ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


A poesia na festa da noiva cadáver    

Uma das mais belas orações eucarísticas da Igreja Católica Apostólica Romana diz: “Do mesmo modo, ao fim da ceia, ele tomou o cálice em suas mãos, deu graças novamente, e o deu a seus discípulos, dizendo: Tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos, para remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim.”

 

O trecho inicial, que pode ser segmentado em dois versos tetrassilábicos, com devidas aliterações, dá o título do mais recente livro de poemas de Paulo Gonçalves, poeta de Maria da Fé – um dos lugares mais frios de Minas Gerais. O livro é uma oferenda lírica a todos nós, que comungamos a condição efêmera de sermos criados para morrer. Sim, é a Morte que comanda a maioria dos 69 poemas. Paulo Gonçalves vem retomar, em clave mais coloquial e intimista, o tema que sua quase conterrânea Henriqueta Lisboa, poeta de Lambari, consagrou em Flor da morte.

 

Já no primeiro texto verifica-se o tom pessimista do livro, que tem na capa um cemitério. Aqui, constata-se que o antídoto para as grandes tragédias seria simplesmente não ter nascido. No poema seguinte, o poeta revela-se um guardião dos atestados de óbitos da avó e do pai, e, imprimindo uma configuração de crítica social, ironiza o direito que atesta a geometria dos arames a cercar os morros por onde anda.

 

Em “Revolução”, mais do que qualquer teor socializante, o que mais distingue o gume afiado do poeta é a linguagem dotada de um estranhamento sintático, com versos assim: “Ter roubado era/ diversos goles com meu pai na bica da roça/ a água/ O suor em troca./ Meu pai estar cansado e a foto de Nossa Senhora/ em cima de minha febre.” Em outros momentos, o estranhamento ocorre na sequência de imagens de um ser que se vê desarticulado, como em “Relato”: “Eu estava pacotes/ Os órgãos todos separadamente peças/ A pele lona/ Os canos reconstituídos a um canto/ Os nervos um por um/ [...] biologia/ e açougue,/ loja de autopeças.

 

O que pode comprometer, por vezes, a originalidade do discurso poético de Paulo Gonçalves é a forte marca de Manoel de Barros, principalmente em textos como “Tal qual o Tonho louco”, onde se lê: “Eu, por exemplo, gosto das coisas que não existem [...] Porque eu gosto da polissemia da palavra linha [...] Eu começaria por embaralhar,/ numa conversa, o tempo dos verbos”.

 

Particularmente, o que me atrai nesse poeta mineiro é seu comprometimento com o “sentimento coisa”, a capacidade de nos colocar diante de sensações fortemente concretas, como em “A dura realidade”: “O sol das duas e quinze no cimento”. Ele busca a fixação de elementos de seu cotidiano, seja na paisagem urbana e rural, seja nos afazeres ou pequenos prazeres da província. Gosto da presença das toponímias e da harmoniosa construção dos versos como estes: “O sol da tarde calca a corcunda do Pico da Pomária./ Meu olho faz por quê? para a luz despencada para Pedralva.” Ao referir ao espaço que palmilha e trabalha, o poeta é sensível à sensação melódica do nome, como se vê em “Estrada do Trigal”: “Não existia o céu sobre o bonito nome – Trigal.” A sua terra e o trabalho na terra é parte substantivo de sua poesia lírica e telúrica, como demonstra o texto “Dias grandes”, a exibir a experiência de trabalho braçal na lavoura: “O rastelo pesava [...] tivemos que quebrar o milho/ em meio aos pés de picões maduros.[...] Dias como esses me deram tanta força!/ Este cansaço.” A dimensão social é exposta em “A riqueza de Maria da Fé”: “a monocultura da batata em Maria da Fé/ veio a revelar-se finita.[...] E as máquinas na pressa/ desesperada dos armazéns.// Após trabalhar, às vezes 34 anos,/ sem direito trabalhista nenhum/ a família sempre ganhava um adjutório para o enterro.” Porém, o lirismo mais puro emerge de trechos assim, extraído de “Maria da Fé antiga”: “A preguiça dos meninos encostados no cabo da enxada.”// “O trem/ o que nele não é de ferro/ vem vindo até hoje.

 

 Não sei se exagero ao buscar uma associação desse poeta com os antigos românticos, como Álvares de Azevedo – especialmente em versos como “Minha vontade de morrer”: “Minha vontade de morrer,/ meu primeiro amor”// “A menina mais bonita da cidade, minha vontade de morrer”. Ocorre-me, ainda, figuras românticas da estirpe de um Fagundes Varela, andarilho das florestas e boêmio inveterado, de braços dados com a morte e com a dissipação no álcool. Aliás, em “O álcool”, esbarro nestes versos que desnorteiam: “meu profundo perdão de poças”; “pelos que puseram relâmpago no meio destes líquidos”; “O que pegou à unha o fogo pôs na água e engarrafou.” Em “As coisas belas”, há um atestado romântico-barroco: “Porque eu gosto de ruínas./ Eu gosto destas ruínas.[...] (eu vinha voo de galinha do bar)[...] Nas coisas belas é que deve haver/ Eu imagino que exista/ uma tristeza tão bonita!”

