ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Leonardo Almeida Filho


Os comedores de batatas    

O menor, carinha manchada e remelenta, mastigou a batata ainda quente. Queimou-se. Cuspiu no chão de terra batida e ensaiou um choro sentido. As mãozinhas magras, unhas sujas, esfregava os olhos. Os outros irmãos sorriam da desgraça do pequeno que vertia lágrimas de dor e ódio, sentindo-se humilhado. O mais velho, esquálida figura, coçava a cabeça de cabelos espetados. Piolho... de novo, resignava-se a mãe. O pai, em silêncio, observava impassível a prole feia e triste, olhar vidrado colado à parede. O prato intocado diante dele. Piscava os olhos lentamente, exibindo na face enrugada um certo desconsolo. Não tinha fome. A mulher, também em silêncio, transparecia mais impotência que cansaço enquanto levava a colher à boca e mastigava automaticamente. Fazia frio e a noite acabara de despencar no milharal em torno da casa. Uma lâmpada pendia do teto, sobre a mesa, tornando escuros os cantos da pequena sala. Sinto falta dele, ele disse num rompante, despertando a mulher de pensamentos insondáveis. Eu sei, ela respondeu como quem faz um muxoxo, todos sentimos. Continuou mastigando sua porção minguada de batata e repolho. A janela deixava correr um pouco do vento gelado por entre as frestas da madeira, causando-lhes arrepios. O pequeno parou de chorar e voltou a mastigar seu naco. Os irmãos mais velhos não entendem aquele silêncio e a saudade dos pais, mas pressentem uma tristeza estranha no olhar paterno e no automatismo da mãe. Uma tristeza como aquela que eles próprios sentem quando pensam em Pretinha, morta há poucos dias. O pai a enterrou atrás de casa. Jogou-a no buraco, como um fardo, um troço, alheio ao choro silencioso das crias. Nada podia fazer. A cadela agonizou uma tarde inteira, picada de jararaca, foi o que disseram. Os meninos, quatro machos pequeninos e cheios de arestas, travaram ali seu primeiro contato com a morte e por isso engolem a batata com o nó da saudade, parece que ainda podem sentir a pata de Pretinha em suas pernas, pedindo comida. Tenho às vezes a impressão de que escuto ele tocando pra gente, o pai quebra o silêncio. A mãe ensaia um sorriso torto, de canto de lábio, concordando com o marido. Ainda escuto a música aqui na sala, continua. Sinto muita falta, ele se desmancha. Já disse que todos sentimos, ela rebate. Não tem por que se lamentar, ela o repreende. Coma, ela determina. Vai esfriar. O que eles não sabem, mas está no ar, é que o lamento saudoso que expressam tem guarida em todas as outras casas do vilarejo. A seu modo, cada morador amarga a perda, mastiga a ausência com a boca desdentada da saudade. Quando ele apareceu, há uma década, as pessoas estranharam sua voz perfeita e sua habilidade ao tanger as cordas da viola. Havia então uma outra razão para se mover sobre a terra, além de trabalhar na lavoura, deitar a noite para procriar e gastar os joelhos diante da estátua de São Sebastião, padroeiro do lugar. O moço, era assim que o tratavam, cantava na praça da igreja, no auditório da escolinha, nas salas daqueles que o convidavam. Na vilazinha tacanha, poucas casas, uma igreja, um punhado de almas vivia para plantar e colher o que lhes garantisse o sustento, a vidazinha corriqueira de reza e trabalho, reza e trabalho. Entre um e outro – reza e trabalho – uma fila de partos. São necessários braços para a lavoura, corações para Deus. Disciplina, disposição, ordem. Nesse caminho a cidadezinha mantinha-se a mesma no tempo. Homens e mulheres cumprindo seu papel, garantindo a sobrevivência da prole, barrigas fartas, almas tristes.

