ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Indirá Camotim


Poemas    

To You,
The Beautiful All Of my Days

 

i have searched worlds for you,
argued with God and Angels,
knowing you had to exist.
through the desert of Samsara,
you eluded me.
sometimes you left
musical notes in my silences,
which I played in broken and abandoned pianos.
but they were just pieces
of an incomplete and sad symphony.
there have been Ports in which I have stopped for a while
to rest and make pretend,
that a ship might sail in
with news of the whereabouts of you.
but you were always only an echo,
of all the sentences you had already spoken.
and I kept dying…

 

only in discovering myself,
have I found you,
the Beloved.

 

 

 

 

 

 

Para Ti
A beleza de todos os meus dias

 

procurei mundos por ti
discutindo com Deus e Anjos.
através do deserto do Samsara,
tu me iludias
por vezes, me deixavas,
notas musicais em meus silêncios
que eu tocava em pianos partidos e abandonados
apenas pedaços de sinfonias tristes e incompletas.
houve Portos em que parei por um tempo
para descansar e fingir
que um navio talvez me tivesse trazido
notícias do teu paradeiro

 

mas era apenas um eco
de tudo que já me tinhas falado
e eu continuava morrendo…

 

somente em me descobrir
encontrei-te a ti,
o Amado.

 

 

 

 

 

 

Beloved !

 

Through the dark skies
my wings spread wide open, I fly
Surrendering to a thousand deaths
and all the glorious sunrises.
I am a witness to the silent throes
of the birth of each new day
Oh holy, oh holy, oh Life !

 

Gratitude fills the wind beneath my wings
There is no fear except one,
of insufficient time.
In the ecstasy of knowing you
I shout out into the freezing wind,
“Let me kneel in awe of my Beloved !”
In love and pure insanity.
“Arise, my Love, arise to the challenge !”

 

Let my freedom be my own,
but be the altar at where I worship
in the beautiful illusion of my reality

 

 

 

 

 

 

Amado !

 

Através de céus escuros
e de asas abertas, eu voo
rendendo-me a umas mil mortes
e todos os gloriosos nasceres do sol
Sou testemunha dos espasmos silenciosos
do nascimento de cada novo dia
Oh santo, oh santo, oh Vida !

 

Gratidão enche o vento por baixo das minhas asas
Não tenho medo, a não ser um único,
que é o de tempo insuficiente
No êxtase de te conhecer
eu grito ao vento gelado,
“Deixa-me ajoelhar no temor do meu Amado !”,
em amor e em pura insanidade.
“Surge, meu Amor, surge ao desafio !”

 

Deixa a minha liberdade ser minha
mas sê o altar onde eu adoro,
numa bela ilusão da minha realidade

 

 

 

 

 

 

An Autumn Leaf

 

I am weightless
I float to the ground
embracing the earth

 

Then, dying in stages
I lose my colours
As the damp turns me ugly

 

A silent wail of despair
echoes in me,
as the ground slowly shifts

 

Worms crawl beneath me
Rain intensifies the wetness
making me disintegrate

 

I am dying…
I am earth.

 

 

 

 

 

 

Uma Folha no Outono

 

Sem peso
caindo até ao chão
e abraçando a terra

 

A seguir, morrendo em etapas
perco as minhas cores
humidade tornando-me feia

 

Um silencioso lamento de desespero
ecoa em mim,
e o chão lentamente muda

 

Vermes rastejam debaixo de mim
a chuva intensificando a humidade
desintegrando-me

 

Estou morrendo…
Sou terra.

 

 

 

 

 

 

My Solitude

 

I sit in silence
Thoughts scurrying through my mind
Treading noisily without necessity
Refusing to be banished
And banging invisible doors

 

I can hear them breathe
With a mind all their own
Their hungry fingers curling and flailing…
“Stop !”, I yell, in total silence

 

I hear the music
I strain to hear that haunting melody
Mesmerising, luring,
Embracing me like a lover
Inviting, seductive and so alive.

 

Cymbals join in but I shake my head
And they retreat
My Universe spins slower and melts into the colors of Autumn
There is the wet scent of brown falling leaves
It is time for silences
And solitude.

 

I smile.

 

 

 

 

 

 

A Minha Solidão

 

Sentada em silêncio
pensamentos correndo pela minha mente
pisando ruidosamente sem necessidade
Recusam-se a serem banidos

 

Ouço-os a respirar
com uma mente toda própria
seus dedos famintos e agitados
“Pára !”, eu grito, no silêncio total

 

Ouço a música
esforço-me para ouvir aquela melodia assombrosa
hipnotizante, atraente
abraçando-me como um amante
convida-me, sedutora e cheia de vida

 

Os címbalos unem-se mas eu sacudo a minha cabeça
e eles recuam-se
O meu universo gira mais lentamente e funde-se em cores do Outono
Há o cheiro molhado de folhas castanhas que caem
É o tempo para silêncios
e solidão.

 

Eu sorrio.

 

 

Indirá Camotim
Nascida 10/12/1962, na Beira em Moçambique, onde estudei até aos 9 anos de idade e depois fui para a Índia. Estive numa boarding school inglesa e por isso é que falo e escrevo melhor em inglês. Consigo ler, escrever e compreender a língua Hindi, mas já não a falo. Estudei também a língua alemã e fui viver na Alemanha durante 2 anos. 

Estou a viver aqui em Teerão, desde 1988 e trabalho na Embaixada, desde 1989. Tenho 2 filhos, um nascido em dezembro de 1989 e a menina, nascida em janeiro de 2004.

Leio, escrevo e falo a língua persa. 

O meu amor à poesia e literatura deriva dos meus estudos em língua inglesa. Foi aqui que comecei a ler  Rumi, Hafez, Sa’adi mas adoro Rainer Maria Rilke, William Blake, Thomas Merton, Pablo Neruda, Nietzsche, James Joyce, Henry Miller, Anäis Nin, etc...

O conhecimento que temos e que ainda estamos a descobrir, intriga-me imenso e tenho estado a ler, ouvir, estudar e aprender tudo que seja possivel encontrar sobre o assunto.

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2019


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Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'Two Tahiti women', 1899


Paginação:

Nuno Baptista


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