ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Eduardo Madeira


Contos    

Guerra de corações
(Para A.P., que bem tem feito à minha saúde mental)

 

         Meu avô me dizia assim, se bem me recordo, que, nos seus áureos tempos de jovem, as hoje mais que triviais impressoras 3D regurgitavam apenas peças, armas ou esculturas em material sólido. Quando me quedo feito um louco a imaginar, chega soar surreal. Não é de se espantar que as pessoas morressem ainda aos oitenta ou noventa anos.

 

         Hoje, às vésperas de completar cento e trinta e três, me recordo com alguma nostalgia das famosas guerras de corações dos tempos de garoto. Cada grupo dispunha de sua própria impressora para, a seu bel prazer, imprimir seus corações de todos os tamanhos e tipos.

 

         Era coração pisoteado ao chão, coração dilacerado, pra todo lado, coração escorrendo pelas paredes de chapisco. Os mais ousados arriscavam com os próprios, mas somente aqueles que  podiam pagar pelos então caríssimos transplantes smart.

 

         Com alguma reminiscente fleuma juvenil, me recordo ainda, não sem esboçar um sorriso no canto dos lábios, das duras repreensões de Mr. Stevenson. O velho enxotava a moçada com gritos e pedras. Nunca deixava de expressar sua incontida ira diante daquilo que, segundo dizia, era um descabido desperdício. Ele que ainda pertencia a uma linhagem de famílias, hoje praticamente extintas, que herdavam sopros, arritmias e essas coisas de antigamente.

 

         É impressionante como giram as coisas, é o que constato agora, durante este frugal exercício de memória. Tudo anda tão diferente e ainda assim tão igual. Outro dia me exasperei, vejam só, e botei pra fora os mais vis insultos que se pode imaginar, tomado que estava de irritação por um garoto do vizinho que punha AIDS na água de meus gatos.

 

         Mesmo meu tataraneto, ai esses jovens de hoje em dia, anda experimentando cigarros de cirrose hepática com a turma de sua federação estudantil. As moças trocam as vaginas a cada semana, e os rapazes amputam braços em sinal de amor. Tumores descartáveis de pedofilia são moda mesmo entre os adultos.

 

         Em tempos de tantos corações ao léu, tempos de exíguas histórias, de rios de cobre e árvores de oxigênio, de prostitutas orgânicas e vacas veganas, me pergunto se ainda há espaço para o simples relato de um mero mortal como eu. Que o futuro, que está logo ali, na próxima sala de cinema, responda por nós.

 

 

 

 

 

 

Isis Faun ou A biblioteca de Madrid
(Para L.S., que fica)

 

Fecha os olhos que eu te toco o rosto e te falo do mar, te falo do deserto, te falo das coisas feias e das coisas vis, te falo da guerra e te toco no pau. Falo-te das bibliotecas de Madrid, da paz que eu senti, do choro no orgasmo, das músicas que jamais ouvimos, das imagens que jamais compartilhamos.

 

Uma delas, falo das bibliotecas, foi-me leito. Dormia lá, empertigada entre livros e sonhos. Inclusive o sonho de lhe encontrar, e te falar também do mar e das baratas que abriguei no estômago. Mas você. Tua alma é grego pras minhas demandas. Quem sabe basco, a língua do diabo. Teu foro íntimo é página cifrada da nossa história.

 

Meus olhinhos de pinball, atônitos, miraram seus olhos de jabuticaba que, distantes, miravam o horizonte ou a ti mesmo. Ainda não sei qual dos dois era mais longe.

 

Agora escuto aquela música. Eu tenho a sensação de que todos nós, seres humanos, já fomos um dia entidades maiores, de proporções colossais, com uma noção de consciência completamente diferente e feitos de uma matéria que obedecia a outras leis, a outras forças. Um dia, todos nós colidimos, e nossas partes se espalharam ao longo da existência, formando aquilo tudo que chamamos de universo. Coisas, afetos, pessoas, palavras, números, sorte, desejo, prédios, musas, cavalos, aparelhos, plantas, lebres-do-mar. Eu suspeito que essa música seja uma dessas partes, e que ela tenha vindo de mim. Não vou deixar de escutá-la. Você não tira ela de mim.

 

Você foi sem ter chegado exatamente, sem ter enxergado exatamente. E la nave va, e o que será será. Meus ouvidos auscultam teu silêncio. Meus dedos finos afagam os encalços do teu ir.  A música fica.
                                                                                                            

 

 

 

 

 

Monet

 

Papá. Estou aqui papá, em pleno século 19. E um garotinho me tocou papá. Tocou no meu bum-bum, e eu meio que gostei. Ele tinha um pé bonito, e eu chupei o pé dele.

 

Pa-pá. Lembra aquelas figurinhas do Monet? Era como aquilo papá, como é a palavra? Difuso? Tudo difuso papá.

 

E aí eu toquei nele papá, toquei nele de volta. Eu meio que gostei.

