ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Manuel Casqueiro


Os Kandengues da Cochinchina    

“A pessoa nasce para os outros.”
(Provérbio Africano citado na obra.)

 

“Histórias são difíceis de deslembrar.”
( Manuel Casqueiro)

 

Leia ao final o conto “Kandengues”, da obra.

 

Nada mais contemporâneo que a vida, formação e obra do autor da narrativa que temos aqui. Os Kandengues da Cochinchina, de Manuel Casqueiro, Literatura Africana Infantojuvenil, publicado no Brasil pela Armazém de Cultura. Além da narrativa, a obra nos fala do mapa mundi, da Cochinchina; traz ilustrações da Cultura e História Africana; cita Literatura Uruguaia, Italiana, poesia de caboverdiana, nasceu em Bisau e veio à luz no Estado do Ceará, em terras brasileiras. Os kandengues, descobrimos ser o termo que nomeia meninos e meninas, em um glossário de termos africanos ao final da obra. E que surgem dos contos sobre crianças africanas que viveram sua infância em tempos de guerra.


A publicação brasileira traz à cena o interesse em ouvir contar histórias em Português ao modo dos outros continentes, com palavras da mesma Língua utlizadas de outra forma, inusitadas aos ouvidos dos jovens brasileiros.


Encontramos tanto termos novos, quanto que caíram em desuso, seja em uma região ou em todo o Brasil e que nos aguardavam consulta em estado de acepção no dicionário. Talvez nunca ouvidos nessa geração que tem sua linguagem e terminologia influenciada pelas mídias que massificam ainda mais e limitam o número de palavras do vocabulário de Língua Portuguesa, no caso, usado pela população brasileira. Nivelam por baixo, e por redutoras, acabam por colocar toda e qualquer Cultura num “balaio” só. 


Prefixos e sufixos inusitados para o uso na formação de uma palavra corriqueira e que trazem ao leitor/ouvinte uma surpresa que nem é tanta assim, mas que renova a ligação com a Língua que nos traduz e nos remete ao poder da Lusofonia. Chega ao leitor numa demanda interessante, quando não queremos a tradução aos ouvidos do país, mas, sim, ampliar a escuta, conhecer a fala daquele que se expressa na mesma Língua, só que de forma, cadência e sonoridade diferentes da nossa.


Há termos africanos que não são novidade aos ouvidos brasileiros, alguns corriqueiros em determinadas regiões, outros derivam de palavras que usamos. Muitos termos e usos incorporados ao vocabulário, nem percebemos.


Imagino a obra lida por jovens lusófonos em seus vários continentes, sendo levada pelas InComunidades. Livros viajando pelos continentes nas mãos de leitores viajantes _ que somos.
Há uma história africana que conclui, o melhor contador de histórias é aquele que nos conhece. Aqui temos o mesmo contador de histórias em sua versão mais comporânea. Leia/escute as histórias.

 

Textos de lançamento

 

Mais do que contos sobre crianças africanas da aldeia, os Kandengues da Cochichina são crianças que foram testemunhas da guerra colonial, sobreviventes de regimes opressores, ditatoriais de uma história que previsava e deveria ser contada.

 

"A nós leitores, cabe-nos escutar como escutam as crianças, com curiosidade e encatamento", finaliza Rosa Morena.

 

Casqueiro, segundo a pedagoga e escritora Rosa Morena, "toma para si a tarefa de contador de histórias, tal qual acontecia com os tradicionais contadores comprometidos em passar adiante a tradição de seu povo."

 

Diz ele, “Quando garoto, minha saudosa mãe levada ao ponto de não mais aguentar minhas traquinadas mandava-me "ir brincar na Cochinchina" ou dizia que eu e meus amigos éramos "parecidos aos meninos da Cochinchina"... Estes textos principiaram a ser tracejados após a Independência de Angola. Naquele período havia a probabilidade que o tempo, sempre andando na dianteira, passasse a sobrar-me. Vã esperança a minha, pois outra conflagração a seguir adveio vaticinando mais um ruinoso conjunto de descertezas.”

 

“ Parangolé afrodescendente.Vestimenta que narra a história do Quilombo de Caucaia através das pinturas de cada um de seus habitantes. Chamam-no de "capulana". ( M.Casqueiro)

 

 

Editora: Armazém da Cultura
ISBN-10: 858492065X
ISBN-13: 978-8584920655
1ª Edição
136 páginas

 

 

 

 

 

 

Kandengues

 

Esvaecia o sol.


Perpassava detrás dos baobá das largas palmas dos dendezeiros e das árvores frutíferas, em atenuada resplandecência vermelho-alaranjada que escorria sobre a terra.


