ANO 6 Edição 83 - Agosto 2019 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


Lei da degola e genocídios    

Dizem as línguas bem azeitadas pelo cuspe da estupefação que um político mineiro, desses que transformaram o Congresso em inesgotável manancial de maracutaias e cujo nome não pode ser citado para evitar aborrecimentos, que ele pretende apresentar um projeto proibindo não o uso, mas a divulgação, em letra impressa e falada, da tal linha chilena, essa usada para empinar pipas e que tem provocado tantos acidentes em ciclistas e motociclistas, principalmente.

 

      Para os néscios e lobotomizados pelas viciantes redes sociais e zap zaps da ignorância, esclareço que a tal linha chilena é feita com pó de quartzo e óxido de alumínio e é mais cortante do que o cerol. O uso é proibido em Minas Gerais, mas e daí? As variadas drogas também o são, mas se nem pretensos pais da pátria que cheiram, fumam e se injetam – alguns até traficam – não respeitam os limites do crime, não serão os jovens empinadores de pipas, também chamados de papagaios, que respeitarão a lei.

 

      Os números de ocorrências mostram o perigo: apenas na primeira metade de 2018, 39 pessoas já foram feridas seriamente e uma degolada: o motociclista Rogério Alves Adriano teve a carótida cortada pelo fio fatídico. E, no mesmo período, a Cemig – empresa estatal que ainda não foi, mas corre o risco de ser dada de presente aos sanguessugas internacionais – informa que mais de 500 mil consumidores ficaram sem energia elétrica por causa dos danos causados na fiação pela linha chilena.

 

      A insensibilidade – ou idiotia? – é tão gritante que um vereador de Belo Horizonte, incapaz de parir um projeto que beneficie a população, obrou (no sentido que o nordestino dá a esse verbo) uma ideia estapafúrdia. O abestalhado Catatau – alcunha de Carlos Magno Freitas – quer transformar a arte da degola em esporte, com reconhecimento oficial e tudo mais. O vereador, que se tornou conhecido falando bobagens durante alguns programas na Rádio Itatiaia, já foi do PHS – Partido Humanista da Solidariedade -, deu um pinote para o PSDC – Partido Social Democrata Cristão - e agora é da Democracia Cristã, que parece ser apenas mais um apelido partidário nesse festival de siglas vazias.

 

      E além da linha chilena há outra bem mais eficiente na degola dos passantes. É a linha indonésia, feita com silicone com carbeto de silício ao invés de simples fio de algodão, que é o usado na linha chilena. E o cerol não é feito com artesanal cola de madeira, cacos de vidro, limalha de ferro ou pó de quartzo e sim com carbeto de sódio e fibra de carbono. O produto é facilmente adquirido pela internet. 

 

      E qual será o objetivo do projeto a ser apresentado pelo deputado sugador de verbas públicas? Simplesmente proibir que continuem se referendo à linha da morte como chilena. Explicação: era chilena sim, mas apenas durante o curto período do governo do presidente Salvador Allende, assassinado por ordem da CIA – esse cancro que corrói qualquer administração que ouse discordar dos brucutus de Washington -, mas a designação não poderia ser usada após o golpe dos militares chilenos, tementes do dito credo vermelho. Com a assunção do “democrático” Augusto Pinochet não se justifica, segundo o legislador de péssima causa, tal demérito com uma referência tão negativa à grande nação ressurgida com os puros militares chilenos. Melhor será, a partir da lei proibitiva, passar a se referir à linha como cubana, boliviana, nicaragüense ou, preferencialmente, venezuelana, que é a terra dos inimigos de todos os “democratas” do oportunismo.

 

      O sujeito, que se acredita líder dos intolerantes, ainda está indeciso se propõe ou não a proibição da referência à Indonésia. Isso porque, se aquele país foi governado pelo comunista Sukarno (muitos javaneses não tinham sobrenome) de 1945 até 1967, foi apeado do poder em 1967 graças à ajudinha dos USA, assumindo em seu lugar, para felicidade geral dos novos donos do mundo, o subserviente Suharto que, por ser fervoroso anticomunista, governou “democraticamente” de 1967 a 1998. Esclarecimento: para ganhar a simpatia e o apoio dos gringos, em 1965, Suharto comandou a “purificação” do país, quando mais de 500 mil pessoas foram chacinadas. Outras fontes afirmam que os mortos foram mais de dois milhões, mas os “humanistas” desmentem.

 

       E a mídia mundial não fez nenhum alarde, preferindo a cumplicidade no genocídio, como já acontecera em relação aos massacres dos “selvagens” australianos dizimados pelos colonizadores europeus. O império britânico desde o início adotou a violência como forma de se relacionar com os aborígenes e até os caçavam por prazer, como se fosse um esporte. Outro método de extermínio usado pelos forasteiros “bonzinhos” foi organizar festas, oferecer rum e, na alegria da bebedeira, aproveitar para usar arsênico e envenenar a comida e a água. Aldeias inteiras foram dizimadas. Em 2008, John Howard, primeiro-ministro da Austrália, lamentou publicamente as atrocidades, mas se recusou a pedir desculpas formais, por temer que isso fosse provocar possíveis indenizações de milhões de dólares às famílias e seus descendentes. O atual primeiro-ministro, Scott Morrison, dá as cartas no país monarquista constitucional e democrata federal parlamentar, designação pomposa que significa dizer que Isabel II, outro nome de Elizabeth II, senhora de sete países independentes e mais 15 estados, reina, mas não governa.

 

      E não se pode esquecer das tragédias semelhantes nos países africanos, vítimas preferenciais dos que se imaginam donos de vidas, sonhos, terras e riquezas minerais, principalmente.

 

      O que tem incomodado o mal intencionado congressista é que o atual presidente indonésio, o Joko Widodo (esse sim, com prenome e nome) reside no Palácio Merdeka, nome estranho para nós, mas bastante sugestivo e inspirador da “obra” até aqui do legislador mineiro. Talvez ele não saiba, mas merdeka significa liberdade ou independência, conquistada em 1945 em luta contra a Holanda pelo revolucionário Sukarno.

 

E correu à boca pequena e nas redes sociais que um violento extremista, então candidato a presidente, se eleito, pretendia mandar distribuir nas favelas e demais periferias as linhas chilenas e indonésias. Quem sabe assim os jovens, ao empinarem as pipas, não se degolam e param de incomodar os ricaços do poder?

 

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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