 

Um poema que dispensa comentário crítico é “Quando a morte era extraordinária”, que transcrevo para meditação de meus poucos leitores:
Quando a morte era extraordinária,
eu e meu pai subíamos a ladeira a limpar os aceiros.
A cidade lá longe era eterna.
Meu pai era eterno.
O milharal.

 

Era eterno eu e meu irmão na estrada uma da tarde
em que haveria um jogo de 82.

 

Depois, a vida se soube.
A criançada da rua que lia O barquinho amarelo toda soube.

 

Hoje,
até a vida do meu filho vai acabar um dia.

 

Paulo Gonçalves, na esteira da poética da humildade de Manuel Bandeira, possui a rara habilidade de saber ser simples e nos encantar com este lirismo humilde. Vejam, por exemplo, este trecho de “A estrada do Nastácio”: “Depois da descidinha da dona Floriana,/ quando Maria da Fé começa a nascer nos olhos..[...] Se você amou um lugar,/ nunca volte a ele.” A linguagem simples, a oralidade fluente, o tom evocativo comparecem em “O bairro Sabará o bairro Canudos”: “Havia uma estrada muito bem conservada./ Mas ela saía do bairro Sabará/ e levava a um lugar que não existia mais./ Uma casa sede demolida até à base,/ as porteiras caídas.// A estrada chegava ali, parava.” Junto a isso, como em “Braçal”, a prosopopeia é tratada com delicadeza: “A semana tinha seus seis dias./ Domingo ficava a um canto, esperando”. O leitor tem empatia e pode acompanhar o gesto do poeta em “Visita à ponte”: “Trinta anos depois é aquele sábado./ Uma folha vai passando/ sendo levada pela água./ Passou deste lado da ponte/ vai sair vai sair?/ Vai sair do outro lado.

 

A onipresente morte, eixo que paradoxalmente dá vida ao livro, ocorre em abordagens originais e contundentes, como em O infarto é mais barato”: “Eu queria sentir dessa maneira./ Sentir como sente uma árvore/ quando um homem se enforca em seus galhos.

 

Nomes de pessoas de sua terra são enunciados, a partir da morte, mas se relacionando, também, com a vida, com a descoberta da leitura, como em “Dona Rita Gomes”: “Uns olhos de morte à faca// Eu não saber o que fazer com isto/ durou até dona Rita Gomes  me ensinar as letras.” Há um “Tio Antônio”, figura recorrente na memória do autor, a aparecer metonimicamente numa “caneca de remédio” e suscitando o sono eterno e a flor das insônias. Esse tio parece ser um avatar do poeta, na relação com o álcool: “Tio Antonio e a noite já tinham um namoro de noivos.// Escorado ao fundo do bar,/ eu já sabia o escuro/ [...] e enfiava a noite nos olhos/ igual a Tio Antonio.// A noite é de quem quiser.” Ou ainda nestes versos memorialistas de “As datas”: “Desde criança eu tinha a tolice de escrever as datas/ em todas as coisas./ Parede de tapera,/ chão do milharal,/ cantinho da forja, final dos poemas.// Atrás da cadeira de Tio Antonio,/ que nasceu para morrer de beber,/ eu escrevi os seis números.// No retrato da primeira mulher que eu ver nua,/ eu vi no cantinho abril de 89.

 

Ainda que o título da coletânea remeta a um ritual religioso, nota-se que, em Paulo Gonçalves, a religiosidade é profana e acena para um profundo sentimento de estar vivo: “No cemitério, tudo nele cheira a eu ainda estar vivo.” E o poeta cita o bar do Zé Branco e nomeia as mulheres como Sônia do Trigal, Repoinho dos Canudos, Cláudia louca, que compartilham de sua estranha comunhão: “Nosso balde de sangue, deus nos perdoe, o balde de sangue de cristo.” O paradoxo é retomado em “A festa”: “O vale de lágrimas/ estava uma festa.” Ou ainda em “O longo poema de Deus”, quando se ultrapassa o ponto final: “Deus escrevendo depois do último ponto final”. Ou também em Poema para ajudar nas missas das oito”: “Não haver Deus/ está cheinho de Deus. [...] “meu espírito parafusado às pressas/ neste corpo./ E, vida, a viagem seguiu./ A parte de paz foi se arrastando pelo chão./ A tumba sem sossego.

 

Um pouco de humor tempera o desconforto de ter a morte por perto, como lemos neste diálogo com um tal de Dito Cabelo: “- Como está?/ - Bem. Morrendo.” Ou este exemplo de humor negro em “O apaixonado”: “Meu amor,/  você deve ter ossos/ tão bonitos!” Ou ainda em “Leite quente no plástico ensanguentado”, em que o palavrão atua como catarse: “Virou pro fantasma/ foda-se.

 

Num livro sobre a morte, encontramos também a causa de nossa alegria – para recorrer a uma imagem da ladainha. No poema “Patrícia”, creio que Paulo Gonçalves evidencia, realmente, o que vem a ser uma verdadeira comunhão poética: “Porém eu vi Patrícia./ No comecinho da subida da prefeitura,/ a gente se desperdiçava em alegria.

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2019


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Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'Two Tahiti women', 1899


Paginação:

Nuno Baptista


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