ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Max Lima


10 poemas    

One need not be a Chamber – to be Haunted –
One need not be a house
Emily Dickinson

 

No. 1

 

uma placa na fachada do meu rosto
informa aos transeuntes:
hospital

 

as veias expostas
desenham a verde planta-baixa
do edifício

 

nas câmaras escuras dos porões
morcegos se tumultuam
como borboletas num estômago
carcomido de úlceras

 

tenho querido cerrar as janelas
interditar a ala dos loucos
demitir o ortopedista morfológico

 

mas a fachada antiga e tombada
segue gloriosa e imponente
escondendo sob a pele de rebocos
uma estrutura de vigas de tíbias
que ainda há de ruir.

 

 

 

 

 

 

No. 2

 

desgastei a palavra.
restou o trauma
o hematoma
o ruído de ossos na boca

 

a fratura exposta
dispensa cirurgias
acolhe no oco do osso
as vogais emudecidas

 

entre o palato inalcançável
e a língua dormente
só a distância de um grito.

 

 

 

 

 

 

No. 3

 

uma necrose carcomeu minha linguagem.
o que resta – informa o linguista ortopédico –
é o cheiro fétido da sintaxe inflamada.
nenhum substantivo para de pé
os advérbios nada modificam
preposições ruem como pirâmides
e adjetivos são só estelas sem inscrições.
– nem cálcio salva teus verbos, diz o doutor.
mas meu poema é anterior à minha linguagem.

 

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namazu

 

provocar um abalo sísmico
alterar o curso
da rotação semântica
não tenho medo de aproximar palavras
nem do tremor dos sentidos

 

tenho tentado dizer o espaço
entre o dente e a carne
entre o pé e a montanha
entre       entre        

 

impossível forjar um estudo analítico das distâncias
por isso eu aproximo o braço e a ponte
por isso eu aproximo o espelho e lampião
por isso eu aproximo o dedo e a lâmina
por isso eu aproximo o lábio e o rio
para com eles dizer um vazio de coisas

 

 

 

 

 

 

frame

 

este poema não é
um bandaid para as costas
de Ícaro, não é
a mão que empurra a torre
de Babel, não é
a pedra que esmaga
Sísifo, não é
– e não supõe-se ser –
este poema
ainda nem sabe-se poema
vagueia frouxo nas teias
de uma aranha só pedra
ante os olhos de Medusa.

 

 

 

 

 

 

poema de 20 de janeiro

 
Para depositar pedras sobre os ponteiros
E pará-los
Os muitos Sísifos se arrastam na montanha circular
Do relógio
É em vão que evitam cavar nos números as covas dos irmãos
Que insistem em romper o vai-e-vem desajustado e calculado
Dos grandes troncos.
Tolos.
Amarrado neles
São Sebastião pereceu
Perfurado por flechas do milésimo.

 

 

 

 

 

 

cantiga

 
Minha rua é um rio
Que escorre dura
Feito memória
Minha rua e história
De concreta carnadura
A bater na armadura
De uma ostra de gordura
Com toda força e alguma glória
Até que a fura.

 
Se essa rua minha fosse
Eu mandava ladrilhar
Com pedras do esquecimento
E as plantava no cimento
Como pedras de um colar
Encerrando-as com o moldar
Do meu eterno firmamento.

 

 

 

 

 

 

kwase-haikai

 
Ontem, na minha horta de fragmentos
Colhi um poemeto
Verde, quase Cesário

 

 

 

 

 

 

instruções para fazer um mar


Para Cecília


É preciso antes de tudo água, muita água,
e muitos temores também
para compor um fundo.
É preciso mãos e baleias
(As baleias pesam como a realidade
Mas voltam sempre à superfície para respirar alguns sonhos.)

 

Nesses dias terríveis
há uma conveniência enorme
em compor oceanos.
Pitadas de sal e remoção cirúrgica das margens
já não mais transformam nossos rios em mares.

 

Por isso, Cecília
Põe suas mãos nessas águas
E compõe algumas ondas
Monta teu castelo
Nessas areias oníricas
E pousa teu barco
Nas águas que vêm de ti.

 

Se a gente aproximar o ouvido do seu peito
Dá pra ouvir o oceano arfando baixinho.

 

 

 

 

 

 

XXVII

 

Acordo
Não abro as janelas
Hesito um pouco na frente de A teus pés
tomo um café
hoje o dia é uma longa hora de 24 horas
Atravesso a casa e estou na noite
O banheiro é uma madrugada gelada
com-fundo as horas nas coisas
posso dizer:
esse lápis com que escrevo é uma manhã
posso dizer:
a tarde é meu corredor sem passadeira
posso dizer:
a noite está debaixo da cama
o relógio da parede derreteu e manchou toda a pintura
que acabei de mandar fazer
(roxo)
Ainda não inventaram a medicina das horas
não há cura para a tetraplegia das coisas.

 

 

Max Lima (1992) é músico e poeta natural do Rio de Janeiro, Brasil. Publicou poemas em diversos sites e revistas de literatura, a citar: Mallarmargens, Subversa, Ruído Manifesto, Literatura&Fechadura, o Mural Kotter Editorial, entre outros. Atualmente é mestrando em Literatura Brasileira na UFRJ, onde pesquisa fundamentos poéticos da música e a essência musical da poesia. Seu primeiro livro, “Tetraplegia das Coisas”, sairá em breve pela Editora Patuá.
Instagram: www.instagram.com/lima_max/
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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Aleko and Zemphira by moonlight: study for backdrop for scene 1 of the Ballet «Aleko»', 1942


Paginação:

Nuno Baptista


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