 

Quando ele apareceu com sua viola e muitas canções, provocou enorme curiosidade e encanto. Quem era aquele sujeito de sorriso escancarado e voz suave? De onde vinha aquele homem tranquilo, de fala mansa e olhar maravilhado? Perguntas que nunca encontraram respostas, pois ele não gostava de falar de seu passado. Era um mistério, exatamente como o prazer de sua arte ecoando pela vila. Abrigaram-no num depósito de materiais de construção, nos fundos da casa de um deles. Arranjaram-lhe um colchão, cobertores, comida, e era tudo que precisava, ele dizia. Todas as noites tocava sua viola na praça e alegrava aquele tantinho de gente que a cidadezinha abrigava. Convidado para animar uma festa aqui, outra ali, o aniversário de alguém, as bodas de outros, a boa safra de repolho, a chegada de um filho pródigo. Tudo eram motivos para que ele viesse animar com sua viola e garganta aquela vidazinha tão pacata, tão sem graça, tão comezinha. Sua chegada coincidiu com uma alegria estranha que se foi metendo pelo populacho. Contaminando aqui e ali, penetrando cá e acolá. De repente, como um milagre, as vidas encheram-se de sorrisos, de leveza, de esperança. A música, que antes dele não havia por lá, chegou como um presente, como uma flor misteriosa que se abre, se perfuma e se encanta. Encheram-se de júbilo e de prazer. Foi quando alguns começaram a implicar com aquela vida de cantoria e prazer. Vagabundagem, disseram. Para eles, um homem não pode despender sua vida na boêmia, tocando viola, cantando. A vida não é fru-fru, discursaram. É preciso trabalhar, garantir o sustento com o suor do rosto. Essa vida de viola e canto não dignifica ninguém, diziam. Ele é, no mínimo, esquisito. Tem algo que esconde e um homem que se esconde não deve ser bom. Porque ele não ia aos campos como todos eles colher milho, feijão, couve? Porque, ao invés de passar as tardes dedilhando seu instrumento, numa eterna ladainha de repetir a mesma melodia, ele não os ajudava a ensacar o arroz, debulhar o milho, encaixotar as maçãs? Para esses moradores, o violeiro era um mero aproveitador, pois comia, bebia, vestia-se e dormia por conta deles, não trabalhando por isso, apenas tocando e cantando. Apesar dessas reprimendas que no começo eram feitas a boca miúda e findaram por tornar-se escancaradas, ele seguiu fazendo aquilo que, segundo ele,  nascera para fazer, encantar a vida. Mesmo quando apareceram os primeiros sinais da doença, ele cantava e cantava, tossindo, respirando com dificuldade, mas cantando, sem desafinar, sem desanimar. No final, era apenas um fiapinho de voz e uma viola muda. Não tinha mais forças, caiu de cama. Se tivesse trabalhado, diziam alguns, teria agora algum dinheiro para se cuidar, mas não, preguiçoso como ele só preferia ficar por aí cantando. Deus ajuda a quem labuta, vaticinaram. Sua morte chegou numa rapidez surpreendente. Morreu dormindo, encontraram-no, pela manhã, frio, encolhido no depósito. Foi enterrado em silêncio absoluto, o mesmo silêncio que, hoje, os envolve a todos quando colhem o milho, catam o feijão, ajoelham-se diante de São Sebastião, comem a batata quente sob a lâmpada pendurada no teto. Não há música, nem viola ou violeiro, não há encantamento, alegria, prazer, mas eles têm repolho e batata para encher-lhes o bucho e lhes dar sustância. Estão alimentados e tristes, como antes.

 

 

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título “Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito”).  Alguns trabalhos publicados: “O livro de Loraine” (romance, 1998), “logomaquia: um manefasto” (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano “Antologia do Conto Brasiliense” (2004) e  “Todas as gerações” (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro “Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem”, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinqüentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos “Nebulosa fauna & outras histórias perversas”. Publicou em 2018 o volume de poesias “Babelical”, pela Editora Patuá. Email: leo.almeidafilho@gmail.com

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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

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