ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Leonardo Almeida Filho


Romance: Nessa boca que te beija    

(fragmento do capítulo “O grande autor” do romance “Nessa boca que te beija” (Patuá, 2019), de Leonardo Almeida Filho

 

 

Levantou-se arqueado. Observando a estante, delirou ante os volumes lidos e desejados na esperança de que, em algum deles, pudesse estar a receita, . Quanto entulho! pensou babento enquanto sonhava em aparar as unhas, depois de estraçalhar os ratos. Buzinaram um escapamento pipocou lá fora e entrou pela janela os carros saracoteiam uma puta é arrastada por policiais na 12ª.ª DP barulho de garrafas e pigarro e alegria ébria vem vêm do Pavão Azul vento de pré-chuva levanta poeira e folhas secas pela rua arrasta grãos de areia na Praça praça Sezerdelo no Posto 3 levam os jornais que cobriam um sem-teto na Domingos Ferreira o delírio, o delírio, o delírio... pardais avoaçando penas de pulgas e parasitas que as titicas desovam na calçada escarrada pelo senhor tísico das aulas de latim no seminário de meninos crentes e quentes nas camas do monsenhor que se atira na campanha anti- teologia da libertação e reza seu terço de pedras verdes como os olhos da serpente que inocula credos e peçonha na bundinha de Ela que não reza e que não sabe um terço da missa que não freqüento frequento e que o diabo cospe de lado e malha o casco nas costas de um povo que masca a coca-cola e os bublegummers dos fuzis AR15 interceptados por colecionadores que assinam a gazeta mercantil para melhor negociar as almas das senhoras que contam e recortam os bingos das tevês insones que preenchem a existência de funcionários públicos em dias de jogos da seleção canarinho que também tem seus vermes e parasitas expostos na titica dos hotéis baratos e ruelas de crack e merla e merda e coca e camisinhas e sonhos rarefeitos e desfeitos e refeitos sem dó ou pena dos desejos assanhados e presos nas tranças da menina ruiva protestante cujo pai estupra toda noite em que a mãe sai para distribuir revistas de testemunhas de um deus omisso como muito pai e Ela que se encolhe na própria sina de ser apenas Ela um monstro górgona e seu mistério que decifro e leio num versículo de palavras que atribui ao Salvador dessa porra em que comemos e amamos e bebemos e cagamos e criamos e destruímos e matamos e elegemos e derrubamos e sorrimos e choramos e broxamos e mentimos e mesmotonamos e barbarizamos e confudízimos e neobramos e persistimos toscos e lânguidos e crédulos e perfídicos e tresfódicos e amórficos e amásicos e trôpegos e brasilúdicos e atávicos e serpentílicos e baboseiricos como nenhum outro povo antes ou mesmo porque somos o depois de quilos insondáveis de éter afrofortespérbano mergulhados à força e sob a benção de um Deus de carne e osso palestino no caldo tupinicosmicoriginário redemuinizados no caldeirão medieval do branco ibérico e mouro protetor da pele branca e destruidor das cores que lhe afrontam o bolso e o tesouro que se entregará logo ao novo testamento do planeta que caminha inexoravelmente para o buraco do Quasar de Campos e concretos com validade vencida e vazia vazios feito a pança enorme do menino de Uganda que era e é um negro a mais que se vai sem deixar a marca possível da grandeza da alma humana na aventura desumana do útero à sepultura assim sem grandes travessias e destinos epopéicos além das serpentes no cabelo da moça que vende o corpo para pais estressados com a preocupação que lhes dá a filha namoradeira e Ela e Ela e Ela e o namorado noiado que masca o rock and roll enquanto vende Bach e Telleman para um interceptador paraguaio que coça o saco e barrocamente pigarreia o negro fumo que alimenta o câncer da mulher do deputado que nos vende e tripudia sobre os pequenos barrigudos do Vale do Ribeira sem eira nem mesmo que se queira e se vão aos bandos para as beiras beiradas na periferia onde Maria se prostituía antes de cair doente aos pés da cama e da cruz dos crentes que arrecadam montanhas maométicas do vil metal para as grades dos apartamentos e sobrados que abrigam senhores e senhoras e filhotes de senhores e senhoras e o circo típico das relações furadas da burguesia e suas crises conjugais sem romeus ou julietas além do fogo das bocetas ardendo na hípica e no Iate Clube repleto de machos e fêmeas não- parideiras que como Ela jogam jogos das carnes que não se vendem nos açougues portugueses onde os patrícios riem de nossas piadas como rimos de nossos pais esclerosados e prostrados e abatidos e mastigados e derrotados e frustrados e tão sós quanto nós mesmos nessa fila infinita de personagens vivas de suas próprias e insignificantes histórias que são lidas nas certidões e nada- constas e fichas de ocorrência policial e diplomas e fotografias de santinhos de missa de sétimo dia ou espalhadas pelos cantos de nossas casas alugadas ou mesmo sob pontes e viadutos e sobre lagoas fétidas que quase se equilibram espelhadas nas encostas das montanhas que freqüentemente frequentemente se derretem como trágicos sorvetes de lama e limo e lodo que nos cobrem e nos aliviam da dor e da alegria de estarmos e sermos ou mesmo até pensarmos que estamos ou que somos e por isso mesmo o rádio do automóvel cantou desesperado quando um escapamento pipocou pela janela e o café de Vitória é bom como a saliva de Ela... de Ela, ele sorriu, tocou-se, respirou profundamente de olhos fechados. Ela, Ela.

