ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

José Arrabal


O cinzeiro da ditadura    

Recordo perfeitamente o que me aconteceu naquela madrugada e manhã de horror, em fins de fevereiro de 1972. Após trinta e sete dias de prisão e torturas, em um quartel do Exército, na rua Barão de Mesquita, Zona Norte do Rio de Janeiro, eu, abalado e enfermo, fora transferido, há duas semanas, para outra cela, onde fiquei sozinho, em quartel próximo, na Quinta da Boa Vista.

 

         Tratava-se de uma cela maior, no andar térreo do prédio, com janela de madeira fechada por  dentro e gradeada por fora, voltada para o pátio.

 

         Logo percebi que a nova cela era um alojamento de oficiais agora adaptado para presos políticos. Havia mais espaço, cama razoável, dessas de campanha, banheiro azulejado, tudo me indicando uma situação de algum maior conforto que a anterior, no inferno da Barão de Mesquita.

 

         Além disso, tinha comigo uma valise de livros, romances e ensaios, antes confiscados pelos militares, quando invadiram o apartamento em que morava e me prenderam. Valise estranhamente devolvida a mim, por ocasião de minha transferência para essa nova cela.

 

         Ocupado com a leitura de um ou outro desses livros, procurei recuperar-me com mais segurança. Conter o estado de desespero em que me encontrava. Enfrentar melhor as tensões das últimas semanas.

 

         Agradava-me, sobretudo, nessa nova cela, seu silêncio. A ausência da barulheira que permanentemente me via condenado a ouvir, na cela anterior, através de um pequeno alto-falante escondido na luminária, transmitindo, dia e noite, por todos os dias em que estive lá, gravações com gritos de pessoas sendo torturadas.

 

         A comida, nesse quartel da Quinta da Boa Vista, também me pareceu melhor. E, com o passar dos dias, até mesmo comecei a acreditar que não havia, ali, muita viabilidade para as torturas que me surpreendiam, na Barão de Mesquita, quando menos esperava. Torturas que ocorreram por todo o tempo em que lá estive, com intervalos absolutamente aleatórios e nas horas mais inesperadas. Torturas que, nas últimas semanas, se davam, chego a crer, por mero costume dos torturadores. Espécie de vício profissional.

 

         De certo modo, cheguei a crer que nessa prisão de agora os militares me concediam a possibilidade de algum tempo em paz. E assim seria, plenamente, não fossem as desagradáveis e constantes visitas de um major do Exército, que se dizia encarregado do inquérito movido contra mim e meus amigos, todos nós, jovens estudantes universitários, que, por nos opormos à ditadura, havíamos sido presos nos primeiros dias daquele ano de tristes lembranças.

 

         Quando visitava a cela, esse militar conseguia deixar-me bastante irritado, sobretudo porque, em meio a seus comentários, vinha sempre com insinuações e ameaças, admitindo possível retorno meu ao quartel anterior, na rua Barão de Mesquita.

 

         Tinha, esse oficial, a triste mania de contar e recontar as mais trágicas histórias da ditadura. Fatos que, deveras, eu não desconhecia, mas que me eram muito desagradáveis, ainda mais quando relatados por alguém que sabidamente não passava de um torturador. Histórias que ele, com certeza, só por sadismo, recordava para mim, obrigado a ouvi-lo.

 

         - Você sabe, Beni Zusman, como foi que nós pegamos o Lamarca, na Bahia? - perguntava-me, sentando-se no único banco da cela.

 

         Logo em seguida, insistentemente, sorrindo, assim feito quem dá os parabéns a alguém, punha-se a me contar o ocorrido. E, por mais que eu dissesse a ele “- Sei, sim, major! O senhor já me contou isso! Ontem, mesmo!”, não havia como interrompê-lo, de nada adiantando, muito pelo contrário, pois me parecia que aí, então, o homem fazia ainda mais questão de prosseguir com a história dele.

 

         E, se não falava de Lamarca, vinha com a história da morte do revolucionário Carlos Marighela, em São Paulo. E, se não, matraqueava a respeito da prisão dos estudantes da UNE, em Ibiúna. Ou, como foram presos os seqüestradores do embaixador norte-americano. Sempre uma história assim. Com os maiores detalhes e os exageros de sempre. E seus falsos agrados e sorrisos de sempre. E sempre encerrando seu sermão com o mesmo refrão. A mesma chave de ouro de todas as suas histórias.

