ANO 5 Edição 82 - Julho 2019 INÍCIO contactos

Atanasius Prius


O estado da Nação    

Para aqueles que acham que esta nação de valentes é um lugar chato, vou aqui fazer-lhes cócegas na sola dos sapatos até deixarem cair as cuecas de riso. Vou falar-vos do estado da nação. Quem não se rirá disto é o nariz da senhora Mendes porque esse, obviamente, não usa cuecas. Foram queimadas no vulcão dos Capelinhos, e é por isso que os nossos amigos americanos vão saltar de lá para Marte – um grande salto para a humanidade como foi o salto de César sobre o Rubicão no sítio onde ele tinha um metro de largura.

 

Mas deixemos o apunhalado e vamos ao que interessa a uns poucos, porque quase todos só se interessam pelos jogos de berlinde.

 

Sentimos que a nação não está bem nem mal, e que o contrário disto também é verdadeiro.

 

Quanto à saúde, temos cada vez mais doenças. Ele são os joelhos, os joanetes, as dores de corno, as hemorroidas e, como se não bastasse, as baratas a andarem de carrinhos de linhas nos hospitais e a morte que ataca sempre os mais velhos logo que atingem o limite de idade, e os mais novos com ataques de bichas, incluindo aquelas que fazem marchas de orgulho.

 

Está-se perto de descobrir o elixir da longa vida, mas este será muito mau para a saúde, garantem os médicos e os enfermeiros.

 

Quanto à educação, sabemos agora que dois e dois são cinco e menos um é igual ao litro. Nunca houve tantos licenciados e, por isso, abundam as orelhas de burro. O ministro garante que os professores são dignos do Estado mas que não há dinheiro para eles comprarem chicletes e não se deve confundir a bota com a perdigota.

 

Já no que toca à cultura temos cada vez menos sexo porque escritores e artistas andam ocupados com temas muito elevados e não tocam nas coisas baixas. Pela lei do movimento perpétuo tudo irá mudar pois uma nova geração há de descobrir que o que está em baixo é igual ao que está em cima, e que está gasta a posição de missionário.

 

Mas vamos agora para as fases da lua e falemos da economia.

 

O governo tomou a inteligente medida de acabar com a cebola para que o bom povo não chore tanto. Porém o povo come o que lhe dão e chora por mais do mesmo. Cada vez se produzem neste jardim mais caroços de azeitona e cascas de alho que são exportadas para o estrangeiro a bom preço. O Ministro da Defesa garante que irão dar receita suficiente para alimentarem os submarinos com óleo de fígado de bacalhau, demonstrando assim que a riqueza das nações está na boa balança de pagamentos entre as cascas de alho e o óleo de fígado de bacalhau.

 

Para o crescimento da economia contribuem também os automóveis de quatro patas, os aviões de papel e as bolas de cristal que os economistas usam juntamente  com as cabeças de nabo para preverem o futuro com rigor abderita.

 

O interior está cada vez mais um deserto habitado por velhos que a cada dia só conseguem ficar mais perto da morte, mas isso está longe de ser uma evidência. Todos estão de acordo que tem de deixar de ser interior e deslocar-se para o litoral, para por os tomates de molho na água do mar, a fim de ganhar multidões e frescura.

 

No capítulo das finanças estamos cada vez mais endividados porque pedimos empréstimos para acumular milhões debaixo dos ninhos de galinha, à espera que ponham ovos de ouro. Mas, como a economia cresce de cabeça para baixo, as contas hão de dar certas, apesar de os economistas da oposição afirmarem que também estão erradas, porque dívida e ninhos de galinha não são a mesma coisa.

 

A verdade é que tudo isto são fardos de bacalhau e tarefas ciclópicas do poder às costas do primeiro-ministro que o fazem ficar mais negro no Verão, embora parte dele fique, também, cada vez mais branca.

 

Duma coisa estamos nós certos: a morte é que nos vai salvar, porque Deus vela por Portugal desde Ourique e da Santa Inquisição. Ámen.

 

Atanasius Prius é um monge anacoreta que se cansou de jejuns, sacrifícios com cílios nas coxas, e orações quarenta e oito horas por dia, e resolveu fazer-se goliardo – o que também não conseguiu porque não tinha jeito nem para as mulheres nem para o vinho. Por isso virou analista político.
Salvé.

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2019


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Foto de capa:

PAUL GAUGUIN, 'Two Tahiti women', 1899


Paginação:

Nuno Baptista


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