ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Frederico Klumb


Poemas II    

mais quente mais frio vão sempre para frente nunca permanecem

 

(para italo diblasi)

 

como perder um rosto antes de perder um nome
a pedra que se torna outra quando chove
a noite parindo uma cobra infinita no canto da cama
a lua latindo nos olhos de um menino
a piada sem sentido pela minha boca tudo rescende a ontem
todos se entendem o rádio qualquer coisa uma cigarra
o movimento em falso a falta de café roupas sacos plásticos
tudo na garganta nasce o dia, como os que passaram,
espero a próxima hora, uma carta.

 

 

 

 

 

 

manhã/tarde/noite     

 

(para Zacca)

 

6:00 da manhã, algum automóvel varre, aos poucos, o sol na estrada.
os cigarros deslizam sobre a mesa, me dizem: você também envelhece,
pode cair um dia e não se dar conta. na janela que divido com um desconhecido
duas árvores projetam-se para os lados e parecem abraçadas
como estátuas perdidas, personagens a quem me escapam os nomes.
penso na distância entre os vivos e num desenho que ganhei há dois dias,
um enorme círculo amarelo bem no meio da folha.
amanhã seu menino imóvel na seção de doces do mercado
a infância é uma gangorra nos olhos quando pulam de prateleira em prateleira?
ou as crianças são mais como folhas, um dia claro e algum vento,
quando brincam fora das casas nos fins de semana?
a enfermeira acaba de me chamar, estou longe assistindo ao cinema
na vidraça do posto médico. talvez esteja um pouco aí.

 

 

 

 

 

 

Se me barbeio o rosto fica cinza

 

1.

 

dentro de mim uma multidão de crianças luta para que o dia nasça
outra vez invadindo o quarto, entre as cinzas de um museu na janela
(ele agora parece o meu país)
e o ranço líquido, que acumula-se lentamente nos lençóis,
o suor e as gotas de chá em copos plásticos, falsas sobras, Accattone perdido
esnobe em sua gargalhada de doente, rindo por nada como se tivesse tudo.

 

2.

 

todos os dias agora tenho observado um pequeno incêndio,
além dos dois que mostram o passado atrás das persianas.
as pobres crianças, natimortas, lançadas à guerra do corpo em febre que teima.
teimar é a própria febre.

 

3.

 

quarto branco de hospital, como qualquer quarto decente.
a vida mostra um pouco mais seu apreço por horários.

 

4.

 

uns poucos vem visitar e o corpo cinza reage
feliz como pode: do tamanho que pode ter o dia.

 

5.

 

nada a dizer depois das 23.
é estranho que os olhos consigam jogar fora as imagens.
nem tudo cabe na vida.

 

estar quente como os derrapes
ser os pneus dos carros, o astro lúcido, a mão que ordena o não a si mesmo.

 

 

 

 

 

 

Safo aniversaria seus 15 anos

 

1


apenas uma silene
calada por perder a cor
resta agora a Safo.

 

no deserto somente os astros oferecem o escape à loucura
são democráticos, não pensam em nada, apenas luzem
oferecem mapas aos desgraçados aos caídos em degredo.

 

aos ascetas também os oferecem, mas eles os rejeitam,
já carregam caça-níqueis de cartografias próprias nas solas dos pés.

 

2


onde a sobra é regra nada muda.
é essa outra forma de dizer da cor da areia despida das variações da vida.
mesmo os desertos guardam escorpiões
ou são meras miragens.

 

se dirão capazes de abrigar flores com a inexistência das dúvidas,
mas à silene destinarão a mudez, um espelho, o silêncio e nenhuma filha.

 

3


longe dali a mesma cor terão também as colinas e planícies 
a mesma cor as batatas natimortas
e tudo que apodrece nas cidades, prenhes de contratos, 
parindo seus bebês de concreto impossível.

 

4


agora,
já longe dos telhados, a areia canta seu vento convencido 
e enquanto nada nunca muda a silene observa seu reino de areia e promessa
seu deserto: único boxeador invicto das bombas.

 

a areia a terra

 

e a lua, mesmo ela não desperdiça ali o luzir que guia os peregrinos
enquanto o sol manda no mundo.

 

como pode ser tão doce a lua, sendo a mais triste das viúvas do deserto?
como? se todas as noites sabendo: sou a única lúcida no hospício de Deus.

 

5


em nosso tempo são tristes os astros
a cada dia perdem um pouco mais de sua serventia
alguns, então, sentem-se obrigados a mudar suas vocações
exibir-se aos pintores como modelos vivos
a cada dia um é demitido
e talvez por isso eles têm pregado peças, rindo como um Lear
fazendo-se de loucos 
ainda que saibam que são reis.

