ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Reynaldo Barreto de Moraes e Castro


“Nas asas quânticas da borboleta amarela”: intersecções possíveis na busca de sentido, entre as obras de Kierkegaard e Beatriz Helena Ramos Amaral    

Quando mergulho em Kierkegaard tendo os olhos voltados para a tessitura multifacética  de Beatriz Helena Ramos Amaral, vejo algo especialmente comum entre ambos: a experiência radical da subjetividade, de onde parte o existencialismo do dinamarquês. Mas a intuição que nos permite desvelar intersecções possíveis de "saltos", entre a filosofia do livre pensador e a poesia da tecelã com fios de ouro e teares metalinguísticos, assume diferentes aspectos e projeções. 

 

     Kierkegaard conheceu as fronteiras entre o ser e a negação do ser; entre o racional e o irracional, o cume e o abismo, e no vislumbre da estrela-guia além tempo, deu um “salto de fé” para sua luz irradiante sobre a escuridão absoluta dos silêncios e não-respostas de Deus. Um salto para a luz desconhecida do Deus de Abraão que, segundo Kant, poderia mesmo ter parecido antiético ao pedir-lhe o sacrifício de Isaac. 

 

     Beatriz H. R. Amaral, com sua obra em Poesia e Prosa de caráter assistemático e numa vivência não menos radical da subjetividade que o filósofo de "O Desespero Humano", no fluxo de luz do desespero rítmico-fônico e num incessante devir catártico, cria um salto interseccional com o seu existencialismo. É assim que, em “Luas de Júpiter”, somos levados à beira do não ser em "Ricercari":

 

. . . “o choque das palavras explodindo
no ambíguo precipício sem resposta.”

 

     Kierkegaard, que citou Shakespeare como o arquétipo do dramaturgo perfeito que se desesperava com seus imortais personagens, diria, talvez, que a poesia de Beatriz H. R. Amaral nos impulsiona a dar um salto sobre “a escuridão do abismo de nosso próprio não ser”, nosso próprio nada, na consciência das asas que pousam sobre o fluxo do devir: o salto da Eu Consciência do espírito para a captação do Sentido da mutação incessante de todas as coisas, do rio no qual, sob qualquer hipótese, não nos banhamos jamais duas vezes (Heráclito). É na dinâmica criadora do inédito, comum entre o dinamarquês e a paulistana, que percebemos a intersecção de desesperos positivos Em Busca De Sentido na filosofia e na literatura. Rios que desembocam suas águas num mesmo Oceano sem perderem a consciência da fonte, do Eixo sustentador e estático (Parmenides), do Centro, da totalidade da psique, do "Self", em Carl Jung, e à Luz do Suprassentido, emViktor Frankl.

 

     Na roda-viva da própria realidade, a linguagem e a metalinguagem de Kierkegaard e de Beatriz Helena Ramos Amaral confluem diretamente ao nosso "Self": enquanto o dinamarquês afirma que "a existência zomba daquele que está querendo ser puramente objetivo", e amarra com uma crítica mordaz toda a conjuntura ideológico-filosófica predominante de sua época, defendendo a alquimia da interioridade de um pensamento assistemático e absolutamente despreocupado em cativar pelos conformes da razão clássica e de sua impecável lógica -  como nos insignes gigantes Espinoza, Descartes, Leibniz, Kant e Hegel - a Poeta, Ensaísta, e Mestre em Literatura reforça a subjetividade metalinguística com sua voz que "desponta no meio do texto para contestar o conhecimento do esboço, do relevo e do contexto" subvertendo o caráter digitalizado da virtualidade moderna com o seu "círculo ambiguo no diâmetro dos olhos" – Os Fios do Anagrama -  mas cuja rotatividade no fluxo do devir, não perde o seu Centro, e como Kierkegaard, zomba dos que permanecem na superfície lógica das coisas. 

 

     É no jorro do gêiser formado pelo “Self Criador” de  ambos, que intuímos uma "intersecção solar", síntese de finito e infinito, de temporal e eterno, e de Desespero Humano e Peixe Papiro. É nesse espírito que também nos deparamos com os conceitos de Vontade Total em Schopenhauer, e de Substância Única em Espinoza, e com o Yoga Integral de Sri Aurobindo, entre "os mandalas propícios, férteis, densos, nos quais se navega ao não pensar" - "Círculos" -, na resplandecência dos olhos que “são pássaros que revestem esquecidas asas", e com "nenhum teor de medo para o salto” - "Valladolid" - Os Fios do Anagrama.

 

     "Medo"! Palavra – obstáculo inexistente no Gêiser explodindo de dentro e entre ambos, criando em seu jorro o desvelamento da Coragem de Ser no fluxo do próprio desespero positivo entre o ser e o não ser cintilantes.

 

     Aqui, somente a intuição nos levará a perceber porque o vôo de uma simples borboleta amarela, na “Liturgia das Asas” de Beatriz Helena Ramos Amaral, pode trazer repercussões infinitesimais capazes de influenciar o mundo inteiro. Afinal, nas palavras da Poeta e Mestre em Literatura, tudo em sua Prosa e Verso – como em certos aspectos do pensamento de Kierkegaard são “Tonalidades díspares. Enredos e estados. Estados de ser e estar no mundo” . . . diante de seus desafios e mistérios.  

   

Reynaldo Barreto de Moraes e Castro
Professor de Filosofia com estudos em
Psicologia Analítica (Jung) e Análise
Existencial ou Logoterapia
(Viktor Frankl

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


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