 

O sol estava muito bonito, e o dia muito quente. Eu suei todinha. Eu suei na minha parte também.

 

Papá, foi muito legal.

 

Quando a coisinha dele entrou dentro de mim, eu senti dor. Mas eu fui forte, você sempre diz para eu ser forte. Mas a despeito disso, foi muito legal. 

 

Tia Nenê não gostou nadinha, ficou muito brava. Eu te escrevo pra dizer que gostei, mas a tia Nenê ficou mesmo muito alterada. Ela gritou comigo, mas eu nem fiquei triste.

 

Ela me matou papá, deu dois tiros.

 

Adeus papá.

 

Um beijo.

 

 

 

 

 

 

Famílias e seus mistérios

 

Todo ano eu viajava, no verão, até Mimoso do Sul, por ocasião das férias. Uma vez houve uma festa de aniversário. Aniversário de criança, uma prima distante que eu via pela primeira vez. Porque em Mimoso a gente ficava, em realidade, na casa de uma tia não-tão-distante. A tal prima, que não fazia dez anos todo dia, foi contemplada com uma festa de maior escala que o habitual, que se estendia, então, até os primos e tios distantes.

 

Havia uma sala-de-estar. A mesa era de mogno, a cristaleira de macanaíba. Alguém pendurava uns desenhos. Eram desenhos feitos à mão, como contribuição à decoração, cuja singularidade cativante eu não pude deixar de notar. Me lembravam as gravuras de Hokusai, mas sem os temas nipônicos, que em verdade eram pastoris, bucólicos, como se o artista japonês tivesse sido convocado a ilustrar os poemas de Tomás Antônio Gonzaga.  O artista responsável, soube, era um menino de quinze anos. Um menino de quinze anos que morava no quarto ao lado. Sua porta, entreaberta, denunciava a presença de sua pessoa, empertigada no batente, como que temerosa, não compreendi.

 

O pequeno artista não vai comparecer à festa, soube. Ele padece de mancha negra, uma certa tia declara, seu tom é de resignação. O ar entorno do cômodo ganha uma densidade mística, como se a penumbra provocada pela incidência da luz nos móveis ganhasse peso, volume e profundidade, nessa ordem. Me lembrei de um artigo de revista que eu lera a respeito, anos atrás, e que explicava a capacidade intectual sobrehumana das pessoas que convivem com essa condição. Explicação que, a propósito, eu não me recordo.

 

Saía do quarto em raras ocasiões, e somente quando tinha a certeza de que todos dormiam atravessados por sonhos criativos. Sua autonomia era completa, sua voz uma raridade. 

 

***

 

Uma semana transcorrida, era hora de partir. Na manhã seguinte, rodoviária. Na noite anterior, fomos até o guichê comprar os bilhetes. Uma onda de pânico atravessou a população nas ruas, as pessoas corriam como se fizessem parte de um pesadelo onde o mundo é consumido por um monte de lava. Um cavalo negro, enlouquecido, surgia lá longe em raivosa disparada.
 
Na noite anterior, eu chorei. Na verdade tive uma crise de choro. Isso é o que acontece quando você acumula os problemas dos outros. Aquele cavalo, eu soube, apareceu por minha causa. Eu provoquei aquilo.

 

Levei na bagagem, então, um cavalo enlouquecido, uma crise de choro em praça pública e uma despedida tímida e melancólica, metido dentro do ônibus, aquela parte pouco conhecida da família pra trás. Acenavam.

 

Aconteceu que eu tive que voltar, pra buscar alguma coisa que eu já nem sei o que é, e pra descobrir que o problema na luz da cozinha devia-se a um rato que, soube, habitara o fusível externo por mais de um ano.

 

 

 

***

 

Não durmo na volta. Vou sentir falta do menino singular que convivia com mancha negra, à revelia de um ar muito menos trágico do que misteriosamente distinto, como se ele visse em você detalhes que nem um espelho ou fotografia seriam capazes de revelar.

 

Famílias e seus mistérios.

 

 

 

 

 

 

Dinossauros

 

Há dinossauros por todo o teto.

 

O que eles vão fazer comigo? Será que eles querem um pouco de leite? Eu não posso simplesmente entregar o meu leite pra eles. Eles me observam.

 

ELES ME OBSERVAM

 

Mas eu simplesmente não posso me furtar de retrucar o olhar. Eu busco encará-los, na tentativa vã de intimidá-los. Eu quero que eles saiam. Eu quero verdadeiramente que eles saiam.

 

Mas eles permanecem.

 

ELES PERMANECEM ALI

 

Parados, quase que inertes. Não se movem os malditos. Mas eu quero que eles partam.

 

Eu penso em contratar os serviços de um especialista, eu penso verdadeiramente na possibilidade. Alguém devidamente capaz de resolver o problema. Alguém dotado de capacidades especiais.

 

ESPECIAIS DE MAIS

 

Até pra mim.

