ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Roberto Dutra Jr.


O ornitorrinco do pau oco    

 

O último livro de Jorge Elias Neto faz um apanhado de sua produção poética desde 2000 e revela-se um volume essencial não apenas por viabilizar a compreensão de sua lírica particular em perspectiva, mas também realizar um mergulho num universo poético de um autor experiente que refina sua própria voz e sua percepção de mundo ao longo dos anos. O ornitorrinco do pau oco, saiu em 2018 pela editora Cousa, também capixaba, como o autor, e vem acompanhado de uma bela seleta de suas obras anteriores, sendo: Verdes versos (2007), Rascunhos do Absurdo (2010) e Os ossos da baleia (2013). A seção final, que dá título ao livro, vem com os inéditos, isto é sua produção que abrange os anos de 2013 a 2017.

 

         Um livro bem cuidado e de trajetória. A cronologia dos poemas nos faz atentar que seu texto resiste ao teste do tempo. Não é um livro de reprises, na verdade Jorge Elias resgata uma estratégia de Drummond, quando na Jorge Olympio Editora, que publicou além das “Seletas de prosa e verso”, o “Reunião”, que trazia os três primeiros livros do itabirano republicados em um único volume. A poesia tem dessas coisas, creio eu, em certos momentos a consciência do autor percebe que a melhor introdução para seu presente momento criativo são os textos que o antecederam e assim, permitem que o leitor compreenda a convergência da lírica pessoal e o progresso do trabalho com as palavras. Dessa forma, creio que o Ornitorrinco de Jorge Elias pode ser visto como um livro coeso em que os poemas colocam a linguagem do autor em evidência.

 

         Acima de qualquer tentativa de análise dos versos de Jorge Elias Neto neste livro, acredito que o leitor precisa atentar cuidadosamente para o segundo poema, “Decreto”, com a digna indicação: “para ser lido tomando água de coco à beira-mar”. Sua curta estrofe com modulações de manifesto abrem o livro com sutil humor e um convite que parece ser muito pessoal: “Não é permitida a inspirabilidade do óbvio”. Eficaz como um prólogo, a partir deste poema as seções do livro revelam o que poderia chamar-se de uma poética do equilíbrio. Algo que podemos compreender como a busca da imagem e da palavra correta para a impressão poética.

 

         Li O ornitorrinco do pau oco e passei por uma alternância de imagens que me remeteram às artes plásticas, a inevitabilidade finita da vida, a reflexão cotidiana e a metapoesia. Tudo isto condensado numa linguagem dotada da tranqüilidade vespertina de uma crônica. Esta habilidade contemplativa que o autor traduz placidamente em versos quase sempre brancos é o maior mérito do livro de Jorge Elias Neto. Nas suas páginas, entre uma ansiedade e uma lembrança resta-nos uma atmosfera solitária, como se estivéssemos sentados à espera de um amigo que não vem. Não há, contudo, alguma nostalgia artificial em seus versos. Muito pelo contrário, o autor vale-se da sua paciência com a palavra ao longo dos anos para fugir do óbvio, mesmo quando contempla um antigo embate presente em diversos autores: a busca do poético. Assim como, por exemplo, podemos observar no poema “O não alcançado”: “O grande poema / resfria sobre uma almofada / – preterido – / por um luar perdido / entre as folhas da embaubeira.”

 

         Por fim, ao nos debruçarmos na grande metáfora do título do livro, o ornitorrinco, não percebemos um estranhamento, como anuncia o autor em sua apresentação. Ao contrário do bicho, o seu olhar é plural por tratar-se de uma trajetória, logo com mudanças e nuances características da construção da voz interna do autor, porém coeso na simplicidade e coerência da escolha das palavras e dos formatos de cada poema. O ornitorrinco que o autor almeja, não são suas partes e sim o todo, isto é, o livro em uníssono. A certeza da coesão do todo e de que a leitura de O ornitorrinco do pau oco torna-se imprescindível ao apreciador de poesia contemporânea, eu prefiro exemplificar com dois trechos de poemas distintos que se encontram: “Dispo-me dos pés. / A liberdade essencial / se aproxima... / Finalmente, / me chamarei: / ninguém.” e por conseguinte, mais adiante o poeta parece responder-se no poema “Santo sujo”: “Nada sei de mim / nesse emaranhado de tinta”. Assim, o oco existencial da poesia de Jorge Elias Neto parece repleto de sentidos.

 

         Boa leitura a todos.

 

 

Roberto Dutra Jr. é brasileiro, carioca e insulano, nascido nos anos 70. Usa máquina de escrever, revisa com lápis e mantém as ideias em blocos de nota. Mestre em Letras, Roberto teve seus textos críticos, resenhas e contos publicados em revistas acadêmicas e de literatura. Seus poemas foram publicados nas antologias: “Escriptonita” (Patuá, 2016) e “Porremas” (Mórula, 2018). É colunista regular do blog literário “Zonadapalavra” (Wordpress). Em 2018 foi aceito pela Editora Urutau e seu novo livro de poemas, chamado “CASA”, está pronto e será publicado ainda este ano.

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