 

         - Não tem jeito, Beni Zusman! Nós viemos para ficar e vocês não têm como impedir! Qualquer dia desses, pegamos também o Luís Carlos Prestes! Você vai ver! Nem o Guevara escapou dessa! Deixa de besteira, rapaz! Larga esse negócio!

 

         Então, levantava-se e de pé adentrava por uma espécie de pito. Lição de moral meio oca, cheia de despropósitos, despida de nexo. Falava do amor e do maior dos amores, que é o amor à pátria. Dizia que eu devia me sentir mais brasileiro, ter orgulho do Brasil, amar o Brasil e não dar ouvidos a certas idéias que ele nunca esclarecia devidamente quais eram. Sem dúvida, o comunismo. Mas, também podia ser a liberdade sexual, o modo de vida dos hippies, o ponto de vista dos pacifistas e até mesmo a violência dos meios de comunicação de massa, sobretudo das histórias em quadrinhos, que, para ele, surgiram no mundo, não em vão, por volta da mesma época em que o bolchevismo subiu ao poder na Rússia.

 

         Pontificava. Vindo, então, com suas ameaças veladas, quando não, explícitas.

 

         - Pois é, Beni Zusman! Você não vai querer passar outra vez pelo que já passou?! Vê lá, rapaz!

 

         E disso, ia embora, me deixando cansado, irritado e, não menos, perplexo com a parafernália das idéias desse major. Lembrando-me e dando ainda mais razão a meu Professor de História, Lourenço Luciano, do cursinho, no vestibular, que, às vezes, em meio às suas brincadeiras, costumava falar para nós dos erros do Criador, dizendo que os homens, com as pálpebras, podem fechar os olhos e, com os lábios, trancar a boca, mas das narinas e dos ouvidos, pobres de nós, desses o Criador não cuidou, lhes negando descanso e nos obrigando tantas vezes a cheirar cheiros insuportáveis e a ouvir os maiores disparates.

 

         Claro que me sentia brasileiro. E me deixava puto toda essa conversa do tal major, sobretudo por ficar desconfiado que ele me falava dessas coisas por causa de meu nome e de minha origem judaica, ainda que ele nunca tenha tocado nisso, diretamente.

 

         Claro que me sentia muito mais brasileiro do que esse cão de guarda fardado, que dedicava sua vida à violência e à tortura, sempre a serviço dos ricos, dos patrões dele e da ditadura militar que mantinha o país naquele estado de horror.

 

         Assim procedia esse major. E não era um homem doente, embora parecesse. Nem mais, nem menos, desempenhava seu papel, no exercício de sua profissão canina, com o intuito de doutrinar-me. Não duvido que se imaginasse um patriota competente, um benfeitor da juventude, com seu arquitetado plano de doutrinação e suas torturas psicológicas, enquanto só me infernizava aqueles dias.

 

         Talvez tivesse lá suas irritações comigo, por meu silêncio sem sorrisos, sempre em oposição às tagarelices e aos falsos sorrisos de agrado dele.

 

         Creio que sim. Se não, como explicar o que me aconteceu, estando nessa cela da Quinta da Boa Vista?

 

         Numa dada madrugada, fui despertado por estranha algazarra no pátio do quartel. Fiquei atento e de certo modo com medo.

 

         De repente, saltei da cama e me preparei para o pior. Alguém batia com violência na janela da cela, enquanto gritava, me chamando:
         - Abre, Beni Zusman! Abre logo! Trouxe um presente para você!

 

         - Muito obrigado! Não quero presente nenhum! -foi o que respondi, encolhido em um canto. - Me deixe dormir sossegado! É muito tarde!

 

         Mas o tal sujeito insistia com suas pancadas na janela e gritos cada vez mais fortes.

 

         -  Abre logo, rapaz! Não enrola! Vamos! Vamos! -continuava. - É só um presente! Abre essa janela!

 

         O que acontecia me era mesmo muito estranho. Afinal de contas, eles tinham a chave da porta e por que não entravam? Pela janela gradeada com ferro é que não haveriam de entrar! E que história de presente era essa, àquela hora da madrugada?

 

         Lógico! Temia que fosse um comando paramilitar de extermínio de presos políticos, coisa comum naqueles tempos. Por sua vez, o tal sujeito prosseguia com a gritaria e as pancadas na janela, me deixando certo de que ele não pararia enquanto eu persistisse em manter a janela fechada.

 

         - Vamos, rapaz! Abre essa janela, Beni Zusman! É só um presente para você!