 

Eles parecem se mover. Eu penso em fugir. Eu penso até em ter medo.

 

Eu tenho medo. Muito medo.

 

É o fim.

 

Há dinossauros por todo o teto.

 

 

 

 

 

 

O gótico e a poeta

 

         A qualquer geração remota que porventura ou fortuna se atira a essas linhas, devo que dizer que existe ou existiu uma pequena grande metrópole de belas praias e córregos, mas também de  robustas montanhas e prados, algo perdida entre o Rio de Janeiro e a Bahia. Entre duas das pequenas grandes cidades que compõem sua região metropolitana há uma ponte de concreto pré-moldado cujo vão central ultrapassa os oitenta metros. Além de ponto turístico, é o lugar preferido dos suicidas.

 

         Os chefes de estado proíbem a veiculação oficial dos fatos, mas todos que por ali moram sabem que o tráfego frequentemente alterado não se deve a nenhum incidente de natureza adventícia.

 

         A senda da coisa era semana sim e a outra também.

 

         Liana era a novíssima geração de uma família de catraieiros que fazia transporte alternativo há mais de cinquenta anos, e, por que não?, achava lindo quando aquelas pessoas alçavam seus voos rasantes com destino ao cálido e ermo fundo do mar. Não entendia porque sua vó sempre insistia em lhe tapar os olhos.

 

         - Mas vô, eu quero ver os anjos.

 

         - Não são anjos, são demônios.

 

         Eis que uma certa feita um demônio muito formoso emergiu ao lado do modesto e inexplicavelmente verde Liana II, ao que prontamente a vó ordenou que a neta saltasse ao mar, porque ela mesma não sabia nadar. Mas Liana, Liana era exímia nadadora desde que completara a idade de uma mão mais um dedo. Saltou de imediato e foi ao encontro de um menino algo que da sua idade que se debatia pedindo socorro.

 

         - Qual seu nome?, perguntou a vó ao socorrido, depois de um gesto de beijar-lhe a boca que soou estranho a Liana.

 

         - Tom.

 

         - Qual sua história?

 

         - Quero fazer companhia aos mortos.

 

         - Por quê?

 

         - Porque mortos não fazem guerra.

 

         Liana encantou-se com a resposta e também com as feições algo vampirescas do menino. Sentiu uma comichão no peito. Um troço esquisito assim da estirpe das coisas que nunca havia experimentado antes.

 

         - Onde você gosta?

 

         - Onde eu moro?

 

         - Não, onde você gosta?

 

         - Ah, eu gosto do cemitério.

 

         - Quer chupar laranja no cemitério?

 

         - Quero.

 

         E foram. A vó não tinha mais porque lutar contra os arroubos de sandice da menina, era bicho-do-mato e estamos conversados.

 

         No cemitério, chupavam laranjas, Tom e Liana.

 

         - Posso chupar seu pé?

 

         - Não, que nojento.

 

         Tom achava aquela menina um tanto quanto muito estranha.

 

         - Você já leu Goethe?

 

         - Hein? Se eu gosto de leite? - ela distraía-se com os esquálidos túmulos.

 

         - Burra. Perguntei se já leu um poeta chamado Goethe.

 

         - O que é poeta?

 

         - Burra. Poeta é quem faz poesia. Livros bonitos.

 

         - Eu tenho um livro bonito que eu achei.

 

         - Qual?

 

         - De um gatinho preto chamado Félix que tem uma bolsa amarela.

 

         - Burra, isso é quadrinho.

 

         - Mas é bonito, eu juro.

 

         - Você só lê figurinha?

 

         - Não, também colo.

 

         - Como é?

 

         - Tenho o álbum da copa.

 

         - Ai, esquece.

 

         - Esqueci.

 

         O pedante Tom escolheu mais uma vez o silêncio. Amava o silêncio do cemitério porque os mortos não diziam bobagens como aquela garota. Até que ele percebeu.

 

         Ela sorria mirando o chão. Olhava na direção de uma trilha de formiguinhas. Os primeiros raios de sol da manhã incidiam sobre sua tácita e despojada expressão. O semblante era de uma idílica fleuma. Liana logo se dirige até uma folha vermelha que caíra de uma castanheira, e a segura acima do busto, na ponta dos pés.
        


         - Que fazes?

 

         - Tento devolver a folha.

 

         - Não dá, ela secou e caiu.

 

         - Que nem você.

 

         - Que nem eu.

                                                                                                            
Tom agora sabia: estava diante de uma grande poeta.

 

Sou escritor e chamo-me Eduardo Madeira. Vivo no Espírito Santo, Brasil.  Tenho uma novela publicada pela editora Pedregulho (“Bichos que habitam as frestas”), que rendeu bons elogios do nosso supracitado amigo em comum, mote da nossa primeira troca de correspondências. De projetos em andamento, todos em prosa também. Contos e romances. No que tange ao acadêmico, estou para defender dissertação de Mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito.

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Paginação:

Nuno Baptista


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