ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Jean Sartief


Poemas II    

Mrs. Hirsch

 

Sim, Mrs. Hirsch,
Há um segredo entre
As páginas do livro.
E, às vezes, partilhar segredos é
Mais importante do que celebrar.
E mesmo ontem,
Com o tempo tão alegre,
Duvidamos do dia de hoje.
Na altura, nem saberia dizer
Se estaria cá entre Porto e Lisboa.
Entre os teus olhos e
Os de Veloso Salgado;
Entre a janela e a varanda;
Entre o canto e o livro;
Entre os meus medos e as
Minhas coragens.
Agora, estamos a tentar perceber
O que mais interessa
De sermos quem somos
Sem nos preocuparmos
Se é impossível não transgredir.

 

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Uma vista de olhos
Onde a pedra conta a sua história
E vê meu sangue novo (nem tanto)
A circular.
Grita,
Porque trago as minhas pedras,
Minha ruína, a passear.

 

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Jardim Secreto

 

Para que lado devo ir?
É a hora...
A calma de um fio de nostalgia (transparente)
Como uma florada a tomar os sentimentos.
Cheguei em setembro em carne e osso.
Sou de um material bruto que faz nascer
Coisas delicadas.

 

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Lara, Brennand e Eu

 

Degolada,
A mulher me habita...
Toma meu mundo e grita.
Tece olhares entre penumbras
E de uma lágrima inesperada
Ela sussurra: “Oh, Brennand, meu pai...
Ainda tenho tanto que aprender! ”
Com sua longa barba ele ri e diz:
“Filha, eu aprendo contigo e este que te beija
Precisa mais de ti do que qualquer outro

 

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Não há nada que eu possa responder
Porque em mim há a dor de existir a esmo,
Como se esperaria...
Preencher esse vazio de sempre deixado por tantos.
Preenchido por meu descanso eterno
Onde eu apenas descansasse
Do desejo de viver
Que queima nas águas.

 

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Espinhos

 

No mundo inteiro
Eles colocam as ideias
Repletas de distorções com espinhos
E sente-se na língua o gosto amargo.
Por isso, Baudelaire, estamos também,
Sem dúvida alguma,
Cheios de insolência.
São dias carregados de graça e
Alegrias supérfluas.
Cada vez mais,
Percorro longas distâncias
Para distinguir
As desculpas sinceras.

 

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Que horas são?

 

São cinco horas da tarde
E eu não tenho tempo de ir à praia.
De dois em dois dias
Penso que é tempo
De ver os diferentes tons de silêncios
Do mês de junho
E sorrir sem desertos
Porque não há nada de extraordinário
Em um mundo irreconciliável.
Tal como no dia que você disse:
“O homem que conheci era feliz e em ruínas! ”
O homem que você conheceu estava em uma praia
Durante a colheita imperial das lágrimas,
Bordado de justificativas.
Eu cheguei atrasado, você sabe!
As águas se agitam.
Para mim, é como um filme.
O último livro.
Tudo está de cabeça para baixo.
São três horas da tarde.


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Azul de esperança

 

Cuidadosamente
Depois de uma dezena de anos
Eu tenho o ferrão de uma vespa
E, no entanto, eu tenho medo.
Mesmo assim, insisto
Na necessidade absoluta
De correr para os teus braços.
Agora, nada é como antes.
Depois de dezenas de anos
Os dias são mais curtos
E a corda azul da esperança
Está rompida sobre as pedras.

 

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Descubro do alto
Que incertezas
Não cabem em sonhos.

 

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Silêncios.
Do alto da escada, certos olhos.
Dedos dançando no corrimão
Saem de cena.
A voz está perdida.
O calor é infernal.
Direções opostas
Com sorrisos escondidos
Na ponta dos lábios.
Há desencontros
Que não deveriam existir.

 

Jean Sartief é artista visual, ativista, gay, ceramista, andarilho e poeta.  Tem quatro livros publicados e mais dois não publicados.
Instagram - @sartief

http://sartief.wix.com/home

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2019


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Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'Two Tahiti women', 1899


Paginação:

Nuno Baptista


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