ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Joaquim Maria Botelho


Contos    

“Se eu fosse Deus, teria piedade do coração dos homens.”

MAURICE MAETERLINCK, na peça de teatro ” Pélléas and Mélisande; Alladine and Palomides”,
Ato quarto, cena II
Londres: Stone and Kimball, 1896

 

MISERERE


Cuspiu barro. Conhecia o gosto de terra, dos tempos das lombrigas, menino então, brincando no quintal em declive, no morro do Saboó. Mas não entendia o que havia acontecido. Estava dormindo. Chovia. Muito. De repente o estrondo, o escachoar de água descendo as encostas. O mundo literalmente balançou. Sentiu-se engolfado por uma onda gigante e girou, trombando com objetos grandes e pequenos. Perdeu a consciência. Mesmo agora, julgando haver recuperado o juízo, parecia estar dentro de um pesadelo, desmentido pela realidade molhada e pegajosa. Tudo escuro. Uma caverna, talvez uma grota. Não podia ser. Ouvia vozes ao longe, débeis, fracas, sufocadas. Cuspiu de novo. Tentou levar a mão à boca para ajudar a limpeza da cara. A mão direita obedeceu, com dificuldade, mas aí deu-se conta de que o braço esquerdo não respondia, enterrado. Tateou até onde pôde alcançar e foi sendo tomado pelo terror. Estava afundado até o peito na lama. O corpo inteiro imobilizado, soterrado no tremedal. Uma dor aguda na perna esquerda, provavelmente retorcida, em posição anti-anatômica. Um peso imenso lhe oprimia o tórax, as costas, o estômago. Sacudiu com força a mão direita, para expulsar suficientemente o barro e poder limpar a boca. Com os dedos, conseguiu tirar uns talos de grama, um pedrisco, voltou a cuspir. A boca amargava, a perna doía, o peso no peito, desfalecia...

 

Na confusão mental, buscou recompor os acontecimentos. A chuva começara às 14h30. Sabia disso porque chegou em casa um pouco depois e a mulher avisou...

 

Meu Deus! Zélia! Quedê ela?!

 

Desesperou-se. Mas não podia se mover. Inútil tentar. Tudo escuro. Não sabia sequer em que lugar estava, aonde a cascata de terra o teria levado. Varejou as redondezas com o braço direito, num ângulo restrito pela limitação do corpo sepultado. Não identificou coisa alguma para se agarrar. Zélia talvez tivesse conseguido fugir, se fosse para gosto de Deus. Ele viera de um turno de doze horas na portaria do prédio em Marapé. Tinha demorado porque o ônibus atrasara demais, arrastando-se pelas ruas inundadas. Depois, a subida até o pico do morro era dura. Dura, modo de dizer. Trilha barrenta, escorregadia, ensopada dos dilúvios dos últimos dias. Em casa, desde as três da tarde, tinha trocado a torneira do filtro de barro, repregou duas ripas do estrado da cama, vedou o vão sem vidro da janela do quarto e juntou o lixo para levar embora no dia seguinte. Enquanto isso a tempestade amainou. Jantaram às sete e meia, quase oito, e aí o sono bateu. Lembrou que voltara forte o aguaceiro, quando se deitou. Despertou uma vez, por volta das dez, com a chuva lambendo o barraco. Dormiu de novo.

 

A garoa ajudou a lavar o rosto, e experimentou breve sensação de conforto. Mas sentia muito frio. O calor de verão, que fazia empapar de suor a camisa, não resistia ao céu de chumbo dessas tempestades. Ao pensar na camisa, levou a mão ao bolso, do qual só podia alcançar a bainha. Conseguiu sentir a ponta da tampa da caneta. Abaixo da superfície de lama, no bolso apertado contra o peito, umas quantas notas de dinheiro, resto do salário para passar o mês. Quando sair daqui, vou comprar uma calça jeans pra Zélia. Onde estaria?...

 

Não podia chorar. O peito apertado mal permitia haustos curtos de respiração. Controlou a angústia, imaginando que Zélia podia ter descido, aproveitando do sono dele, para buscar algo na birosca lá de baixo. E escapou. Escapou, sim! Zélia é uma cabrita de rápida.