Diante de cada palhoça repitam e soltam faúlhas, fogueiras de distintos tamanhos, nutridas pela madeira à qual donas acresceram folhas dessecadas de cuja fumaça os mosquitos se esquivam.
Sem a luz natural, a aldeia aclara-se para afrontar o negrume. Nele, conforme entendidos em notívagas assombraçôes, fluem kinzáris em meio à ramagem esconsa da selva.


Vô Numa saiu da cubata, diferente das outras, pois afora o clássico telheiro na frente, incluía um segundo, à esquerda, por onde também se entrava. Os beirais do acesso adicional eram acanhados, mas, dali, num tempo remoto, ele colhera pingentes de prenúncios pespegados no céu anoitado.


Transluzentes, os olhos do idoso averiguaram as imediações só impetrando mirar distorcidas figuras. De perto, discerne com razoável nitidez vultos e objetos.


Avizinhavam-se os folguedos dos kandengues.Pegando a dicanza. Vô Numa move a vara pelos lanhos, quatro vezes, reco-reco-reco-reco: outra vez, reco-reco-reco-reco. Anunciado, escora o instrumento musical na parede de barro gris.


Dando continuidade ao rito das noites, puxa do bolso da calça zurzida o cachimbo e a bolsinha com o tabaco. Recheia o fornilho de barro, acende-o com pequena haste pinçada dentre a lenha do fogo. Mas, antes de fumar, alongou a alva cabeça para que os ouvidos, ainda hábeis, anotassem os sons esperados. Ao distingui-los, em toada a avolumar-se, Vô Numa dá risadinha de exultação.


A moçada abeirava-se para cingir o crepúsculo!


Não delongou, o ambiente é preenchido por alacridade inigualável. Hora dos kandengues brincarem após afanoso dia auxiliando familiares nas tongas e nos apriscos.


Crianças passam correndo. Um cão açodava-os, divertido; ao retrocederem, era o animal, a saltitar, que debandava, latindo.


Acham-se amigos, cada ligado à brincadeira favorita. Há quem prefira ir até Vô Numa para divertir-se com as enfeitadas parábolas acerca de seres etéreos.


Os mais abrandados optam coar o tempo frente à residência do Muata, área da resenha dos adultos. Ainda há os que, ingressados na adolescência, aprendem com os kotas a arte de jogar Kiela.


A maioria gosta de pular corda, troçar de estigar, de pega-pega, cafucambolar na areia e jogar bola. Às vezes, num espaço sem limites, ocorre de alguém entrar na brincadeira alheia. O inopinado suscita rusga breve logo seguindo a recreação.


Evaporam-se horas em enrodilho de risos, assobios e alvoroços; crianças cobertas de poeira, cabeças empoadas, crespas de tufos de cabelo como linhas de um casulo de seda. Rostos acendidos, enodados com riscos de barro.


Vô Numa apruma-se em sua idade e sabedoria. Baliza a noite crescida, escorregadiça e límpida. Não acata apelo para outra história de aparição:


         _ Kandengues, amanhã tem mais! Boa-noite e cuidado com os sonhos!


         Arrecada ao bolso da calça o que dela retirou, apanha a dicanza mais o tamborete, despede-se dando peculiar risota.


         Os garotos partem em algazarra. De roldão, rebocam os que ainda brincam, para se diluírem em meio aos claros e escuros dos iluminamentos imprecisos dos fogos.


         O vivaz coração da aldeia apazigua.


         Já a selva vigia presumíveis inimigos, a fim de que os kandengues durmam imperturbados, sob a prateada cobertura celestial.

 

(Pág. 28-30.)

 

 

 

Manuel Casqueiro, escritor africano nascido no bairro “Chão de Papel”, em Bissau, capital da ex-colônia portuguesa da Guiné, agora República da Guiné-Bissau.  Cursou o Ensino Fundamental e Médio no Liceu Honório Barreto, hoje Liceu Kwame N´Krumah. Fez parte do Movimento Estudantil do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). É formado em Ciências Políticas e Administrativas pela Universidade de Luanda. Foi Instrutor militar e combatente das Forças Populares Revolucionárias de Angola até dois anos após a Independência. É membro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Trabalhou como Conselheiro Técnico no Ministério da Planificação e Coordenação Econômica da República Popular de Angola (A partir de 1991, República de Angola).  Por questões político-ideológicas exilou-se no Brasil, no estado do Ceará, onde se radicou e iniciou a publicar sua literatura e a desenvolver seu trabalho sóciocultural. Publicou “Muzungu Pululu – Homem Branco Transparente”, “A Lança de Nzambi” e “Os Kandengues da Cochinchina. Tem participações em revistas eletrônicas e em coletâneas de contos.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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