ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: O ciúme lançou sua flecha preta    

Nunca achei que ciúme fosse prova de amor. É uma das muitas mentiras que nos impingem, para adoçarmos a possessividade e aceitá-la como se fosse carinho. Para mim, ele é demonstração de insegurança pessoal e de desconfiança no outro. Nas acepções do Dicionário Aurélio, constam:  1. Sentimento doloroso que as exigências de um amor inquieto, o desejo de posse da pessoa amada, a suspeita ou a certeza de sua infidelidade, fazem nascer em alguém; 2. Emulação, competição, rivalidade. 3. Despeito invejoso; inveja. 4. Cuidado, zelos; receio de perder alguma coisa. Casa com minha opinião: é mais medo da perda do que carícia.

 

Na MPB (Música Popular Brasileira) tenho aliados fortes: por exemplo, o título desta crônica é o início de uma composição de Caetano (“Ciúme”) ; entre outros, há também "A Maçã", do Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta, o “Desculpe o Auê”, da Rita Lee, e até Chico Buarque, no romance “Leite Derramado”;  no entanto, são poucos os compositores que desromantizam os ciúmes. Na literatura até Shakespeare fez Otelo matar por amor (como se o amor pudesse ser atenuante para qualquer tipo de assassinato)... Por outro lado, dizer que o ciúme é a "pimenta" do amor é atestar que o amor vivido é por si só muito insosso. Como ingrediente, é ótimo para gerar conflitos, quer na trama das novelas e folhetins, quer fora deles. Sou mais La Rochefoucauld quando comenta: "nos ciúmes há mais amor-próprio do que amor verdadeiro". É o tipo de sensação que intranquiliza, ameaça, desrespeita revira bolsos, exige provas, turva os sentidos, reprime, oprime, invade, corrói, acredita que vê o que em geral  não existe (tortura masoquista), e muitas vezes, fantasia a realidade delirantemente. No entanto, o romantismo transformou-o em  “prova de amor” e se um dos parceiros não aceita as regras deste jogo perigosamente neurótico (dependendo do grau em que se expressa), provavelmente será taxado de fria(o) e indiferente.

 

Isto me lembra uma história que minha mãe contava da nossa família:  a bisavó dela tinha um marido que chegava sempre com  gravatas de seda em casa e se gabava dizendo:  "– Essa foi dada por fulana... Esta outra, por beltrana"... Por um curto tempo minha trisavó engoliu calada o que julgava ser humilhação (mulher no século 19 era assim, acreditem!); o marido, porém, continuava atiçando-lhe os ciúmes, para ver se ela reagia – afinal com tantas admiradoras na rua, não era possível que a esposa não notasse o quanto ela era especial por ter se casado com ele (talvez fosse isso, explicava minha mãe). Um dia, decidida a dar um flagrante e um basta naquela situação insustentável, porque “paciência tem limite” – como costumava dizer, resolveu segui-lo e, para sua surpresa, viu que ele comprava as gravatas que dizia terem sido dadas por outras mulheres. Quando percebeu o que ele esperava dela, resolveu "entrar na dança" (que naquela época devia talvez ser a polca...). Quando ele chegou à noite, não encontrou no armário as suas preciosas peças de vestuário e esbravejou: "– Onde estão minhas gravatas? O que você fez com elas?" E minha bisavó respondeu, em um vingativo tom (que treinou bastante para a ocasião): "Você não as viu? Pois você acabou de pisar em todas elas: na fulana, na beltrana, na sicrana..." Ela tinha pacientemente cortado a coleção inteira que estava no guarda-roupa até moê-las (à mão mesmo... não havia liquidificador naquela época), até que todas as gravatas tivessem virado pó (imaginem o trabalhão!) e espalhara esta “poeira de seda” em uma espécie de rastro, da sala de estar ao quarto do casal. Resultado: passou no teste.  A partir daí, seu casamento transcorreu sereno, um mar de rosas – sem espinhos –, passou a ser tratada com o maior carinho, sem o marido “ganhar” mais nenhuma gravata nova dada por outra mulher que não a sua...

 

 

Leila Míccolis, escritora de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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