 

 

Algo sobre o romance

 

Concluí a primeira versão deste romance em meados de 1995. Naquela época, a minha ideia era escrever um texto que fosse uma espécie de homenagem à Literatura. A história se passaria durante o Carnaval, tendo início na sexta-feira e término na madrugada da quarta-feira de cinzas. Nesses quatro dias, meu personagem, Luís, um escritor solitário, voyer, paranoico (o que no fundo é uma grande redundância, pois não conheço um bom escritor que não seja solitário, um pouco voyer e paranoico), relembra sua infância e adolescência, enquanto nos abre a porta para o seu mundo, para a sua escuridão e luminosidade, apresentando os vizinhos do prédio onde mora em Copacabana, seus amigos, seus parentes. Personagens vão e vêm pela lente míope do protagonista que, a cada instante, revela seu amor e ódio por uma misteriosa figura. Esse é basicamente o enredo dessa história. O livro acabou dormindo na gaveta por uma década, até que resolvi revisitá-lo. A primeira leitura me surpreendeu pela carga emocional do texto. Havia um frescor naquilo tudo, mas também uma verborragia imensa. Percebi o quão gordurosa estava a narrativa e cortei metade do texto. Enxuguei gracilianamente a história, eliminando passagens inteiras. Acabei incluindo outros personagens e me livrando de penduricalhos sem sentido. Escrever é sim a arte de cortar. Esse processo me consumiu outro grande período de tempo, além de dúvidas quanto à qualidade da obra.  Em 2017, relendo a história, fiz meus últimos ajustes e dei por terminado o romance que, naquela época, tinha ainda como título “O Grande Autor”.  Pedi que alguns amigos avaliassem o texto e um desses leitores especiais, o escritor Tiago Ferro, me sugeriu que trocasse o título, pois, segundo ele, não fazia jus à história. Foi quando os “Versos íntimos” de Augusto dos Anjos, que estavam na boca de um dos personagens, pediu para batizar o romance: “Nessa boca que te beija”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título “Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito”).  Alguns trabalhos publicados: “O livro de Loraine” (romance, 1998), “logomaquia: um manefasto” (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano “Antologia do Conto Brasiliense” (2004) e  “Todas as gerações” (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro “Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem”, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinqüentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos “Nebulosa fauna & outras histórias perversas”. Publicou em 2018 o volume de poesias “Babelical”, pela Editora Patuá. Email: leo.almeidafilho@gmail.com

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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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