ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


Mocinha no balcão da bodega    

Encontrei antigo amigo, que conheci quando ele era apenas um menino tocador de feira. A sanfoninha e a voz bem entoada sempre atraíam muita gente e com isso ganhava uma moeda aqui e uma nota de pequeno valor acolá. Com o mirrado apurado, ajudava no sustento da família. O nome do pernambucano do agreste é Ludugero Teixeira, um artista que sobrevive nas beiradas do sucesso por não receber a devida atenção da mídia. A intimidade de tantos anos me autoriza a cortar seu nome pela metade. E perguntei:
 - O que me conta de novo, Ludu?

 

E ele narrou, com o encanto da fala sertaneja, o ocorrido em uma viagem:
 
 - Quem me conhece sabe que não sou de aborrecer ninguém, respeito todo mundo, não bulo com fêmeas de seu ninguém, elas que espicham os olhos pra minha banda. Não sou feio, mas aprumado no porte, na estampa e na vida. Portanto, nunca fui desmazelado, zanzando por aí todo mal-ajambrado ou mal-amanhado, sem traquejo nenhum. Quem disser o contrário é um invejoso, desses que vivem de olho esbugalhado para as bonanças dos outros.

 

Um dia, quando ia de Caruaru pra fazer um show em Belo Jardim, mergulhando ali no tórrido chão pernambucano, num é que o carro encrencou? Da tampa do capô vi saindo aquele vapor quente que nem os seiscentos diabos. O carburador, sem água, ferveu e eu fiquei besta que nem aruá novo. Danou-se tudo! Como vou sair dessa enrascada? Estava naquela aperreação quando apontou na estrada um caminhão resfolegando que nem um sujeito gordo subindo ladeira. Bati a mão e o chofer deu no freio:
 - O que foi, conterrâneo?

 

Expliquei o meu descuido e ele, mesmo disposto a ajudar, deu aquele risinho de deboche. Meu carro nem podia se mexer, pegamos umas cordas de caroá, amarramos tudo e lá fomos rebocando o automóvel constipado. A muzenga do caminhão, preguiçoso que nem dono de cartório, nem rodava, mais se arrastava pelo chão quente que nem a moléstia. Olhando à frente a gente só via o reflexo do sol cozinhando o asfalto.

 

E lá fomos nós rompendo trecho, o chofer esgravatava os dentes com uma filepa de pau e de vez em quando arrotava a paçoca de carne de bode comida com lascas de jerimum. Eu espremido no meio e à direita, todo refestelado, o calunga ria com bafo de cachaça das piores. Nem uma brisa passava pelas janelas pra diminuir o fogo daquela caldeira dos infernos e se surgia um sopro, só servia pra aumentar a temperatura do forno que se chamava boléia.

 

E foi no meio desse sofrer que o calunga cismou de falar da boa vida dos artistas. Disse ele que bastava puxar o fole da sanfona e entoar uma cantoria e pronto, o cabra estava feito, com os bolsos cheios de dinheiro. Foi o que expeliu asnaticamente e soltou uma gaitada que nem hiena comendo carniça. E quando eu ia respostar, um catabiu me jogou pra cima, quase caí no colo do excomungado e ele:
 - Vôte! Cai pra lá que num gosto de xibungo.

 

Xibungo eu? Nunca fui tão desfeiteado e só não dei uma pisa no desaforado porque não podia perder o bigu.

 

No trajeto o xelelento ainda se enxeriu pra chaleirar o chofer. Aquilo era um lambe-botas, mamulengo de feira, que só se mexe com as mãos dos outros. Quis saber se eu ia cantar no comício de um condenado, político que sempre viveu às custas dos esfomeados da seca. Quando neguei, ele se espritou, imaginando que eu fosse do outro lado, daqueles que não enganam o povo com fala macia e nem enchem os bolsos de dinheiro sujo. E eu só queria é que ele se lascasse! Vou lá cantar em comício de sanguessuga do povo? Aquilo é gente do cão!

 

Quando paramos numa bodega de estrada uma mocinha estava no balcão, onde as moscas usavam até peixeira pra decidir qual delas iria pousar nas cocadas e rapaduras. Nada comi por desfastio e apenas bebi um gole d’água naquelas canecas de lata, com as bordas recortadas pra ninguém encostar os beiços. O xexelento queria comer um quibe, mas quando espichou o braço pra pegar um a mosquitada voou e se descobriu que era uma coxinha. Mesmo assim ele mastigou tudo, com as sobras caindo pelos cantos da bocarra de quatro dentes. E enquanto mastigava não tirava os olhos de cima da mocinha que tentava ser simpática com o freguês, mas ele cismou de imaginar que ela estava era se abrindo pra ele. Limpou os beiços dos farelos e tentou pegar nas perinhas recém apontadas sob a blusa de pano ralo que a menina usava; mas me antecipei: dei-lhe uns tabefes, seguido de um bofetão nas ventas que o excomungado se esborrachou no chão. O chofer não queria indaca comigo e não se intrometeu; acabou de comer, pagou a conta, foi na traseira do caminhão e desamarrou as cordas.

 

 - Agora se vire sozinho.

 

E foi-se embora, me deixando naquele mormaço no meio da estrada. Ainda bem que a mocinha já me vestira com a armadura de um heróico cavaleiro medieval. E sorria agradecida.

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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