ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Feira    

As cores das feiras de rua me fascinam. Gostoso andar por entre as barracas em manhã ensolarada, ouvindo a gritaria bem-humorada dos feirantes. Frutas, verduras, utensílios domésticos, temperos. Há diversidade capaz de transformar o tempo em festival de odores, existe tamanho burburinho alegre entre os caminhos tortuosos formados pelas sombras construídas por toldos de lona, que a gente caminha mergulhado na própria felicidade, parando aqui e ali para experimentar um pedaço de manga, comer a banana docinha ouro, beber um copo de caldo de cana com bastante suco de limão. E como gosto de conversar, nem percebo as horas passarem, o peso das sacolas não me cansa.

 

Há certa intimidade brasileira, coisa nossa, característica de um povo mais descontraído e desinibido, proporcionando diálogos muitas vezes divertidos. Saudável e importante para mim, a quase consciência de sermos solitários voluntariamente. Se optarmos em sairmos às ruas dispostos a conviver com as gentes circulando pelas calçadas, teremos companhia, afastaremos o silêncio incômodo para bem longe.

 

- Cuidado, meu senhor, caiu!

 

Interrompo o caminhar, olho para trás procurando alguma coisa, talvez tenha deixado a carteira escapar.

 

O vendedor, um japonês forte e simpático continua:
- Caiu o preço do caqui, o amigo não pode perder a oportunidade.

 

Afasto-me rindo com a inteligência do marketing improvisado, a criatividade a serviço da oportunidade. Jeito esperto de chamar atenção para o produto.

 

Mais à frente uma senhora, deve morar pelas vizinhanças pois já a vi caminhando pelo bairro, exibe para a moça do coco ralado um braço engessado quase até o ombro. Aproximo-me interessado.

 

- Foi no cotovelo? – pergunto.

 

- No punho – ela responde.

 

- Dói muito? – interessa-se a mocinha, com ar compungido.

 

- Doeu na hora de pôr o osso no lugar. Foi quando estava distraída, num tranco, quase desmaiei.

 

Depois de desejar boa recuperação afasto-me, consciente da facilidade nossa em interagirmos. Tal característica particular, espontaneidade em trocarmos experiências com quem não conhecemos é única. Torna os momentos mais quentinhos.

 

A mandioca estava barata, comprei logo dois quilos, não antes de perguntar se descascavam na hora. Fiquei ali um tempo parado, vendo a habilidade no manejo com a faca. Rapidamente foram providenciados cilindros branquinhos e bem raspados, planejei prepará-los fritos e cozidos.

 

Já quase no final da rua, próximo ao caminhão do peixe, uma senhora bem vestida, com poses de madame, chega falando alto:
- Onde está o meu carregador, eu mando mensagem para ele e não me responde?

 

- Está sentadinho ali, Dona Sílvia, acho que digitando para a senhora – acode o peixeiro.

 

Um rapaz, acocorado sob uma árvore, maltrapilho, escrevia com certa dificuldade no celular.

 

Ela o chama e ele vem gordo, grande, lerdo.

 

- A senhora vai levar salmão hoje? – retorna o homem dos pescados.

 

- Sim. Mas quero que corte em cubos, três quilos. Vou adiantando mais para a frente o serviço e já volto.

 

E afasta-se caminhando firme, autoritária, meio dona do pedaço, o moço balançando a barriga flácida, mudo, atrás dela.

 

Sento-me em um banquinho de plástico para comer um pastel. Especial. Para mim o ápice do programa. Enorme. Carne moída, queijo, presunto, lascas de azeitona e ovo cozido. Verdadeiro almoço. E fico por ali um tempo apreciando o movimento, o refrigerante gelado, ouvindo as conversas, criando coragem de voltar para casa arrastando o peso das sacolas. Bem mais feliz.

 

Muitas vezes me vem uma tristeza, certeza de viver dias meio sem solução, vendo o país se afundar em políticas para mim truncadas, relacionamentos complicados, tamanha falta de forças para continuar seguindo que resolvo botar os pés nas ruas. Ir à feira pode ser boa terapia. Deixo a depressão na banca de pepinos, ela cai bem também com os abacaxis. E volto para casa arejado. Se não chego a ficar contente, pelo menos desisto de cultivar pensamentos sombrios. As luzes que iluminam as folhas de couve, avermelham ainda mais os rabanetes, aquecem o meu pescoço, somam um pouquinho de esperança à minha existência. Não sei como, nem qual a razão. Acontece.

 

Jun/2019

 

 

Ricardo Ramos Filho, é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil.  Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'Two Tahiti women', 1899


Paginação:

Nuno Baptista


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