ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Adriane Garcia, Sérgio Fantini, Tadeu Sarmento


Itautopia    

 Josiel não é dos auditores mais espertos nem mesmo dos medianamente inteligentes ele se aproxima, mas Josiel é um homem de sorte, desde a infância. Inábil como ele só, ganhava todas as disputas de que participava com os coleguinhas. Na adolescência, volta e meia se via a sós com a garota mais bonita do baile. Na juventude, esteve desempregado, mas nunca sem dinheiro, graças à herança de um tio que grafou erradamente o nome do próprio filho (Jasiel) cujo sobrenome coincidia com o dele. Como se tornou auditor? Passou no concurso público com provas de múltipla escolha: fechou todas as questões, cem por cento de aprovação. Entrou como a grande promessa da seção, todos apostavam que em um ano seria chefe.

 

     E foi. Não bastasse ser sorteado em todas as festas de final de ano, quando levou até mesmo aquela TV de 75 polegadas apreendida de contrabando, teve o nome escolhido para fazer a auditoria mais importante daqueles tempos: a da dívida pública brasileira. Pairavam suspeitas irresponsáveis de que o país havia pago tal dívida umas cinco vezes e que o crédito já era, se existisse, prescrito. Coisas do marxismo cultural. Josiel, então às voltas com arquivos e mais arquivos, dossiês gigantescos, resolveu apostar mais uma vez na sorte, que nunca lhe abandonava e escolher, a esmo, as páginas para sua conferência. Um dos credores, o maior banco privado do país, preocupado com a famosa eficiência de Josiel, quis assegurar que tudo sairia muito correto e enviou dois assistentes, homens de confiança e tino, para auxiliá-lo.

 

     Segundo Josiel, só o fato de o banco ter enviado ajuda já contava pontos positivos na auditoria. Ainda assim, decidiu não amolecer e trabalhou com afinco, por dias e noites inteiras, disposto a encontrar o menor erro que fosse: de um empréstimo para pagar juros a qualquer outro tipo de rolagem ilícita. Durante os jantares diários oferecidos pelos dois assistentes do banco, acabou reconhecendo, entre um gole de Romanée-Conti e um trago num cubano autêntico, que a dívida pública estava correta; logo, que era justo que se continuasse cobrando juros exorbitantes, que abocanhavam, todo ano, mais da metade do que se arrecadava de impostos no país. Foi o que concluiu Josiel no último jantar, depois de pedir para o garçom embrulhar os restos de comida para dar ao mendigo que, lá fora, implorava por um pedaço de pão.

 

     O banco resolveu comemorar o justo resultado da auditoria lançando uma coletânea de contos felizes para um país feliz e iluminado — era mais ou menos o que dizia o edital, utopias para um mundo do bem. Josiel, obviamente, foi convidado para a festa. O próprio projeto era fraterno, os escritores doavam os textos em troca da divulgação do seu trabalho. O importante era alentar o coração dos correntistas. Na sala da diretoria, brindava-se por mais esse produto cultural. Enquanto no saguão atores faziam a leitura dramática dos textos, diretores do banco, emocionados, choravam. É o poder da literatura. Um deles, poderoso do mais alto escalão, tão comovido e sabendo que continuava credor do eterno endividamento do estado, começou até a pensar na transferência dos 25 bilhões de impostos devidos — e perdoados — aos cofres públicos.

 

     — Vejam, senhores: quanto menos futuros potenciais pudermos imaginar, mais pobre e fechado de possibilidades será o presente.

 

     Um gerente de agência, que estava ali entre os maiorais só por ser afilhado de crisma da esposa de um deles, concordou:
     — Um esforço de imaginação é necessário para destravar tudo de que a vida é capaz.

 

     — Isso mesmo! Pensar o mundo e criar narrativas a respeito de futuros possíveis...

 

     — ... comunicar outras formas de viver, outras maneiras de organizar a sociedade.

 

     — Um ponto de chegada, hoje inexistente, a que podemos visar. Dessa forma, vamos parar de imaginar distopias.

 

     — A ideia, pelo contrário, é iluminar caminhos.

 

     Aqueles homens engravatados e gordos e rosados e satisfeitos se irmanavam traçando tão altas filosofias para engrandecer a pátria.

 

     Josiel observava toda a cena. Interiormente, sorria: era mesmo um homem de sorte. Toda história em que entrava tinha um final feliz.

 

 

 

 

Adriane Garcia, nascida em Belo Horizonte/MG - Brasil, em 1973. Historiadora, funcionária pública, arte-educadora, atriz. Escreve poesia, infanto-juvenil, crônica, conto e dramaturgia. Venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Paraná 2013, Helena Kolody, com o livro de poesia Fábulas para adulto perder o sono. Publicou além deste, O nome do mundo (Armazém da Cultura, 214), Só, com peixes (Confraria do Vento, 2015) e Garrafas ao mar (Penalux, 2018).

Sérgio Fantini, poeta e contista brasileiro, voz de uma literatura de resistência e de independência das regras de mercado. Publicou em revistas e em antologias como Contos Curéis, Cenas da Favela, Rock Book, 29 de abril - o verso da violência e 90-00 - cuentos brasileños conteporáneos, entre outras. Estreou em 1979; não faz concessões, mantém um olhar agudo sobre as relações humanas. Em entrevistas, tece considerações sobre seu interesse pelos aspectos subversivos das relações sociais, admitindo em suas escolhas certas intimidades com o Existencialismo e o Socialismo. Além de Lambe-Lambe (ed. Jovens Escribas), publicou os livros Diz Xis, Cada Um Cada Um, Materiaes, Coleta Seletiva, A ponto de explodir, Camping Pop, Silas, A Baleia Conceição, Novella: o município de tormenta e Quarenta (ed. Pulo)

Tadeu Sarmento é autor de “Associação Robert Walser para sósias anônimos” (Cepe, 2015) e “E se Deus for um de nós?” (Confraria do Vento, 2016), entre outros. Ganhou o II Prêmio Pernambuco de Literatura e o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura de 2016 com “Um carro capota na lua” (Editora Tercetto, 2018). Em 2017, conquistou o 13º Prêmio Barco a Vapor, com o livro “O Cometa é um Sol que não deu Certo”, publicado pela Edições SM.

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2019


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Colaboradores de Julho de 2019:

Henrique Prior, Conselho Editorial, A. M. Pascal Pia ; Federico Rivero Scarani, trad., Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adriane Garcia, Sérgio Fantini, Tadeu Sarmento, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Clara Baccarin, Eduardo Madeira, Fábio Bahia, Federico Rivero Scarani, Francisco Gomes, Henrique Dória, Hermínio Prates, Indirá Camotim, Jean Sartief, Jennette Priolli, José Arrabal, Leandro Rodrigues, Leila Míccolis, Leonardo de Magalhaens, Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nagat Ali, Ngonguita Diogo, Nireu Cavalcanti, Osvaldo Ballina ; Rolando Revagliatti, entrevista, Ricardo Ramos Filho, Roberto Dutra Jr., Waldo Contreras López, Wanda Monteiro


Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'Two Tahiti women', 1899


Paginação:

Nuno Baptista


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