 

         Acontecesse o que acontecesse, decidi abrir logo a tal janela.

 

         Por precaução, me mantive escondido atrás da parede ao lado, enquanto alcançava o trinco que aos poucos fui movendo até abrir a janela.

 

         Ainda que escuro, pois tive o cuidado de não acender a luz da cela, pude entrever o rosto do militar que me chamava. Era um rapaz jovem, provavelmente um tenente. Um cara novo e forte que meteu o braço entre as grades e me entregou um objeto.

 

         - Toma logo! É um cinzeiro! Assim não suja o chão da cela!

 

         Foi o que falou, me deixando pasmado, diante de uma situação louca, completamente louca, inusitada, pois eu não tinha cigarro comigo, na cela. Sequer fumava. E me acordavam àquela hora, com aquela barulheira toda, só para me entregar um cinzeiro inútil.

 

         Não havia, deveras, como entender a lógica de tudo aquilo.

 

         Peguei o tal objeto que me davam, sem desgrudar de trás da parede onde me protegia. E, sem mais, nem menos, vi o tal militar afastar-se, seguro de sua missão cumprida.

 

         Confirmei, apesar da escuridão na cela. Era mesmo um cinzeiro de vidro, que imediatamente deixei sobre a mesinha de cabeceira, após ter trancado a janela.

 

         Intrigado com tudo aquilo que acontecera, por razões óbvias, custei a pegar no sono.

 

         Mal adormeci, acordei sobressaltado com o toque de despertar, no quartel. Aos poucos, vi a cela clareando. Sabia que dali a instantes trariam o café da manhã, conforme o costume.

 

         Pulei da cama, fiz alguma ginástica, indo às pressas tomar banho, um banho rápido, pois o sucedido na madrugada me deixara apreensivo, pronto para qualquer surpresa mais desagradável.

 

         Ao sair do banheiro, enquanto me vestia, pude, então, observar melhor e com mais atenção o tal cinzeiro que me haviam dado de presente.

 

         Tomado de pavor, percebi que se tratava mesmo de um objeto muito peculiar.

 

         De fato, era um cinzeiro, um cinzeiro de vidro transparente, que nada teria de especial, caso os seus aparadores de cigarro não fossem feitos de unhas humanas. Mais de meia dúzia de unhas humanas, juntinhas, grudadas e distribuídas por sua borda. Unhas grandes, secas e do mesmo tamanho, que, por essa semelhança, sem dúvida, não pertenciam a uma só mão.

 

         Transtornado, cresceu o meu pavor quando notei que abriam a porta.

 

         Mantive, contudo, minha dignidade, aguardando pelo pior.

 

         Com o cabo que sempre me trazia o café da manhã, entrou o tal major encarregado do inquérito. E, café posto sobre a mesa da cela, após o cabo ter-se retirado, eis que o oficial apanhou para si o cinzeiro.

 

         - Gostou do presente? - perguntou-me, rindo.

 

         - Não! - foi só o que lhe respondi, sério e firme.

 

         - Anda direito, rapaz! Anda direito, seu filho da puta, senão eu mando você direto para a nossa fábrica de cinzeiros! Entendeu, Beni Zusman!? - gritou, sem mais, nem menos.

 

         E foi embora, levando consigo o tal cinzeiro dele.

 

         No dia seguinte, visitou-me de novo na cela.

 

         Diariamente, prosseguiu com suas visitas, o mesmo sorriso e suas histórias. As sádicas variações de costume. Os mais recentes detalhes.

 

SP/SP

 

 

JOSÉ ARRABAL é professor, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular Na Cultura Brasileira – Teatro” (Editora Brasiliense), “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras - Vol 1/Vol. 2”, “Histórias do Brasil”, “Cacuí, O Curumim Encantado”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta”, “Da Vinci das Crianças”, “O Terrível Gosmakente”, “Lazarilho das Crianças”, “A Chave e Além da Chave” (Paulinas Editora), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço” (Editora FTD), “Histórias do Japão”, “O Lobisomem da Paulista...” (Editora Peirópolis), “Contos Brasileiros” (Editora Expressão Popular), “Sherlocks On The Rocks Nas Diretas Já”, “A Sociedade de Todos os Povos” (Editora Manole) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora), “Nouvelles Brésil” (Éditions Reflets d’Ailleurs - /França/2014). Blog: http://josearrabal.blogspot.com.br/ 

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