ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Ngonguita Diogo


O dia da operação resgate    

O sol devastador escurecia a cor de jambo da mulher que corria desesperada tentando em vão salvar o cesto de frutas adquiridas naquela manhã, na praça do trinta. O dinheiro investido não era dela, pertencia  a uma vizinha com quem negociara juros de cinquenta por cento do empréstimo no fim do mês. Vinte mil kwanzas foi o valor investido, igual ao salário do marido que trabalhava como guarda  na porta de um colégio há mais de dez anos.

 

Fugida da guerra nas costas de sua mãe, ela não tinha lembranças de brincadeiras infantis porque nunca tivera tempo para brincar, aos sete anos de idade já acarretava água para beber, lavava a loiça, varria o quintal e cuidava dos irmãos mais novos, mesmo assim os olhos da mulher jovem brilhavam como as pedras de diamante da sua terra natal.

 

A mulher fora moldada na dureza. Casou cedo pensando que teria uma vida prazerosa mas enganou-se, logo vieram os filhos e passou a conviver com um marido preguiçoso e exigente. As crianças mal alimentadas adoeciam constantemente, deixando-a angustiada muitas vezes. Durante anos trabalhou como empregada doméstica em casa de um Pastor de uma Igreja, foi despedida por causa das faltas constantes para cuidar dos doentes.

 

O parco salário do marido não chegava para custear as despesas da casa, não conseguiu um outro emprego apesar de ter procurado, o que lhe restou foi acatar o conselho de uma amiga. “ faz negócio como eu”

 

As ruas estavam  frenéticas, homens, mulheres e crianças escondiam-se nos becos com o coração aos pulos. Havia muita mercadoria espalhada pelo chão e fiscais carregando desajeitadamente embrulhos, destruindo a esperança dos vendedores.

 

Muitos nem dinheiro tinham, viviam de kixiquila, portanto, viam-se endividados  nas rua vendendo produtos diversos.

 

A ordem chegou sem alicerces sólidos para acudir os desfavorecidos e trouxe a desgraça, a fome e a morte de muitas famílias.

 

O carro parou bruscamente. 

 

Procurei na memória do aparelho telefônico, o numero do mecânico que durante anos reparou a minha viatura velha, adquirida em Oshikango. O  Toyota Corola adoeceu no segundo ano após a sua aquisição, andava graças aos milagres do mecânico. Carro veloz como a alma que me acompanha.

 

Voltei a olhar para o veículo de aspecto reluzente, abanei a cabeça desgostosa e abandonei-o na rua da desgraça. Caminhei taciturna até ao aglomerado de gente que esperava o candongueiro. Aí fiquei até que o azulinho que me interessava chegou abarrotado de gente. Só havia lugar na baúca. O cobrador olhou com interesse as minhas avantajadas ancas e reclamou: aqui não há lugar para ti, estás muito gorda, mas lá em casa tenho um lugar privilegiado! O motorista riu-se e arrancou a viatura sem que tivesse tempo para reclamar, mesmo assim alguém o fez em meu lugar:  -“ isso é falta de respeito e preconceito,  a senhora até está bonita, isso tudo é dela mesmo, algumas fazem enchimento, ela não! “ - A defesa não me agradou, mas enfim, tive que me conformar.

 

Consegui encontrar o número do mecânico e liguei: - “ Preciso de ajuda, o carro avariou na rua António Barroso,” – “ Desculpa mãe não vou poder sair daqui porque estou com problemas, a polícia fechou a minha oficina”.

 

O nervosismo trouxe-me fome, é sempre assim quando fico nervosa, pensei em comer pipocas e procurei o vendedor ambulante que me acudia nestas circunstâncias, não estava na rua, tinha sido levado pelos polícias, disseram-me.

 

A sede também veio insultar a minha garganta,  corri para a loja do Mamadu mais próxima ansiosa por um copo de água gelada e bati a porta. Alguém gritou; “ – Não está ninguém aí, a loja está fechada, o proprietário foi expulso porque estava ilegal no País.”
- “Ó Deus o que faço agora?” – Indaguei.

 

O mecânico era pai de oito crianças em idade escolar, perdera a mulher no parto do último filho, que tinha apenas dois anos de idade. O drama dele foi conhecido porque ficou trinta dias sem trabalhar, deixando desesperado os clientes.

 

Durante anos trabalhava na oficina improvisada no quintal da sua casa, desconhecia a lei, nunca ninguém o havia dito que trabalhava irregularmente, a usina era frequentada por grandes responsáveis do governo e até militares com patentes altas e todos diziam-se amigos.

 

A mulher tropeçou e caiu, as frutas espalharam-se pelo asfalto e com elas a alma da zungueira, dos becos saíram todos e caminharam em silêncio de prostração até  a morte, vitimas da operação resgate.

 

E eu?

 

Resgatada também morri nos braços da ordem, porém aguardo ansiosa pelo resgate dos fazedores desta ordem!

 

Ngonguita Diogo é pseudónimo literário de Etelvina da Conceição Alfredo Diogo. Nasceu em 1963, em Cazengo, Província do Kwanza Norte/Angola. É formada em Administração de Empresas, poetisa e declamadora.

Tem as seguintes obras publicadas: “No Mbinda o Ouro é Sangue“, 2010 - Conto; “Weza a Princesa“, 2010 - Infanto-Juvenil; “Sinay“, 2011 - Romance; “A Minha Baratinha“ 2011 - Infantil; “Acudam Maria do Rangel“ 2013 - Romance;“Da Alma ao Corpo“ 2014 – Poesia “E Assim Virei Maria“ - CD de poemas. Tem poemas publicados no Suplemento “Vida e Cultura” do Jornal de Angola, no Semanário “O Independente” e na “Revista Omnira“ em Salvador da Baia. É Membro da Academia de Letras do Brasil e do“Movimento Lev arte Angola“.;

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Julho de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Julho de 2019:

Henrique Prior, Conselho Editorial, A. M. Pascal Pia ; Federico Rivero Scarani, trad., Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adriane Garcia, Sérgio Fantini, Tadeu Sarmento, Atanasius Prius, Caio Junqueira Maciel, Clara Baccarin, Eduardo Madeira, Fábio Bahia, Federico Rivero Scarani, Francisco Gomes, Henrique Dória, Hermínio Prates, Indirá Camotim, Jean Sartief, Jennette Priolli, José Arrabal, Leandro Rodrigues, Leila Míccolis, Leonardo de Magalhaens, Luiz Eduardo de Carvalho, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nagat Ali, Ngonguita Diogo, Nireu Cavalcanti, Osvaldo Ballina ; Rolando Revagliatti, entrevista, Ricardo Ramos Filho, Roberto Dutra Jr., Waldo Contreras López, Wanda Monteiro


Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'Two Tahiti women', 1899


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR