ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Henrique Dória


Editorial 81: a Banca e o povo    

Os anos oitenta do século passado foram marcados em Portugal pelo caso extraordinário de uma mulher quase analfabeta ter conseguido enganar centenas de milhar de portugueses com o velho esquema da pirâmide de Ponzi: sucessivos depósitos em dinheiro pagavam juros elevados aos anteriores depositantes, até que um dia, com a diminuição do número de depositantes, todo o esquema se desmoronava como um castelo de cartas.

 

O esquema foi utilizado por reputados banqueiros, como Bernard Madoff nos EUA, que levou uma boa parte da banca americana à falência, arrastando com ela uma boa parte da banca mundial, particularmente da banca europeia exposta à banca americana.

 

E foi também utilizado em Portugal por Ricardo Salgado, principal administrador executivo do BES, conhecido então como O DONO DISTO TUDO, que construiu uma pirâmide de Ponzi para o seu império financeiro e não financeiro, não hesitando na prática da fraude e da corrupção.

 

O caso BES acabou com enorme prejuízo para milhares de portugueses e estrangeiros e para o Estado Português (isto é, para os contribuintes portugueses). Pouco antes de rebentar a fraude, Ricardo Salgado fora doutorado honoris por uma reputada Faculdade de Economia e Gestão ( o ISEG)  dirigida então por João Duque, um economista liberal em moda.
Entretanto, levantou-se em Portugal o gravíssimo caso das dívidas à banca, em particular à Caixa Geral de Depósitos, por parte de badalados empresários portugueses e até espanhóis, onde são manifestos o tráfico de influências e corrupção, entre outros crimes.

 

Para além da falta de caráter dessa gente, “empresários” e banqueiros, uma interrogação se impõe: como foi possível tudo isso debaixo do nariz do Banco de Portugal e dos seus mais altos responsáveis?

 

E ainda mais outra: como é possível que, impunemente, o Governador do Banco de Portugal continuar a esconder dos portugueses, que tiveram de pagar a fraude que ele não soube ou não quis impedir, a lista desses indivíduos que tanto lesaram o país, quando qualquer devedor ao fisco que tenha sofrido uma desgraça (por exemplo, perder investimentos feitos no BES ou no BPN) vê o seu nome numa lista pública, mesmo que a sua dívida seja  de poucas centenas de euros?

 

Como é possível os altos responsáveis do Banco de Portugal, de Vítor Constâncio a Carlos Costa, virem dizer que não se lembram ou nada podiam fazer nessas operações?

 

Essa gente recebe vencimentos e benesses elevadíssimos mas, no entanto, ninguém lhes pede contas ou, se pede, não as presta sob os mais variados pretextos, o primeiro dos quais é o prejuízo para o funcionamento do mercado bancário.

 

Não se importam de modo algum é com o prejuízo que tal causa ao povo português.

 

É tempo de gente com tanta responsabilidade e tão bem paga ( muito acima do Presidente da República) ser responsabilizada civil e/ou criminalmente pelos seus atos e omissões.

 

Se assim não for, o povo português continuará a desprezar a atividade política, traduzindo esse desprezo na abstenção crescente em atos eleitorais, e a considerar Portugal como um país não muito diferente de qualquer república das bananas.

 

 

Henrique Dória

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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Paginação:

Nuno Baptista


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