 

Não chovia mais. Percebeu ter desaparecido a dor da perna. Sua pouca leitura era suficiente para entender que não sentir dor, nessa situação, não era bênção, mas anúncio de notícias trevosas. Muito se falava do grande deslizamento de 1956, no Morro Santa Terezinha. Vinte e duas pessoas morreram, até o governador Jânio Quadros apareceu em Santos para conferir de perto o tamanho da tragédia. Ouviu muitas vezes relatos de gente ferida no desastre, cujas entrevistas eram repetidas nos jornais e na televisão a cada nova catástrofe. Estava até acostumado. De tempos em tempos, ruía um morro. Monte Serrat, Vila Progresso, Morro Jabaquara, Morro Itararé. Da memória, pinçou o depoimento de um sujeito, na tela da TV, relatando situação parecida com a sua. O homem resgatado falava de soquinho, engasgado de lágrimas e de susto, o corpo sujo semierguido da maca dos bombeiros. Depois vinha o engenheiro, explicando que o Morro do Saboó é um monte pelado, apenas com vegetação rasteira, pedra gigantesca de granito, por isso ali não cresciam árvores. Cresceram casebres. Barracos. O que mais medrava ali era gente pobre.

 

Estava preso havia horas. De quando em quando estalava uma luzinha incerta, mais abaixo. Não conseguia divisar o que era, sem poder mexer muito a cabeça. Estavam procurando sobreviventes, então havia esperança! Gritou. Não gritou. Soltou um ronco abafado, estrangulado. Desistiu. Não conseguia inflar o peito para ganhar fôlego. Era defeso esforçar-se. Precisava de forças para se manter consciente. Pensava assim porque mais de uma vez imaginara deixando-se dormir, entregando-se a uma sensação morna e mansa, que seduzia e inebriava. O jeito de despertar era botar a mão em cima de onde estava o bolso da camisa, seu tesouro prevalecido, seu possível recomeço.

 

Foi nessa posição que o encontraram, de madrugadinha, sob a claridade fosca de manhã mal começada.

 

Em pensamento e em esgares mudos, porque a voz não saía mesmo, pretendeu agradecer a ajuda. A mão forte que segurou a sua, porém, não vinha de um samaritano. Era de alguém que vigiava e conheceu a sua preocupação em inspecionar a intervalos o bolso da camisa. Mantendo-lhe a mão direita presa com o joelho, o recém-chegado escavou a terra apenas o suficiente para alcançar a altura do bolso e arrancou-lhe um pedaço da camisa para levar o conteúdo. Não teve pena, nem o encarou. Sacou o que veio buscar e só. Ia se levantar.

 

O estampido foi como um repeteco do trovão do deslizamento. Ficou ecoando. O líquido quente cobriu seu ombro e trouxe passageira consolação para o frio. Mas depressa entendeu que era sangue. O corpo, estatelado de comprido ao seu lado, era de um morto a bala. Ouviu um apito e uma voz cheia de ira:
- Saqueador filho da puta!

 

Em tom mais alto, o comando:
- Se encontrarem esses sanguessugas roubando os soterrados, em vez de ajudar, atirem! Atirem pra matar!

 

O dia clareava, descortinando o cenário do morro do Saboó. O homem, desmaiado, de medo, de dor, de susto, de cansaço, sequer viu o que aconteceu depois.

 

 

 

 

 

 

“É tudo tão simples.
Tudo o que é forte e decisivo
acontece como ter fome.”
Erich Maria Remarque

 

Mário (fragmento)

 

Era um mulatinho espigado, de inteligência viva, rápido nas respostas e de humor refinado. Fazia piadas até sem querer. Tinha sido o caçula. Órfão aos doze anos, ficou sob os cuidados da irmã mais velha, Ruth. Detestava a escola. Inventava as mentiras mais esfarrapadas para escapar das aulas. Num dia tinha dor de cabeça, no outro um amigo hospitalizado precisava de visita. Mães e irmãs mais velhas conhecem essas desculpas de cor. O fato é que a escola e Mário foram ficando tão distantes um do outro que não havia mais como Ruth ser enganada.

