ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Luiz Eduardo de Carvalho


XADREZ: romance de Luiz Eduardo Carvalho    

"Nesta obra imperdível, Luiz Eduardo de Carvalho revela-se o romancista da estratégia - Leida Reis, juri do Prêmio Cidade de Belo Horizonte - 2016"

 

 

XADREZ é o novo romance de Luiz Eduardo de Carvalho, vencedor do Concurso Literário Nacional - Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 2016, lançado pela editora Patuá numa edição ilustrada, com projeto gráfico e formato especiais.

 

Em seu quarto título publicado, Luiz Eduardo de Carvalho nos apresenta um romance epistolar que transcende o gênero com acréscimos de poesia, resenha literária, cinematográfica e musical, além de traçar, en passant, uma crônica de um período marcado pela transição política da ditadura à democracia no Brasil. Não bastasse, é também o relato de um emocionante embate entre dois enxadristas que colocam no tabuleiro as determinações de suas existências. Joel - um carioca detento em Fortaleza por ter assassinado a esposa e o amante - ao aceitar o convite de Emanuel - um velho e solitário português recém-chegado ao Brasil - para uma partida de Xadrez por correspondência, não podia supor, nos primeiros lances, a íntima amizade que nasceria entre os dois estranhos e as oportunidades que disso derivariam até um final surpreendente.

 

Segundo Luiz Eduardo de Carvalho, "XADREZ é um livro que me permitiu revisitar alguns dos anos mais importantes de minha formação intelectual e passear com liberdade pelas referências que substanciam a minha própria literatura tal qual hoje a realizo como profissão. Livros, filmes, músicas, fatos históricos e políticos que marcaram a transição da ditadura para a democracia brasileira são alguns dos motivos pintados num tabuleiro em que sempre se disputou o visceral jogo, mais ou menos explícito, entre diferentes ideários, classes, interesses. Após vencer o Concurso Nacional de Literatura - Prêmio Cidade de Belo Horizonte em 2016, XADREX aguardou o tempo necessário para vir a público pela Editora Patuá numa edição tão caprichada que foge ao padrão no mercardo para se tornar um amuleto que, de certo, trará muito encantamento a cada leitor que, por meio da leitura, comungar com todos de uma história cativante".

 

Leida Reis, do júri do Prêmio Cidade de Belo Horizonte / 2016, escreveu a respeito da obra: "Então, tem certeza de que tudo o que está vivendo não passa de artimanha alheia? Está preparado para ouvir alguém gritar “xeque-mate”? Qual será sua surpresa ao perceber que absolutamente nada orbita nos trilhos aos seus pés... Nesta obra imperdível, Luiz Eduardo de Carvalho revela-se o romancista da estratégia. Enxergo cinema aqui". E isso talvez se deva à agilidade na narrativa, conferida pela curta extensão das sucessivas cartas que alternam, em ritmo cinematográfico, as diversas cenas que trazem consigo para adensar as narrativas de fundo que, na verdade, constituem a verdadeira trama invisível que se traça até um final surpreendente.

 

O Xadrez do título, na verdade, poderia expressar-se no plural, já que, para além do jogo no tabuleiro e do cárcere em que se encontram os personagens, há outros jogos em curso. Um qualificado leitor apontou que “o primeiro lance desse jogo infernal não é o inaugural de uma partida que se joga desde os dias de colônia”, outro do ramo psicanalítico afirmou que “Freud teria engolido o charuto caso estivesse disputando tal partida”, traçando referência ao jogo sexual que compõe outra camada desse tabuleiro de muitos estratos com jogos concomitantes em cada um deles. Houve quem não se conformasse com a simpatia desenvolvida, com uma certa ternura, pelos personagens abjetos que se encarnaram nos protagonistas. Um velho preconceituoso, misógino, avaro. Outro, um feminicida confesso e sem remorsos, convicto de seu ato. Talvez exatamente por essas características que reste uma suspeita enfeitada de Síndrome de Capitu ao cabo da leitura. Terá sido aniquilação ou salvamento a correspondência que se propunha e se cumpriu como jogo? Eis o xeque posto ao leitor.

