ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Mexendo no vespeiro    

Há tempos, vi um vídeo em que os gols perdidos por Pelé na Copa de Setenta, contra a Tchecoslováquia e Uruguai foram alterados, através de uma montagem, e a bola acabou beijando a rede. Acho que fizeram também uma refilmagem do gol do Uruguai contra o Brasil, na fatídica final de 1950, e a bola fatal de Ghiggia acabou sendo defendida pelo sofrido goleiro Barbosa. Mudando de jogo, exercitando a memória, driblo alguns clássicos da Literatura, complementando um trecho de fulano com outro de beltrano, buscando trocar a frustração por um momento de êxito e epifania.

 

Tomemos, em primeiro lugar, o conto “Um homem célebre”, de Machado de Assis, que está inserido na coletânea Várias histórias. Nessa narrativa, o compositor Pestana é famoso pelas suas polcas populares, mas sua grande aspiração era compor algo que ombreasse com os compositores clássicos como Chopin, Beethoven. Todos seus esforços eram vãos, pois, por exemplo, se tentava compor um noturno, acabava por fazer mera cópia de Chopin. Pestana se casa, buscando inspiração no amor à mulher, mas nada conseguiu. Quando a esposa, tuberculosa, morre, pensa que agora poderia fazer da dor um esplêndido réquiem, à maneira de Mozart, mas a inspiração não lhe socorre.

 

Aqui, então, é que vou mexer no vespeiro: transcrevo um trecho do conto, mas acrescento uma passagem de Thomas Mann, de Os Buddenbrook, na tradução de Herbert Caro:
“Começou a obra; empregou tudo, arrojo, paciência, meditação, e até os caprichos do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o Requiem deste autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, célere a princípio, afrouxou-se o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a incompleta, não lhe sentia a alma sacra, nem ideia, nem inspiração, nem método; ora elevava-se-lhe o coração e trabalhava com vigor. E ele chegou; já não foi possível retardá-lo; as convulsões do desejo não se deixavam mais prolongar. Veio como se se rasgasse uma cortina, se abrissem portões, se descerrassem espinhais e desmoronassem muralhas de chamas... Surgiu a resposta, o desfecho, a realização perfeita; numa exultação encantada, tudo se desenredou; resultou uma harmonia que, em um retardando doce e cheio de saudade, logo se transformou numa outra... Era o motivo, o primeiro motivo que ressoava! E o que então se iniciava era uma festa, um triunfo, orgia desenfreada desse mesmo grupo de sons que se ostentava com todo e qualquer matiz de tonalidades, mandando através de todas as oitavas, chorando, morrendo em trêmulos convulsivos, cantando, rejubilando-se e soluçando, e que, enfeitado de toda a pompa do equipamento orquestral, se pavoneava vitoriosamente, por entre os estrondos e tinidos, escumando no brilho de pérolas...”

 

Não fica mais vibrante? Tomemos agora um episódio em que Fabiano, protagonista de Vidas secas, de Graciliano Ramos, cruza na caatinga com o soldado amarelo, que lhe humilhara há pouco tempo, levando-o preso. Fabiano pensa em se vingar, afinal só está ele e o outro naquele sertão árido. Quem leu esse clássico nordestino sabe que o retirante se acovardou, curvou-se e até ensinou o caminho para o homem da farda. Então, vou transcrever a passagem de Graciliano, mas completar com outras, extraídas de Sargento Getúlio, do baiano João Ubaldo Ribeiro:
“Aprumou-se, fixou os olhos nos olhos do polícia, que se desviaram. Um homem. Besteira pensar que ia ficar murcho o resto da vida. Estava acabado? Não estava. Mas para que suprimir aquele doente que bambeava e só queria ir para baixo? Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira e insultava os pobres! Seu peste, puto, peste, peste, peste, seu pirobão, eu estou lhe dizendo que não sou mais aquele, eu era ele agora eu sou eu, e se eu lhe dar uma dentada, eu lhe tiro sua cabeça fora só com uma mordida, pois com esse braço eu derrubo esse morro de seiscentas mil arrobas em cima cima de sua cabeça!”

 

Agora escolho um trecho da célebre Carta de Pero Vaz de Caminha, que será complementada com um poema de Chacal:
“Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrissem suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E um deles disse veiu uns ômi de saia preta cheiu di caixinha e pó branco qui eles disserum qui chamava açucri aí eles falarum  e nós fechamu a cara depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo aí eles insistirum e nós comemu eles.”

 

Para encerrar a brincadeira, mas sugerindo que leitor faça também suas trapaças, tomo um trecho de Grande sertão veredas, de Guimarães Rosa, e o complemento com uma passagem do próprio autor mineiro, extraída do belíssimo conto “Sequência”, de Primeiras estórias:

“Eu queria morrer pensando em meu amigo Diadorim, mano-oh-mão, que estava na Serra do Pau d’Arco, quase na divisa baiana com nossa outra metade dos sôcandelários... Com meu amigo Diadorim me abraçava, sentimento meu ia-voava reto para ele...Tanto ele era o bem-chegado! Inesperavam-se? O moço compreendeu-se. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.”

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


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Nuno Baptista


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