 

Mário estava com quinze anos. Saiu do salão com expressão de gaiato, a calça manchada pelo giz do bilhar, assobiando. Trazia um cigarro aceso na mão direita, para lhe dar, achava, um ar mais maduro. Parecia mais malandro perante os outros rapazes da turma da Vila la Femina, periferia leste de São Paulo. Virou a esquina da padaria na maior calma. Deu de cara com a Ruth, magrinha, apressadinha, vindo da USP. Costumava chegar sempre mais ou menos no mesmo horário. Ia para casa, tomava uma chuveirada rápida e voltava voando para a cidade, no Penha-Lapa lotado, dessa vez para o jornal Folha de S. Paulo, onde trabalharia até a primeira hora. Ruth não viu o cigarro, porque Mário mais que depressa enfiou a mão no bolso. Com o cigarro e tudo. Mas que maldita hora de encontrar a mana!

 

Ruth queria mesmo vê-lo. Precisava prometer-lhe umas pauladas nas costas caso ele não a ajudasse em casa e não passasse a estudante regular. Andava cansada, a pobre, mas muito cansada mesmo, com os dois empregos e mais a faculdade. Órfãos desde cedo, coubera a ela cuidar dos mais moços. Pois deu de cara com Mário e rezou a ladainha inteira. Precisava contar com ele, porque o Rubem estava no exército e o Paulo tentando se acertar no trabalho. Todos ganhavam pouco e colaborava como podia. Ele que fizesse a sua parte, na limpeza da casa e estudando, valendo o dinheiro investido na sua educação. Que se insistisse na vida barata que levava, ela seria obrigada a pedir ao juizado de menores pra dar um jeito nele. Mário ouvia, contrito. Ruth esperou respostas, desafios, malcriações. Até parou de falar, surpresa com a submissão do irmão. Franziu a testa, pensou um pouco. Depois deu mais uns conselhos, fez outras tantas ameaças e lá se foi para casa, porque o jornal não esperava e manter o emprego era garantia de futuro e sobrevivência, essa primeiro. Mário foi balbuciando promessas de se emendar, cabeça baixa, andando atrás dela, mas bem devagar. Dentro do bolso um calor dos infernos. Assim que ela virou a esquina, ele deu um pulo para dentro da padaria. Um cheiro de pano queimado e fumaça exalavam do bolso. A mão, suada. Na calça, uma rodela queimada do lado de dentro do bolso, e já começava a subir uma bolha na coxa. Estapeou bem a calça, para tirar o resto de fumaça, maldizendo a irmã, o cigarro, o bilhar, os santos todos. Espiou a rua, antes de sair, e foi ligeiro pra casa.

 

Ruth estava no banho. Mário correu para o quarto e tratou de trocar de calça. Quando Ruth saiu, depressinha, apressadinha, para o trabalho, Mário estava lavando a calça no tanque dos fundos. Que beleza, ela pensou. “Eu devia dar uma bronca dessas por semana. Parece que funciona...”.

 

 

Joaquim Maria Botelho é jornalista e escritor. Como profissional de imprensa foi repórter especial e chefe de reportagem da Revista Manchete, no Rio de Janeiro, chefe de redação da TV Globo/São José dos Campos (atual TV Vanguarda), diretor de Jornalismo da TV Bandeirantes/Taubaté e diretor de redação do jornal ValeParaibano/ São José dos Campos. Como executivo, foi assessor de comunicação do Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, assessor de imprensa nacional da Embraer e coordenador de imprensa da Secretaria de Estado da Educação. Autor de 12 livros, incluindo traduções para a Editora do Pensamento e Global Editora. É também mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Presidiu a UBE - União Brasileira de Escritores.

Seu site: www.joaquimmariabotelho.com.br

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Junho de 2019:

Henrique Dória, Conselho Editorial, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alberto Bresciani, Amanda Avils ; Nilo da Silva Lima, trad., Beatriz H Ramos Amaral, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Carlos Barbarito, Carlos Orfeu, Cecília Barreira, Cinthia Kriemler, Edson Cruz, Flávio Sant’Anna Xavier, Frederico Klumb, Graciela Perosio, Hermínio Prates, Joaquim Maria Botelho, Jorge Vicente, José Arrabal, Krishnamurti Goés dos Anjos, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Lino de Albergaria, Maria Estela Guedes, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Montserrat Villar González, Myrian Naves; Manuel Casqueiro, Ngonguita Diogo, Reynaldo Barreto de Moraes e Castro, Ricardo Ramos Filho, Silvana Menezes, Tiago D. Oliveira, Waldo Contreras López, Walter Cabral de Moura


Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR