ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Leonardo de Magalhaens


Onze Mil Virgens [2014], agrolírica de Djami Sezostre [Rio Paranaíba/MG, 1971-]    

 

 

 

Em sua obra Onze Mil Virgens [Editora 7Letras/2014] o poeta e performancer Djami Sezostre volta ao seu estilo na estética batizada AgroLírica, após as aventuras com a linguagem pela linguagem nas obras Z a zero [2010] e Eu te amo [2014], mais próximas da anti-lírica, ou da ironia iconoclasta.

 

Pois o poeta agroLírico está de volta ao estilo que o consagrou em Çeiva [1997], Anu [2001], Arranjos de pássaros e flores [2002], Cachaprego [2004] e Estilhaços no lago de púrpura [2006], no qual a relação do sujeito poético com a Natureza é de idealização & atração, em linguagem áspera & lírica, a seduzir & agredir tanto o ser amado quanto o[a] leitor[a]. Afinal, o poeta, ser humano, não é apenas ser natural, mas indivíduo de cultura. É constituído de linguagem, e somente com esta pode expressar-se.

 

Contudo, o poeta agroLírico assume seu lado anímico, tal qual um xamã, ao apresentar um mergulho no mundo natural, sem bucolismos, mas antes contato com a dor e violência, “Eu, alma do mato, acendi o espelho/ da visão mas não amadureci o olhar” (Lâmina). A Natureza é indiferente a nós, não sofre conosco, e se agredida revida sem piedade. Homo sapiens é apenas outra espécie que rasteja no planeta, a mais consciente e a mais afastada, a espécie que mais agride a Mãe-Terra.

 

O poeta não é ecológico, nem ecologista, não é ativista pró-Kyoto, mas sua poética tem força de denúncia, sendo uma forma de testemunho. Pois, ao perdermos nossa relação com a Natureza, passamos a ignorá-la e devastá-la, ignorantes que somos dos revides de terra e clima. Tremores, tsunamis, inversões térmicas, tudo vem a golpear-nos.

 

O poeta está bem ciente de si, das suas potencialidades, apresenta um longo histórico de experimentações, então fica difícil julgá-lo apenas por um ou dois livros (o que muitos críticos fazem, e perdem o rumo e a credibilidade...) visto que trata-se de uma carreira de avanços e recuos, sem temores. Ele está adiante dos leitores, não pode ser previsto. Quando achamos que o poeta fará X, ele vem com Y, e todos ficam boquiabertos. É o ponto positivo, ainda que muitas tentativas sejam negativas. Ele sabe se desconstruir, assim como desconstrói a linguagem. A questão é esta; só o poeta pode se superar. (Devemos torcer para que ele consiga sua construtiva desconstrução...)

 

Os poemas nos fazem lembrar as fases introspectivas de Lágrimas e orgasmos [1986; 2002] e Moinho de flechas [1991], também de transição nas Flautas Agrestes, e as fases agrolíricas de Çeiva [1997], Pardal de rapina [1999] e Arranjos de pássaros e flores [2002], com o entrelaçar de amor & agressão. As imagens da Natureza são usadas como ásperas metáforas da criação (agro)lírica. O sujeito poético está às voltas com os rompantes dos próprios sentimentos, tal qual uma besta selvagem, pronta a abraçar e a devorar. Ele está disposto a agredir - verbalmente ? - os outros e a si mesmo. Para escrever, ele precisa se domar!

 

o meu destino é domar meu potro
fingir até o derradeiro instante e ar
que sou mistura de ferpas e pedra

 

o meu destino é tratar meu corpo
como se trata o boi no campo e vau
de lamber os cochos do meu sal

 

 

 

 

 

 

(Queda)

 

Se a relação consigo mesmo já é de doma, domesticação do ser selvagem, imaginemos a relação com os outros! O ser amado é também um[a] ente a ser domado[a], enlaçado[a], apaziguado[a]. A relação amorosa é uma agressão consentida? Ou suportada? É uma questão de domar o outro? O sujeito selvagem precisa de uma igual selvagem para compartilhar sua aspereza lírica? Até as metáforas são carregadas de mundo natural, ainda que revelem ecos de romantismo (a presença da paisagem, p.ex.) mas sem bucolismos, uma vez que a fauna escolhida – os predadores! - é símbolo de violência. O Outro – homem ou mulher – é animal selvagem que precisa ser amansado pela conquista amorosa, desabrochada no desassossego do Eu,

 

um estranho desejo eu ando carregando
preciso de uma mulher doida
selvagem, desvairada, em estado de mutação
sim, eu preciso de uma mulher louca
que tenha cabelos longos da cor do pôr do sol
tão longos quanto a distância que separa
o punhal na mão do homem e a suçuarana do falcão

 

 

 

 

 

 

(Dissonâncias)

 

e

 

teu corpo pleno em meu cume
ardeu meu sexo no estalo do viço
tua clave no clarão da manhã
riscou até cortar e muito sangrar

 

 

 

 

 

 

(O albatroz)

 

e também,

 

o teu corpo é a insânia de mim
traços tênues que tanto apavoram
e me deixa em êxtase no matagal

 

 

 

 

 

 

(Tez)

 

