ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


A menina dos cabelos dourados    

Tantos dias na capital - e sob os limites da inação – libertei o pássaro das reminiscências e vi ou imaginei ver locais de acontecidos, uns agradáveis, outros nem tanto porque a gente seleciona lembranças, mas não pode modificar o enredo. Passado é vivido e ponto final. Houve um tempo em que o programa das noites de domingo em Belo Horizonte começava com a missa. Íamos sempre, um primo e um parceirinho da vizinhança. E como na época a freqüência nas igrejas era bem maior do que nesses dias de mil dispersões, nunca conseguíamos entrar. Ficávamos na rua ou na calçada em frente do santo prédio. Os dois, muito compenetrados, acompanhavam com respeito a fala e os gestos do padre, o “representante de Deus na terra”, como tentara me fazer crer minha santa mãezinha.

 

O aprendiz da descrença preferia apreciar as mocinhas, todas em trajes domingueiros, aqueles de “ver Deus”, como se dizia. Algumas até se compunham com pios véus da contrição como se fossem estampas das santas de folhinha. E o padre – lembro bem – era um falastrão e espichava a arenga sobre os males do mundo e as tentações do tinhoso.

 

 Mas que mal poderia haver em admirar as cordeirinhas, filhas imaculadas da devoção? Por um descuido qualquer sempre era advertido por cotoveladas, ora do primo Ruy, ora do amigo Roberto. Ambos consideravam desrespeitoso assistir à missa de braços cruzados ou com as mãos nos bolsos. Mantinham e exigiam postura militar: corpo ereto e mãos para trás. O primo revelava o determinismo trazido do agreste pernambucano e Roberto ainda ruminava os ensinamentos do seminário. Sim, também estivera lá, mas o inconformismo diante “do que tem que ser já está escrito” obrigaram a direção do educandário a excluir o revoltoso para que ele não subvertesse os aprendizes do sacerdócio.

 

         Finda a missa, com o salamaleque final no espalhar de cruzes no peito e no rosto, o público se dispersava. A maioria voltava para casa, moços e moças subiam três quarteirões até a pracinha, onde as meninas desfilavam lindezas e os rapazotes faziam poses com um cigarro entre os dedos. Ou no canto da boca, como os atores nos filmes de gangsteres. Preferia me imaginar um James Dean, que era novo e bonito. Humphrey Bogart não me servia de modelo por ser velho e feio. E quase sempre morria no final do filme. Na época, como tudo era disfarçado, poucos sabiam que o belo James não apreciava a mesma fruta que nosotros. Claro, o “politicamente correto” sequer era freio imaginado para evitar preconceitos. Simplesmente, não havia.

 

O que havia era uma menina de cabelos dourados – não louros – dourados com as tintas do ouro velho. Os cachos naturais ornavam o rosto de perfeita harmonia. Lábios carnudos, feitos para beijar; covinhas no instante do sorriso, um jeito de olhar... Conjunto perfeito, mesmo o nariz, ligeiramente arrebitado com ar de desafio. Ou de excessiva vaidade por se saber tão bonita? Pelo sim ou pelo quem sabe temia a aproximação. Havia troca de olhares de longe, não a perdia de vista. E ficava nisso porque a timidez é uma peia que tolhe passos e trava a língua. Até que em um domingo a decisão foi tomada. Lá pelas nove da noite a rotina ditava que as comportadas meninas deveriam seguir o rumo de casa e alguns dos aprendizes de macheza iam para o bar da sinuca. Ela iniciou a caminhada e foi seguida. Quatro quarteirões depois, retardou o passo e parou:


          - Oi, tudo bem?

 

          - Tudo bem.

 

         Ela abriu sorriso capaz de bimbalhar sinos e o tolo, querendo demonstrar erudição, sacou da algibeira da memória um elogio:
          - Você é igual a Capitu. Tem olhos de ressaca...

 

          - Eu não gosto de bebida!

 

         E se afastou pisando duro. A explicação se perdeu na noite:
          - Quem escreveu isso foi o Machado...

 

         O complemento “de Assis” nem foi ouvido por ela, que talvez nunca tivesse lido Dom Casmurro e nem soubesse nada sobre a indecifrável Capitu, cujos olhos insinuavam uma “onda profunda que ameaça avançar e tudo tragar” - inclusive Bentinho -, o apaixonado marido e narrador da história.

 

         Tantos anos depois, após os filmes Capitu (1968), Dom (2003) - uma péssima releitura do romance - e a minissérie da TV Globo (2008), ambos com Maria Fernanda Cândido interpretando Capitu, talvez Edna – esse o nome da menina de nariz arrebitado - se lembre de uma noite ter ouvido um elogio e recebido como afronta. Hoje ela já deve conhecer a personagem machadiana; o que nunca soube foi que, logo após o insucesso, o apreciador do romancista começou a trabalhar numa loja de autopeças e ouviu que o patrão pretendia negociar o Opel, um esportivo carrinho alemão. E – quem sabe? – o chefe concordaria em vendê-lo a prestação, com descontos no salário e ele, em domingos ensolarados, poderia levar a menina de cabelos dourados para fazer piqueniques nos arredores de Belo Horizonte. Claro que ainda não sabia dirigir, mas quem sonha dribla qualquer obstáculo e mergulha no impossível.

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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