 

6


volta então a nossa silene.
será ela um presente possível a Safo?
há algum tempo a tivemos rompendo o concreto
naquele momento gostaria de embrulhá-la, 
um pacote no meio do asfalto.
naquele momento sua beleza parecia aumentar
inexplicavelmente
mais visível e multicor que toda a pedra fria todas as tintas e todos os dias 
todos os raios filetes de luz que viajam e seguem e ainda viajam no espaço, 
percorrem e adivinham tudo o que existe.

 

mas agora
o que nos resta?
que presente será dado a Safo?

 

lacerar o relógio que marca a hora de agora
trocar datas atrasadas e marcar novos compromissos
derrubar os postes, de onde vem a luz que cega os homens
derreter o metal e dar sandálias a quem caminha
tornar outra vez a noite escura
tão escura que veremos vagalumes
rodopiando, pequenos cometas em todas as direções

olhar para o céu 
e ver ainda as estrelas,

um astro lúcido

 

 

 

 

 

 

hoje me vi imóvel, por três ou quatro minutos, olhando para os meus dedos.
as pontas dos meus dedos estão feias hoje, as unhas descascadas, irregulares,
começam a incomodar quando o tempo esfria.
fico pensando como seria uma pessoa que não tivesse unhas, nem uma sequer.
chego à conclusão de que não sei para que servem as unhas.
os mercados têm andado cheios. eu andei bastante pela cidade.
às vezes, quando estou caminhando,
me pergunto se as pessoas olham para as minhas unhas.
a caixa do supermercado olhou diretamente para as minhas unhas roídas,
ficou um longo tempo encarando as minhas unhas e eu não soube o que sentir.
eu estou sentado, agora, sobre um grande terraço. há muitos casais em volta,
espalhados em bancos baixos. olho para os dedos de alguns deles.
acariciam o rosto, os cabelos, as costas uns dos outros.
meus dedos cheiram a abóbora, agora, e não está tão frio quanto pensei que estaria.
respiro fundo. o vento está sendo bom com todos.

 

 

 

 

 

 

EXT. RUA ZONA SUL - FINAL DE TARDE

 

saída de coleginho cesar maia ovomaltino.
criançada corre. duas menininhas pequenas, gosto delas, estão quietas,
caminham com a mãe seguindo atrás.

 

na zona sul se toma muito açaí
mas camel on my mind

 

1leblon quase sem bom
e então tudo muda
e então 'tudo gira e tudo roda
façam suas apostas'

 

lá do meio do bolo de criançada
surge o menino circular.

 

o menino circular é um menino redondo
mas não é gordo.
redondos são seus movimentos

 

e ele vem, vem feliz sem medo,
vem arredondando a tarde,
exigindo o riso
exigindo que as pessoas movam os braços de forma circular
que corram com suas mochilas de rodinha
pouco importam os heróis
os desenhos nas mochilas
o país está cheio de heróis
ninguém quer mais heróis
nas fábricas e no açaí
as pessoas querem riso
besta riso humilde feliz
riso mal feito e a tranquilidade de poder rir
o menino circular
herói desse país
ele traz o riso
ele fabrica o riso
foi ele que inventou o riso
foi ele que inventou a tarde
o menino circular
com os movimentos de um bolinho de rolo animado
redondo e sempre
redondo e doce
redondo e riso
redondo e foda-se
redondo quando a terra é quadrada
me leve com você menininho
vamos virar a tarde em gelatina

 

(foto de Antonio Arraes)

Frederico Klumb  é um poeta, prosador, roteirista e artista visual brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, em 1990. Cursou Cinema na PUC-RJ e publicou poemas em revistas especializadas, nacionais e estrangeiras, a exemplo de Modo de Usar & Co, Escamandro, Garupa e a americana Dusie.

Integra a Oficina Experimental de Poesia. É também responsável pela curadoria da seção Drive in da revista Garupa.

Em 2016, publicou o volume Almanaque Rebolado (Azougue / Cozinha experimental / Edições Garupa), um guia artístico-pedagógico para a criação poética, escrito a vinte mãos e fruto de residência no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica (CMAHO).

Em 2017 publicou Arena (coleção megamini / 7letras) e seu curta-metragem Agharta foi exibido em diversos festivais nacionais e internacionais de cinema.

Participou de algumas antologias, a exemplo de Golpe: manifesto (Nosotros editorial) e Cadernos do CEP. Fez parte, também, da exposição Rejuvenesça – Poesia expandida hoje, no Centro Municipal de Artes Helio Oiticica.

Em 2018 publicou cinema circular (transferidaça) e mais um livro de poemas está confirmado: máquinas mancas da manhã (no prelo pela Edições Garupa).

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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