 
Trechos da obra:

 

Exatamente por configurar-se uma aposta contra a ansiedade é que aceito este estranho desafio: meses de cartas para lá e para cá, intermediadas pelos mais estranhos eventos a atrasá-las, serão a conta do exército inimigo a personificar todo o plantel de minha ansiedade. Assim, quiçá, ela poderá depositar-se e asserenar-se no tocante à espera do consecutivo lance! Pareceu-me deliciosa a perspectiva. O que achas?

 

Ah sim, tenho trinta e quatro anos, nasci no Brasil e encontro-me na detenção em Fortaleza, cumprindo penas por duplo homicídio qualificado que somadas deixam-me em prisão perpétua. Matei meu ex-sócio e minha ex-esposa quando ainda eram meu sócio e minha esposa! Explodi os dois na lancha dele, enquanto me traiam sobre parte da fortuna que ele desviava e roubava de mim! Não tenho remorso, apenas raiva de ter sido descoberto! Já estou na gaiola há oito anos, agora só falta o resto da vida, assim, no que depender de mim, não precisa ter pressa em responder a jogada, pois por aqui não há ansiedade. Não espero por nada!

 

***

 

Não estranhe a caligrafia feminina nesta página. A crise, que me assola nesta feita, impede-me de sustentar a caneta. Pressioná-la entre os dedos parece com um suplício que não posso suportar. De articular minhas palavras, a fim de Rejane tomar-lhes nota, já me doem todas as juntas devido a reverberação do som em meu corpo. A medicação excessiva ataca-me o estômago e deixa-me modorrento, o que talvez prejudique um pouco a qualidade de meu gênio oponente no desenrolar do nosso embate. Estava, contudo, convicto de meu lance tão logo recebi o teu, antes de a crise agravar-se: minha rainha vai a d4 encilhar tua égua!

 

Acordar todos os dias no mesmo lugar, passar o dia todo nele, dia após dia. Veja que dois elementos repetem-se à exaustão: o mesmo espaço na sucessão dos dias. Por contágio, os dias tornam-se também o mesmo, todos iguais e isso é o mais difícil: constatar que o amanhã está fadado a ser exatamente a repetição do hoje e do ontem, num vácuo de fatos que consome qualquer perspectiva de amanhã. Errei quando escrevi que fui condenado a aqui ficar até a morte. Melhor diria: morri no dia em que aqui entrei. O homem tornou-se arrogante, à imagem e semelhança de um Deus punitivo e vingativo, construiu um purgatório próprio em seu paraíso particular e colocou-me nele a definhar até que morra carnalmente, para, só então, meu espírito culpado enfrentar o purgatório divino!

 

***

 

Meu amigo, reli cada uma de tuas cartas. Vistas em conjunto, dado um passo atrás, o foco aponta para uma quase total discordância em nossos gostos: musicais, desportivos, poéticos, políticos e sei lá em quantos e quais mais assuntos! E brota-me disso o espanto do tamanho afeto que se criou em mim por essa nossa correspondência e seus desdobramentos, justo eu, sempre tão avesso às intimidades, tomo cá a caneta todo cheio de pudores em escrever-te e apontar tal antagonismo em meus sentimentos. Espero não demonstrar afetação.

 

***

 

Conta-me, meu amigo, em quantos e quais locais já morou? Já falou de Jersey e Açores, Porto e Coimbra. A quinta era ainda em outra localidade. Por onde mais viveu? Eu jamais tive, ou terei, teto que não no Rio e em Fortaleza.

 

Nasci à rua de São Filipe de Nery, bem defronte a torre dos Clérigos, num pequeno edifício de azulejos que ainda ali está, aliás como quase tudo ao redor. Depois, durante a infância, mudamo-nos para a rua Oliveira Martins, próximo do Jardim Doutor Francisco Sá Carneiro, num palacete que ainda me pertence e tem os mesmos inquilinos há duas décadas. Morei, no começo da juventude, no Açores, com meu avô paterno que enviuvara e, de lá, fomos para Angola, onde papai fez fortuna na mineração. Meu falecido tio cuidava dos vinhedos lá no Porto.

 

***

 

Meu amigo, você conhece a cantárida? Já a usou? Por incrível que pareça, posso obtê-la, pois o irmão de Pepe remete generosas poções clandestinas do besouro seco e moído para o marujo utilizar como moeda de troca aqui dentro. Fiz uso numa das visitas de Mercedes e senti meu desempenho bastante melhorado, nem sei dizer o quanto. Ela adorou, é claro, pode prolongar seu deleite com a rigidez proporcionada pelo complemento!

