ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Henrique Dória


Clitóris: a ambiguidade é o crime    

 

No princípio era a unidade: todos os seres nascem simultaneamente masculinos e femininos. Um ponto essencial dos mitos Bambaras, grupo étnico maioritário no Mali, mas também presente no Senegal e na Guiné é que “ É uma lei fundamental da criação que cada ser humano ser ao mesmo tempo macho e fêmea no seu corpo e nos seus princípios espirituais.” Mas esta unidade continha em si a ambiguidade. O um continha o dois, e o dois só pode ser criado como dádiva do um. Porém, daqui decorre um perigo: o dois contido no um poderia desafiar o um e pôr em causa a sua domínio. Mais do que uma tentação, a maçã de Eva foi o modo como Eva quis desobedecer àquele de onde ela tinha nascido. E esta desobediência pôs em causa a unidade e a perfeição dos Jardim das Delícias.

 

Por isso, em tantas partes do mundo, as religiões, isto é, os mitos, tentam pôr termo a essa ambiguidade cortando no dois aquilo que o liga ao um. É esta origem da mutilação genital feminina, já praticada pelos antigos egípcios, como nos transmitiu Estrabão.

 

Hoje, a mutilação genital feminina é praticada, originariamente, sobretudo em África, embora também o seja na Ásia e mesmo na tribo Emberá, na Colômbia.

 

Hoje, por força das migrações, ela é praticada mesmo em França e em Portugal.

 

Maria Estela Guedes viveu em África, na Guiné Bissau, onde passou alguns dos anos mais felizes da sua vida. Sente, por isso, a Guiné como uma terra que também é sua, de onde lhe nasce a saudade:
Esta saudade que nos chega
Melancolia difusa
Como se tivéssemos sido divindades
……………………….Crianças num parque natural
………………………A soprar bolas de sabão
E a saltar de ramo em ramo
………………………Com araras e macacos.

 

Como ase tivéssemos sido ledos bichos
Num Paraíso terrenal
Locus amoenus anterior
……………………..À primeira glaciação
……………………A nostalgia
De uma pátria que  já nos deixou
Em que éramos gigantes
pp. 19                                                

 

E, como mulher livre, sente profundamente as mutilações que são praticadas nas mulheres que, em vez de extirparem essa ambiguidade mítica, mutilam a mulher naquilo que ela é, em corpo e espírito. Porque no clitóris é a natureza feminina que fala, ela própria única, não dependente dum suposto senhor. Escreve Maria Estela Guedes do poema códigos:
Não, não uso códigos, responde.
Não uso camadas estranhas
…………Ao geocontexto
Destinadas a cumplicidade
De um único eleito.
pp.13

 

Se a ablação do clitóris é um dos grandes crime praticados contra a mulher por esta sociedade onde continua a existir tanta homofobia, xenofobia e
“…pedofilia mesmo na nave central
Das mais flamejantes catedrais,
pp.39
a mulher continua a ser objeto dos mais cobardes crimes. Foi como grito  de defesa
“…dessas mulheres, amarradas, feridas
……………………….Torturadas, reduzidas à escravidão
……………………Violadas nas ruas escuras
E em burguesas camas de casal
…………………………..Pelos maridos?”
pp 39
que este livro de poemas foi escrito. Por isso ele é também uma bandeira do que de mais íntimo e seu tem a mulher e que ainda hoje a superstição e o senhorio do homem lhes estão a roubar.

 

Clitóris é o seu segredo e a sua força  no fundo do seu mar íntimo. É o clitóris que lhe permite reclamar o
“…estatuto de governante
………..ATOR
Qual, entre tantos iguais
……………………………
Reclamo eu
Em nome de meu órgão eréctil feminino
……………………Neste abscôndito jardim submarino
O estatuto de
…………………………PAI.
pp 44/45

 

Porque ela, a mulher, é a sabedoria, a força e a beleza que lhe permitem ser simultaneamente mãe e pai.

 

Clitóris é a sua força e a sua bandeira. Pornográfico o clitóris?
“Pornográfica é a vida, a guerra, a violência doméstica
…….O roubo da herança
…….A partilha com o pai ainda vivo
…….A pedofilia
……. A misoginia, a necrofagia, a xenofobia.
Pp 49.

 

O clitóris é a pérola mais íntima que se forma no interior da ostra. E como pérola deve ser guardada e mostrada.

 

É isso que faz Maria Estela Guedes neste seu belo livro de poemas.

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2019


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Colaboradores de Julho de 2019:

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Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'Two Tahiti women', 1899


Paginação:

Nuno Baptista


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