ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Cinthia Kriemler


Tudo que morde pede socorro    

Lançamento do romance “Tudo que morde pede socorro” (Editora Patuá), da escritora Cinthia Kriemler.

                                          

 

Lançamento do romance “Tudo que morde pede socorro”, (Editora Patuá), da escritora Cinthia Kriemler.
LANÇAMENTO INICIAL: 10 de junho
Local: Carpe Diem Restaurante, Brasília-DF. BR

 

Sinopse

 

Leonora é uma mulher que vive com seus demônios. Para se ver livre de uma história de violência que culminou num acidente de carro que deixou sequelas, e que causou a perda do seu emprego como professora, ela decide ir morar na terra em que sua mãe nasceu. Em Baependi, uma pequena cidade no sul de Minas Gerais, passa a viver das traduções que faz para a empresa de um amigo. A jornada é de sobrevivência e de busca por um isolamento desejado, que lhe permita viver em paz. No entanto, o que a espera não tem nada a ver com paz. Aos poucos, enquanto traduz o livro de uma feminista francesa, vai sendo envolvida por vidas nada pacatas. Paula Regina, uma adolescente que passa por graves problemas. Fazal, um rapaz afegão que tem um passado de sofrimento marcante. Anna Bonifácio, uma escravizada do Séc. XIX cuja história lhe chega por meio de documentos antigos. E Nhá Chica, a filha analfabeta de uma escravizada, que foi beatificada pela Igreja Católica em 2013 e por quem Leonora sente fascínio desde pequena, por influência de sua mãe.

 

Essa trama de desacertos, sofrimentos e narrativas intensas fala da dominação e da escravização do humano em diversos níveis. A escravização física. A escravização religiosa. A escravização sexual. E sobre os caminhos que cada um deles escolhe trilhar em direção à liberdade.

 

Trechos de “Tudo que morde pede socorro”:

 

“Por quanto tempo se arrasta uma agonia? O corpo a corpo estúpido com a morte? Tânato resfolegando em espera. Dor e espera. Sofrimento e espera. Sangue. A pata quebrada dizendo da inutilidade da fuga. Para onde ir um bicho mutilado? Por onde rastejar uma fera amputada da pata, impedida da destreza da caça? O dia amanhecendo, as forças pedindo um pouco mais de tempo, os fragmentos de ossos fincando dentro da pata, sinalizando a aflição de um fim que a besta desconhece. Apenas intui.

 

Mas ela é valentia. Ainda. Rosna para o vento, ameaçando e expurgando a impotência invisível. E luta. E luta. E luta. Medo. Instinto. Inconformação. Até que o espanto. A armadilha velha se abre, cumprindo exceção na escala das probabilidades.”

 

(páginas 15 e 16)

 

 

Gosto da mística. Do que não gosto é da obrigação dos templos. Desses lugares em que homens investidos de títulos se afirmam porta-vozes de uma verdade única. Não gosto de pastores, de padres, de gurus que fazem a lambança do sexo criminoso com meninos e meninas. E que saem dos quartos escuros onde praticam as violações da carne diretamente para os púlpitos onde pregam sobre o pecado aos ouvidos ingênuos do rebanho. Não gosto desses autoproclamados enviados de Deus que perseguem homossexuais, que consideram as mulheres burras e inferiores, que passam a mão na cabeça dos homens que trepam, mas chamam de prostitutas as mulheres que fazem o mesmo. Não gosto desses hipócritas que só abençoam a vida dos que pagam o dízimo. E que confortam apenas os obedientes. Dos que abominam os pecados dos outros sem antes domar as próprias feras que os estraçalham por dentro. Dos que gritam inferno e danação quando deveriam sussurrar amor e compaixão. Não gosto. Eles, sim, abominação.

 

(Trecho da página 28.)

 

 

No dia em que Mateus me deu o primeiro tapa, eu já sabia o que era ser uma mulher. Mas ainda não sabia ser uma. De uma certa maneira, houve um despertar. Inquietação. Revolta. Raiva. Mágoa. Nada disso foi tão forte quanto o pensamento de que a desigualdade se dá onde falta o Basta!  E era eu que tinha de dizer esse basta. Fosse questão de abuso ou de descontrole, Mateus não ia parar. Porque parar cabia a mim. Abrir a porta cabia a mim. Mandá-lo embora, sofrer quaisquer consequências – até mesmo a morte —, cortar os laços, me rever, cuidar das minhas feridas, me reinventar, subir à superfície e puxar com força o ar que me faltava. Tudo isso cabia a mim. Eu era a dona de todos os bastas.

 

(página 91)

 

 

(“Tudo que morde pede socorro”. Romance. Editora Patuá, 2019.)

