ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: Elogios Sombrios    

Outro dia li, no feed do MSN, algumas frases aparentemente elogiosas, mas que na verdade são sutilmente sexistas, manipuladoras, e enfatizam, sorrateiramente, a desigualdade dos gêneros, mais especificamente a “inferioridade” da mulher.  Do tipo: “Você fica tão sexy quando está bravinha comigo...”.  Além de esvaziar o sentimento dela, sem se preocupar com isso, já que para ele o que importa é apenas o que o excita,  ainda lida com ela como se fosse uma criança (pelo uso do diminutivo),  e ainda por cima mostra que a desarmará (dominará) sempre, por ser mais inteligente, sabendo modos rápidos de  reverter facilmente uma situação difícil. A partir desta matéria, comecei a lembrar de algumas frases que, ao longo de minha carreira e de minha vida, eu poderia considerar elogios, porque aparentavam ser, mas que nunca me convenceram de que realmente eram...

 

Eis algumas delas:


1.      “Tenho uma filha, mas ela é muito inteligente!...”
Esta frase era uma das preferidas do meu pai, quando falava aos amigos sobre euzinha, o que me deixava furiosa com a utilização da conjunção adversativa  (mas...).

 

2.      “Tamanho não é documento.”


Quando ouço isso, sei que estão tentando me “consolar” por não ser igual aos outros. Agora, diga isso para um homem para ver se ele não fica logo ofendido em sua virilidade... Para eles, é documento sim...  Uma outra frase equivalente ao tamanho é: “Nos pequenos frascos estão os grandes perfumes”. Ao que contraponho, em um dos meus poemas: “e os piores venenos também”...

 

3.      ”Se tamanho fosse documento, o elefante seria dono do circo...”


Comparar humanos com animais é esquecer de que também pertencemos ao reino animal, só que muitas vezes com menos sensibilidade do que os amorosos e divertidos paquidermes, retirados da natureza pelos donos de circo ou exploradores de marfim...

 

4.      “Quem não é o maior tem que ser o melhor.”


Quem pensa assim, já demonstra que se eu não for a melhor, dentro dos padrões dele ou dela, serei uma pessoa duplamente “desempoderada” (para usar o termo da moda...).

 

5.      “Sabia que você era naturalista, mas não sabia que você não comia peixe...”


Será que essas pessoas acham que peixe ou frutos do mar dão em árvore ou têm raiz?

 

6.      “Se você não come carne, você come o quê?”


Alguém chegou até a me dizer, um dia, que gostaria de ser como eu: de só comer mato... Me vi solenemente pastando, neste momento. De verdade.  Ouvi tanto e tanto e tanto e tanto esta pergunta que, esgotada, resolvi fazer uma lista com mais de 300 alimentos comestíveis e bebíveis que ingiro (bebidas também são alimentos... líquidos).

 

7.      “Ué, mas cerveja pode?”


Que eu saiba, nenhum animal é sacrificado para a fabricação dela. Então... pode. De qualquer forma, esta pergunta faz com que eu perceba que o naturalismo (sou ovo-lacto-vegetariana) ainda é percebido como uma alimentação circunspecta e sem graça, insossa e vagamente triste,  o que não é absolutamente verdade. É pura criatividade alquímica (adoro fazê-la, é uma das minhas fábricas de ideias e também de autoconhecimento). Já fui macrô rígida, mas há muitos anos tento em tudo que faço trilhar o caminho do meio. Sem exageros. Sem extremismos.

 

8.      “Acho muito bacana você gostar de cerveja em vez de vinho”.


Esta frase liga-se a duas “superstições”: a de que o status de “escritora famosa” não combina com uma bebida “popular”, e a de que o vinho, mais “nobre” do que a cerveja, deva ser reverenciado, ainda mais por mulheres... de certo nível...  Repare na ironia: como na antiguidade os povos não entendiam o processo de fermentação, esta bebida era considerada criação divina: Ninkasi era a deusa suméria da cerveja – um achado arqueológico recuperou o Hino a Ninkasi datado de 1.800 a.C.. Era ela quem preparava a cerveja diária e a servia para os demais deuses; e tão importante também era este divino  líquido para o mundo greco-latino, que o nome da própria Ceres (a Deméter grega), deusa da agricultura e dos grãos, vem da palavra cerveja. Portanto, esta bebida considerada predominantemente “masculina” na atualidade, pioneiramente teve mulheres cervejeiras a cultuá-las...  E nem simples mortais eram. Eram deusas.

 

9.      Depois da opinião expressada acima, às vezes a criatura ainda segue com a seguinte conclusão: “Isto mostra o quanto você é autêntica”.


Que comentário elogioso mais estranho, porque todos somos autênticos e únicos, só os robôs de inteligência artificial são... artificiais, fabricados em série... 

 

10.    “É incrível como você faz tanta coisa, tem tanta energia só comendo legumes...”


Não me deixo enganar: inseridas nesta louvação há pelo menos duas críticas veladas: além de eu não comer de tudo, com tanta gente passando fome por aí (“pra quê tanta frescura?”), ainda sou irresponsável com a minha saúde, insistindo nestas “restrições alimentares”... No entanto, não restrinjo nada, apenas substituo as proteínas animais pelas vegetais (grãos, oleaginosas, soja,  ovo, leite e  derivados, queijos, etc.). Para espanto de muitos, não como apenas frutas e legumes (nem só mato... ). Eu me alimento de carboidratos, gorduras insaturadas, tubérculos, verduras, raízes, cereais, flores comestíveis, hortaliças, e (descoberta recente), PANCS – sigla para Plantas Alimentícias Não Convencionais: amo-as, saboreio as incomuns ou as comuns, mas feitas através de um modo de preparo inusitado, novo; e, bem ao contrário das censuras implícitas, não gosto delas por exotismo, mas porque, além de apreciá-las, sinto-me também contribuindo, mesmo que seja com uma única folha, para diminuir o desperdício de comida e, consequentemente, da fome no planeta.

 

11.    “Bem que eu queria tomar café sem açúcar, mas a vida já é tão amarga...”


E o mais interessante é que as pessoas dizem sorrindo que a vida é amarga... Ora, café café é...  O açúcar é que é doce, mascara o sabor do café, e em grande quantidade pode até matar. Quanto à vida ser amarga, a minha não é não, abençoada seja!

 

12.    Se todos não gostassem de doce, como você, o que seria dos dentistas?”


Além de ser deselegante falar de infecção e bactérias dentárias relacionadas à outra pessoa, este raciocínio é bastante simplista: os dentistas não fazem um único tratamento, portanto, a falta de cáries não os abalaria, viveriam como vivem hoje, apenas com um procedimento a menos. Ao contrário do que acontece, entre os homens, com mulheres que apreciam cerveja, não gostar muito de doces, entre as mulheres, é uma aberração tão grande que viro uma pessoa suspeita. É quase possível quase adivinhar a desconfiança alheia: “será que ela é mesmo uma terráquea normal ou na verdade é alguma alienígena/extraterrena? De repente, preciso tomar muito cuidado com ela...”.

 

13.    “Você é mais bonita ao vivo...”


Sinal de alerta: não sou fotogênica e devo fugir de toda câmera fotográfica que me aparecer pela frente.  Selfies, Skype e Youtube então, nem pensar... estão fora de cogitação...

 

14.    “Beleza não põe mesa.”


Frase que demonstra que devo me consolar em ser inteligente. Ou seja, eufemismo igual a: “Deus quando fecha uma porta, abre outra”.

 

15.    “Você dirige tão bem que nem parece uma mulher.”


Quando eu tinha carro, ouvia muito este pseudoelogio, que em vez de me alegrar me aborrecia, pelo flagrante preconceito contido nele: por quê só os homens podem ser bons motoristas? Eu, por exemplo, conheço alguns péssimos.

 

16.    “Você tem muito talento!”


Sempre que alguém me falava isso, em geral com postura de expert,  eu pensava que talento era uma antiga moeda grega... e aí , zerada de saldo no banco, eu me sentia sem talento algum... Além do mais, talento para mim é sinônimo de aptidão, então toda vez que uma pessoa definia minha obra assim, me parecia que ela não desejava se comprometer em dar a sua opinião de forma clara e incisiva: em cima do muro, não dizia que gostava, mas também não era contra, aliás, muito pelo contrário...

 

17.    “Sua poesia é tão diferente!“


Na maioria das vezes, há até um segundo de pausa depois do advérbio de intensidade “tão”, como se o “fã” buscasse a palavra mais adequada... e menos comprometedora. Para mim, é uma versão modificada da frase acima: “Você tem muito talento...“. Ou seja, eu a interpreto como: “não gosto ou não sei se gosto do que você faz, mas não quero dizer isso com todas as letras”. Então, na  tentativa de ser simpático(a), o jeito é sair pela tangente...

 

18.    “Isso não é poesia. Mulher não escreve como você...”


Frase que também escutei dezenas de vezes no início de minha carreira, sobre meus primeiros livros (que inauguraram, a partir de 1976, um estilo inteiramente diferente da estética predominante à época), dita por pessoas que achavam que a produção poética escrita por mulheres tinha de ser comportada, submissa, atrelada aos padrões de comportamento até então exigidos para ela... Porém, dizer para uma mulher que ela não parece mulher era o máximo do estranhamento naquele tempo, quando não eram usuais as categorias conhecidas hoje por nós: trans, drags, etc.. Lógico que a crítica aberta não era nem de longe um elogio, mas neste caso, para mim soava como.

 

19.    “Sua obra é tão forte, deve assustar muita gente, não?”


Em geral quem diz isso é quem mais se assustou com ela... Sim, de início, quarenta e três anos atrás, quando o mundo era sócio-político-economicamente outro, foi de grande impacto e angariou muitos inimigos, preço pago por eu ter sido a primeira a ousar escrever de forma informal, sem floreios, impactante, desmitificando a ilusória imagem que se fazia do róseo mundo feminino de então; mas hoje qualquer primeira página de um jornal diário assusta muito mais.

 

20.    “Você sabe que acho sua poesia corajosa, despojadíssima, e aí pensei: você deve se sentir nua a cada livro publicado.”


Este comentário foi proferido em uma entrevista, por um jornalista de que gosto muito, mas que, de repente, resvalou feio: é sempre a jurássica e absurda ideia de que poesia é texto confessional (sentimentos íntimos, transbordamento de emoções...), em oposição à prosa, sempre ficcional. Respondi-lhe, sorrindo: “não, querido, nua me sinto criando, nunca depois de encapada...”.

Donde se conclui que Derrida tinha razão: é preciso se desconstruir o discurso para se encontrar a real intenção das entrelinhas.

 

 

Leila Míccolis, escritora de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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