O poeta quer domar o outro assim como vem domar a si mesmo – e percebe que é a linguagem que precisa ser domada. A linguagem que é a única forma de relação com o mundo – ele está ciente, ele o experimentador por natureza – mas esta é incapaz de expressar seu Eu em totalidade. Em que nível ele é selvagem? E em que nível ele é civilizado? Onde o ser da linguagem se localiza? Não será a linguagem sua prova de Cultura? Logo, desconstruir a linguagem não seria a forma de voltar ao Natural? Então ele se sente O miserável do metapoema:

 

A todos eu pudesse escrever os poemas
Como se escreve Tijolos Paredes Fogo Camas
Tecidos Os corpos que vivem As casas
Onde os corpos andam e param como fossem
A mesa O campo de arremessos As bocas
Que falam As palavras mais quentes e Também
As mais frias A todos eu pudesse escrever
Os poemas invioláveis e estranhos mundos

 

Entendemos o poeta! Sim, a linguagem é por demais abstrata! Esta é incapaz de apresentar (sequer representar!) a concretude do mundo, pois ao dizer tijolo ele não está de posse do objeto tijolo, assim como diz casa, pedra, farpa, puma, fogo, ele está distante de tudo! Nas palavras ele não pode habitar, se ferir, se cortar, ser devorado ou se queimar! As palavras são por demais ocas para apontarem o quanto ele ousa expressar! Então vem o desesperar! (Daí muito de sua poesia atual ser biossonora, dada a uivos & gemidos, vociferações & grunhidos...)

 

a palavra mais bela, rainbow
não é potro nem novilha nem paradise
é a que alço e faço
o animal ficar alado
 

 

 

 

 

 

(Alado)

 

Em plena AgroLírica, onde a aspereza importa mais que a sonoridade (exceções são Anu e Cachaprego, claro, poemas-livros feitos, sobretudo, para leitura em voz alta), o sujeito poético tem interesse em passar a limpo sua memória selvagem (no sentido de não-tratada, não-ressignificada) como uma série de metáforas que a Cultura absorve sem digerir. O quanto somos animais? O quanto temos de vida-de-gado? O quanto somos guiados pelos instintos? O quanto somos Natureza?

 

eu queria ser natural
eu queria ser natureza
eu queria ser ser

 

eu queria ser vegetal
eu queria ser árvore
eu queria ser ser

 

 

 

 

 

 

(Ser)

 

e

 

um bicho de fogo renasce
de dentro de mim
uma montanha com espectro solar
e prisma de esfinge

 

 

 

 

 

 

(Ceticismo)

 

Com a linguagem o poeta está em combate, sem tréguas, do nascer ao fim do dia, sem meios-termos, pois ele está só diante da própria expressão : ou ousa dizer ou deve calar-se. Vestido de linguagem, ele está diante do Outro[a] que é doçura & aspereza, quando deseja domar & ser domado, sabe-se ferido e assim disposto a ferir, como uma compensação violenta pela expressão dolorida, que é rejeitada, “por onde vais que não me ouves / murmuro teu nome pela estrada / e o que vejo não passa de estio” (Vadia), o que motiva o círculo vicioso de amor & ódio, fruto do ressentimento, “ouço teu ir dentro da noite / e fico preso em mim” (O Pão) e “tantos os riscos nesse mapa / não sei por onde seguir / onde estás que não me ouves” (Perdição).

 

Lutar com as palavras é a luta mais vã, já escreveu o itabirano Carlos Drummond de Andrade, ou mais áspera, eu diria, e o poeta agroLírico sabe bem, quando seu sertão de infância e juventude está disperso em lembranças & palavras incapazes de trazerem o calor, o suor, a penúria, o solo rachado, as árvores raras. O sertão é dentro da gente, como já disse o cordisburguense João Guimarães Rosa, ou o sertão é uma parte isolada de terra, o poeta declara em “Pássaro Serrado”, e somente assim podemos retratá-lo, sem a aspereza que experimentamos ao vivenciá-lo. (Assim muitos escrevem sobre a miséria, mas sem senti-la. Falar da fome do outro é mais fácil...)

 

O poeta diante do outro, ou do[s] leitor[es], sente que a linguagem não é suficiente, que ela não é veículo confiável de comunicação – sua poesia visa comunicar! Ele que busca o diálogo! - a ponto de um desabafo, “não falamos mesma língua / não cantamos o mesmo latim / nem soamos o mesmo som” (Som), o que impele sua necessidade de testemunho – das asperezas da infância, da busca do pai, do sofrer da mãe, da penúria de sol a sol no cerrado.

 

o sol escalda os ombros
arde os olhos amadurece a pele
mina suor nas virilhas
escorre sumarento nas coxas

 

 

 

 

 

 

(Errante)

 

verás que minha vida é delirar
com o sertão que me acode

 

 

 

 

 

 

(Vivência)

 

mesmo que eu faça um poema
árido e torrencial é o sertão
ainda sim absorvo
setas de miosótis e durmo

 

 

 

 

 

 

(Lenitivo)

 

É sua necessidade de confissão, testemunho, expressão, diálogo que nos atrai em Onze mil virgens, livro-memória, que se baseia na vida áspera na fazenda de mesmo nome, em Rio Paranaíba, no triângulo mineiro, este espaço a ser recriado numa estética batizada AgroLírica, entrelaçada não só de desabafos, mas de construção poética nos limites da linguagem, aliada & adversária do poeta Djami Sezostre, que só tem um desafio diante de si: superar a si mesmo, em sua arquitetura textual tecida de ousada desconstrução.

 

 

 

Leonardo de Magalhaens: Bacharel em Literatura/ FaLe UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

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Paginação:

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