 

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Na orelha do livro, o poeta Alberto Bresciani diz:

 

“Cinthia Kriemler tem pleno domínio de sua arte. Seus períodos breves e contundentes reafirmam uma tendência contemporânea, sendo que, em certos momentos, sem comprometimento da energia do texto, poderíamos separá-los em versos e, dali, viriam belos poemas.

 

Com incursões nos contos e na poesia e depois de “Todos os abismos convidam para um mergulho”, (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2018), editado pela ótima Patuá, seu primeiro romance, Cinthia retorna com este singular “Tudo que morde pede socorro”, texto que arrebata, aturde e aprisiona o leitor da primeira à última palavra.”

 

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No prefácio da obra, os questionamentos de Camilla Dias:

 

“As mulheres deste livro sofrem suas dores mediante um turbilhão de sentimentos e emoções. São forçadas a lidar com seus traumas e anseios, numa luta incessante consigo mesmas para continuar sonhando seus sonhos.

 

Como sair das amarras de um relacionamento abusivo?

 

A vida de uma mulher pode ser colocada em risco quando decide interromper uma gravidez?

 

A religião é um termômetro para suas decisões?

 

A prostituição pode ser benéfica para aquela mulher que a pratica?

 

O quanto a cultura de um país influencia na sexualidade de alguém?

 

Qual o legado da escravidão dos povos africanos? O que sobrou para a diáspora negra?

 

Estas e outras questões reverberam e estão presentes nas pouco mais de 200 páginas escritas por Kriemler, numa leitura que irá te prender do início ao fim, trazendo uma experiência que fará o leitor ter vontade de alterar os valores dominantes estabelecidos pela sociedade machista, racista e capitalista que cria seus próprios algozes.”

 

Trecho de “Tudo que morde pede socorro”:

 

“Por quanto tempo se arrasta uma agonia? O corpo a corpo estúpido com a morte? Tânato resfolegando em espera. Dor e espera. Sofrimento e espera. Sangue. A pata quebrada dizendo da inutilidade da fuga. Para onde ir um bicho mutilado? Por onde rastejar uma fera amputada da pata, impedida da destreza da caça? O dia amanhecendo, as forças pedindo um pouco mais de tempo, os fragmentos de ossos fincando dentro da pata, sinalizando a aflição de um fim que a besta desconhece. Apenas intui.

 

Mas ela é valentia. Ainda. Rosna para o vento, ameaçando e expurgando a impotência invisível. E luta. E luta. E luta. Medo. Instinto. Inconformação. Até que o espanto. A armadilha velha se abre, cumprindo exceção na escala das probabilidades.”

 

* O livro será lançado, também, em São Paulo, em data ainda a ser marcada.

 

Mais informações sobre o livro:

 

Sobre a capa de TUDO QUE MORDE PEDE SOCORRO

 

 

(Editora Patuá, 2019)

 

A Mordaça de Branks  foi criada na Europa, no Séc. XVI, para ser usada em bruxas. No Séc. XIX, passou a ser colocada em mulheres europeias como um instrumento de humilhação pública para aquelas que ousavam exprimir as suas opiniões e tinham a língua afiada.

 

Era usada,  também, nos escravizados das colônias.

 

No Brasil, uma adaptação que recebeu o nome de Máscara de Flandres foi usada nos escravizados. No início, dava-se a desculpa de que era para que “não comessem cana-de-açúcar”. Mas, na verdade, era uma forma de punição e tortura.

 

Algumas dessas máscaras cobriam somente a boca do escravizado. Outras, no entanto, como essa da foto, permitiam apenas, e precariamente, ver e respirar. A maioria dos escravizados que as usavam morria de tétano.

 

SERVIÇO:
LANÇAMENTO BRASILEIRO
Romance “Tudo que morde pede socorro”, Cinthia Kriemler.
Editora Patuá

 

 

Cinthia Kriemler, escritora brasileira, é carioca e mora em Brasília. É contista, romancista e poeta. Autora de “Todos os abismos convidam para um mergulho” (Romance. Editora Patuá, 2017), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018. Publicou também pela Editora Patuá: “Na escuridão não existe cor-de-rosa” (Contos. 2015 – semifinalista do Prêmio Oceanos 2016); “Sob os escombros” (Contos. 2014); “Do todo que me cerca” (Crônicas, 2012). Organizou a antologia de contos “Novena para pecar em paz” (Editora Penalux, 2017) e participa de diversas antologias de contos e de poesia. Tem textos e poemas publicados em: Revista Gueto, Revista InComunidade, Revista SAMIZDAT, Jornal ORelevo, Mallarmargens, Germina, Escritoras suicidas, Diversos afins, Revista Philos.

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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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