 

Nunca ouvi falar de cantárida. Besouro seco? Afrodisíaco? Li a respeito de certas ervas e pimentas hindus, raízes africanas, mas nunca acerca de besouros italianos. Entretanto, se funcionam... Não serão contraindicados no caso de reumatismos? Não causará aumentos de ácido úrico? Não posso aventurar-me com drogas ilícitas com o desprendimento de um adolescente irresponsável, preciso saber do que trata a sua bioquímica.

 

***

 

Se Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, suplantará Dom Quixote de la Mancha e será ou não a mais importante obra de língua espanhola, como afirmei outrora em carta dirigida a ti, o tempo dirá. Seu autor, no entanto, já terá seu nome gravado em um rol no qual não consta o de Cervantes! O Prêmio Nobel confere ao meu vaticínio de antanho um incremento que o torna ainda mais verossímil! Tu, no entanto, não dirigiste uma mísera linha derivada de tua leitura, ó pupilo ingrato!

 

Ah, acerca de Cem Anos de Solidão…  esqueci.

 

***

 

Rejane pede que me acalme e alega haver um tanto de neurastenia causada pelos remédios em meu sentimento de que estás sendo sarcástico em tuas últimas cartas…

 

O rei do tabuleiro parece mais moribundo do que o da cama! O que mais colocará em seu inventário? Quanto mais o rei legará em testamento? Qual sua última declaração? O último desejo? A última refeição? E a última prece, qual será?

 

***   ***   ***

 

***   ***   ***

 

Um poema inédito de Luiz Eduardo de Carvalho:

 

Lá dentro dos poemas,
nos vãos entre as letras,
deve haver mínimos portais,
finos escapes pelos quais,
refeitas de sucessivas surpresas,
as palavras se resignificam
na infinita polissemia
de que se faz a poesia.

 

Deve haver cumplicidade
entre a intenção e o acaso
para que tanto significado
tenha essa multiplicidade.

 

Talvez universos paralelos
com versos idênticos
e sentidos diversos,
como novos prêmios
para antigos pleitos.

 

Ou serão buracos negros
a condensar as palavras
e expulsar em quasares
seus significados plenos?

 

Não deve ser quântica
a questão semântica,
mas algum outro mistério,
balizado noutro critério.

 

Seja qual for a resposta,
não importa o resultado:
na leitura seguinte,
de imediato se reposta
para que outra cor repinte
seu novo significado...

 

 

 

Luiz Eduardo de Carvalho sempre atuou na intersecção entre Cultura, Educação e Política, tendo emprestado da Comunicação Social as ferramentas para as pontes. Estudou Farmácia e Bioquímica e Letras na USP e formou-se em Comunicação Social na ESPM. É licenciado em Língua e Literatura Portuguesa pela Universidade Nove de Julho. Foi professor, teatrólogo, jornalista, publicitário, assessor político. Desde 2015, dedica-se exclusivamente à Literatura e já recebeu diversos prêmios, entre eles o Oliveira Silveira (com o romance “Sessenta e Seis Elos” - ed. FCP) e o de Incentivo à Publicação (com a peça “Evoé, 22”! - no prelo), ambos do Ministério da Cultura do Brasil. Publicou também “O Teatro Delirante” e “Retalhos de Sampa”, ambos de poesia, o primeiro em versos líricos e eróticos e o segundo com temática geral, pela ed. Giostri.

Moisés Cárdenas, nació en San Cristóbal, Estado Táchira, Venezuela, el 27 de julio de 1981. Poeta, escritor, profesor y licenciado en Educación Mención Castellano y Literatura.  Egresado de la ULA-Táchira. Ha publicado en antologías de Venezuela, Argentina, España, Italia y Estados Unidos. 

Finalista de la décima edición del Concurso Internacional de Poesía el Mundo Lleva Alas, Editorial Voces de Hoy, Miami, Florida, Estados Unidos de América, 2018. Finalista en el IV concurso de narrativa para autores noveles Manuel Díaz Vargas 2016-2017 de Ediciones Alfar, España. Primer premio, en el 15  Certamen Internacional de Cuento, Ediciones Mis Escritos,  con la obra “Puede ocurrir”, Buenos Aires, Argentina, 2016.

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Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'Two Tahiti women', 1899


Paginação:

Nuno Baptista


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