio ao temporal de objetividade, simplicidade. Em meio ao factual.

 

         Medito todos os dias, pensando em que forma eu me transmutaria para sair a voar pela janela da redação, a monotonia de um dia sem fazer outra coisa do que relatar assassinatos, prisões e demais fatalidades. Como eu poderia me enquadrar num meio em que eu soubesse que poderia não ser exatamente o que eu imaginava. Mas já que comecei, vou até o fim.

 

         Corpos rarefeitos e nebulosas em minha cabeça. Retrato em mim mesmo o futuro de um meio que não me pertence e não tem o meu pertencimento. Gostaria muito de escrever um livro.

 

 

2º DIA — TERÇA-FEIRA

 

É loucura masoquista sobremaneira pensar em minha própria vida. Sou o resultado de um aborto malfeito. Feto anencefálico, natimorto?, o fruto de um milagre. Medula clarividente prevendo o meu futuro na borra de café, mas como?, se nem ao menos tenho passado consolidado. Sou modorra de um estado de presente ativo, caminho pelo tempo em meus sonhos. Estou acordado?

 

 

3º DIA — QUARTA-FEIRA

 

Vertiginosas, bailam sobre meu corpo a discórdia e a incerteza. Com este véu incrédulo do ser humano. Meus dias passam lentamente e ao final deles não me restam fatos para serem contados. Já que no decorrer do dia torno historietas em algo com tal teor de realidade contrabandeada da literatura. O caminho final?

 

         Creio, muito embora, que não. Que a mulher que se deita comigo à noite, será aquela que em mim ferirá de faca no decorrer do dia. E que ao menos em um instante gozarei da alegria e da vida, se em mim depositar a seiva, o sumo, o alento do campo.

 

         Depois do fado diário, entrego-me às chamas do vestíbulo. Nu e sedento planejo o bote. Malfadado homem que sou, fui abatido.

 

 

4º DIA — QUINTA-FEIRA

 

Sangue. Deparei-me com sangue. Sangue virginal de minhas narinas. Realmente fui nocauteado, meu cérebro recria as cenas. Sangue de minhas narinas. Sangue em tuas mãos, que agora furtam o meu carinho e a minha consideração. Amor eterno...

 

         Tombar e ressurgir, o grau dos óculos, serpentes sibilantes. Ando repleto de vazios e fazimentos, que quando chego na repartição, meu editor reclama de minha atenção, quando passo pelo café e não me sirvo dele.

 

         — Tudo bem?

 

         Pergunta-me ele.

 

         Respondo-lhe que sim, que em parte a vida está sempre a mesma, com as mesmas pessoas e os mesmos motivos para viver.

 

         — Vamos até a sacada.

 

         Fomos.

 

         Levei a maior bronca de todas. Fui hostilizado pelo meu chefe e não coube a mim nenhuma reação adversa.

 

         — Sim, senhor! Sim, senhor!

 

         Maldita sede de aventura que me seca a boca. Sou o filho obsceno do descabimento teatral. Sou o desfeito, antes, o malfeito, que bebe a secura de uma tarde de crepúsculo apocalíptico.

 

         — Então, que providências?

 

         — O quê?

 

         — Como reage bem às críticas.

 

         — O senhor?

 

         Isso tudo no começo da manhã. Olho ao meu redor, senhor, sabe bem. Meu limite, nunca tive limites.

 

 

5º DIA — SEXTA-FEIRA

 

Preparo minha máscara contratual. Preciso de porte civilizado de homem comum. Vou ao banheiro, deposito meus dejetos e sucos. Higienizo-me a boca, lavo-me no chuveiro. Faço isso todas as manhãs de meus dias, como as putas que eu devoro todas as noites — blague inevitável. Afasto meus pensamentos ruins, vou à venda da esquina, compro mamão para os intestinos, banana para cãibras... Enfim, talvez ameixas, também; adoro ameixas.

 

         Não vou com tanta sede ao pote, nem com tanta fome às frutas, afinal, não quero morrer no sanitário tão cedo, vida imensa pela frente. Caminho descompassado pelos paralelepípedos irregulares desta cidade pequena. Faço as minhas ginásticas, no trajeto. Subo o morro, e deparo-me com o prédio no qual trabalho. O Jornal.

 

         Subo as escadas até o terceiro andar, e noto que outro preenche o meu espaço. E como sou conhecedor das façanhas da vida, sei muito bem que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço.

 

         — O que faz aqui?

 

         Pergunta-me o editor.

 

         Olhei no fundo dos olhos desse humilde humano, reduzido a uma besta animal, e não vi ares de embaraço, notei que abria e fechava a boca, sem sinais de alteração, mas eu não ouvia nada, apenas percebia algumas coisinhas em leitura labial.

 

         — Mas o porquê de eu não dever estar aqui?

 

         — E ainda pergunta?

 

         — Pois, sim!

 

         — ...

 

         Emudece e transparece contornos de raiva e ódio em seus olhos, porém não temo. Olho fixamente para esse olhar azedo, e não penso em mais nada, recordo de como meu comportamento estava sendo medido desde a segunda-feira, de como meu manuscrito se encaminhava para uma leitura crítica de uma editora de São Paulo. E de como...

 

         Olhei para o nariz do editor, e vi que nele havia marcas de escoriações. E nesse mesmo tempo senti uma leve dor no pulso direito.

 

         — O que eu fiz?

 

(HAMMARSTRÖM, Érico. Medula. Guaratinguetá: Editora Penalux, 2019)

 

Érico Hammarström nasceu em 1995, em Ijuí, Rio Grande do Sul. É estudante de Língua Portuguesa, Inglesa e Literatura na Unijuí. Grande apreciador das Artes Plásticas, cinéfilo assumido e bibliófilo por vocação. Em 2016, com Marcelo Frota, publicou “Compilação Poética das Margens”, pela Chiado Editora, assinando Érico Francisco Zardin. Em 2017 foi selecionado pela mesma editora para participar do segundo volume da Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea “Além da Terra, Além do Céu”, com o poema “Temperatura”. Pela Editora Penalux, lançou “Por Dentro do Nada”, em 2018. Também publica esporadicamente nos blogs “Fluxos de Consciência”, que já foi visitado por 37 países, e “A Poética Visceral”.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Agosto de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Amoi Ribeiro, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Cida Sepulveda, Conselho Editorial, Demétrio Panarotto, Eloésio Paulo, Érico Hammerström, Flávia Fernanda Cunha, Flávio Otávio Ferreira, Gabriel Impaglione ; Rolando Revagliatti, entrevista, Gladys Mendía, Hermínio Prates, Hugo Pontes, Iza Maria de Oliveira, José Arrabal, Krishnamurti Goés dos Anjos, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luiz Edmundo Alves, Manuella Bezerra de Melo, Marco Aurélio de Souza, Maria Emília Lino Silva, Marinho Lopes, Max Lima, Ricardo Ramos Filho, Sônia Pillon, Tereza Duzai, Thássio Ferreira, Waldo Contreras López


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR