ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Henrique Prior


Editorial: Uma mulher à frente da União Europeia    

Afirmava Metternich, chanceler da Áustria na primeira metade do século XIX que presidiu ao retalhar da Europa depois da derrocada do império napoleónico, que a Europa terminava às portas orientais de Viena. Como a Itália não existia como nação e a Península Ibérica pouca importância tinha no contexto europeu sendo considerada mais africana que europeia, significava isto que, para Metternich a Europa era a Áustria, a Prússia/Alemanha, a França e a Inglaterra. Os húngaros, ali ao lado da Áustria, eram já bárbaros e asiáticos.

 

A afirmação de Metternich que hoje vemos como exemplo da arrogância germânica tinha algum fundamento de verdade.

 

A Europa não tem fronteiras reais, sendo, geograficamente, um prolongamento da Ásia. Quando, no século XVIII, Vasily Tatishchev, ministro de Pedro, o Grande, da Rússia, indicou os Urais como fronteira entre a Europa e a Ásia, ele quis fazer sentir que Moscovo, a capital do império, ficava na Europa, tanto mais que o seu imperador tinha uma formação intelectual europeia. Isto apesar de a maior parte da Rússia se situar na Ásia, e de nela ainda vigorar - e vigoraria por 150 anos, até 1861- a servidão, que tinha começado a desaparecer desde o século XV no resto da Europa e era já residual em princípios do século XVIII, e completamente abolida antes do final desse século. Mas algo de semelhante ao que sucedia na Rússia sucedia também na Hungria, na Bulgária, na Polónia e na Roménia.

 

Os direitos dos cidadãos que começaram a ser reconhecidos com a Magna Carta, em 1215, e se tinham solidificado com a Glorious Revolution, de 1688, na Inglaterra, eram letra morta para os regimes despóticos dos países a leste da Áustria.

 

Não foi por isso sem razão que a União Europeia se construiu a partir do eixo franco-alemão, e na sequência do terrível sofrimento de ambos os povos com as duas grandes guerras. Os países a leste da Áustria estavam então sobre o domínio do totalitarismo soviético. E essas tendências totalitárias permaneceram após a queda do muro de Berlim. Integrar esses países na União Europeia foi um ato de defesa da EU tal como existia antes de 2004, mas também um risco assumido, porque as tendências despóticas nunca desapareceram desses países de leste.

 

Foi, no dia 16 de Julho corrente, escolhida para presidir à União Europeia, pela primeira vez na sua história, uma mulher, a alemã Ursula Von der Leyen. Como esta lembrou no seu discurso desse 16 de Julho perante o Parlamento Europeu, faziam  exatamente 40 anos que uma mulher, a resistente francesa Simone Veil, fora eleita presidente do Parlamento Europeu. Ursula von der Leyen reclamou-se da sua herança. E isso é bom. Outra mulher foi escolhida para presidir ao Banco Central Europeu, a francesa  Chistine Lagarde.

 

Significa isto que o eixo franco alemão se assumiu como motor da União Europeia, e a atual amizade entre os dois povos, substituindo uma ancestral hostilidade, é bem visível nas rua de Paris e Berlim.

 

Ursula von der Leyen prometeu mudanças. Desde logo prometeu defender o multilateralismo contra as tendências dominadoras das duas superpotências, USA e China, e contra o despotismo russo, reclamando para a Europa uma posição importante no contexto mundial.

 

Prometeu também não pactuar com a violação dos princípios democráticos e de defesa dos direitos humanos, nomeadamente daqueles que procuram refúgio na Europa devido às perseguições ou à fome, direitos esses que são a essência da UE e que os países de leste, particularmente a Hungria e a Polónia, agora acompanhadas da Itália, estão a violar.

 

Prometeu a defesa dos direitos dos mais frágeis, a começar pelas crianças, combatendo as injustas desigualdades que persistem na União, defendendo um salário mínimo europeu negociado caso a caso, e um seguro de desemprego europeu a acrescentar aos sistemas de proteção no desemprego já existentes em cada país.

 

Prometeu também  o empenho da UE no combate às alterações climáticas, e em atribuir ao Parlamento Europeu a iniciativa legislativa, o que representa um enorme passo na democratização plena da União Européia.

 

Prometeu ainda criar a União Europeia de Defesa, uma medida severamente criticada à esquerda. Mas a esquerda que critica esta medida tem de responder à seguinte pergunta: quer sujeitar-se  a aceitar a proteção da indústria militar americana para sua defesa ou abdicar de se defender do aventureirismo militar do déspota Putin?

 

A escolha de Ursula Von der Leyen e Chistine Lagarde para os dois cargos mais importantes da União Europeia pode não ser a solução ideal. Mas é um compromisso aceitável entre um certo conservadorismo do eixo franco-alemão e alguma esquerda, face às tendências antidemocráticas do leste e da própria Itália. Sob esse prisma, o discurso de Von der Leyen foi um bom discurso, e a confissão da Sr.ª Lagarde  de que a política do FMI face a países endividados como Portugal e a Grécia não foi a correta representa já uma mudança de paradigma que se deve saudar.

 

Não são as pessoas ideais para dirigir os destinos duma Europa que se queira de Liberdade, Justiça e Solidariedade. Mas são o equilíbrio possível, neste momento. Com as suas propostas não haverá grandes mudanças. Mas há pequenos passos em frente que não devemos desprezar.

 

HENRIQUE PRIOR

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2019


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