ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: O Gordo e o Magro    

Quando eu era menino ainda fazia sucesso no cinema a dupla Laurel & Hardy, aqui na terrinha O Gordo e o Magro. Em Portugal o nome deles era mais divertido: Bucha e Estica. Os dois apareciam nas telonas e a gente já comia pipoca, na época vendida em modestos saquinhos de papel encontrados em carrinhos estacionados na porta das suntuosas casas de exibição de filmes. Nos divertíamos vendo aqueles trapalhões fazendo coisas muito engraçadas em branco e preto. Quando a sessão começava geralmente já havíamos acabado com os grãos de milho estourados quentinhos, branquinhos e fofos, com bastante manteiga e sal. Eu dividia um saco um pouco maior com o meu irmão. Embora tenham feito o último filme (“Utopia”) em 1951, os comediantes ainda alcançaram êxito depois e são vistos até hoje. Não é incomum encontrarmos algum trecho do impagável duo atuando.

 

Em casa, me achavam parecido com o Laurel, o ator inglês Stan Laurel. Magrinho, metido a engraçado, careteiro, eu acabava assumindo o papel dele em família e gostava dos elogios recebidos. Aos sessenta e cinco, muitos anos depois, a impressão trazida de minha infância é de ter sido um menino feliz. Não perdia a oportunidade de fazer gracejos. Gostava também de imitar o Ronald Golias, outro já falecido – será possível alguém não saber quem foi o Golias? Considerava-me bom imitador, ficava bem semelhante no papel:
- Eucrides, fala pra mãe...!

 

O tempo passou, cresci, encorpei, resolvi dar uma oportunidade ao Hardy, o ator americano Oliver Hardy. Bem mais gordo, muito comilão, não havia mais como ser comparado ao magricelo companheiro do Bucha. Não fiz tanto sucesso. Quando envelhecemos perdemos a graça. Se insistimos em fazer comédia nos tornamos ridículos. Casualmente coincidiu com um período sombrio, entristeci. Talvez por começar a perceber melhor as verdades, observar o mundo com olhos menos ingênuos, entender como injustos meus privilégios de rapazola protegido. Anos sessenta, ditadura, tinha se iniciado em mim a natural fase de rebeldia dos adolescentes, inconformismo a perdurar até hoje. Eu queria mais era beber, ouvir música, e ler. Boêmio e frequentador da noite, inaugurei estilo não muito condizente com um corpo bem cuidado, aparência sadia, preocupações para mim burguesas. Jantava, saia para os bares da vida, era quase certo sentir fome mais tarde e jantar novamente.

 

Assim, alguns anos depois necessitei, por motivos de saúde, emagrecer. Fiz regime, voltei a ser o Estica. E por não sermos inteligentes ao decidirmos perder peso, cortarmos quantidade e deixarmos de ingerir os alimentos mais gostosos abruptamente, acontece de vir quase em seguida uma ânsia de se comer tudo exposto sobre a mesa, descontamos rapidinho as vontades suspendidas. Ao não modificarmos hábitos alimentares, acabamos nos transformando em espécies de sanfonas, vivemos engordando para logo depois precisarmos jogar fora o volume adquirido.

 

Hoje, considero-me dois em um. Alterno períodos dedicados a favorecer minha autoestima, aparecendo mais elegante, com outros obesos, feliz em deliciar-me com doces, sorvetes, pães e massas. Talvez não possamos ter duas alegrias ao mesmo tempo. Mentira. Conheço alguns desgraçados magros, ávidos, verdadeiros cavalos frente a um prato cheio.

 

No meu armário conservo os manequins para todos os períodos. A experiência tornou-me esperto, resolvi entender o óbvio: roupas inúteis hoje certamente servirão amanhã.

 

Ao final perdi totalmente a graça. Ser eu mesmo basta para fazer sujeitos mais atentos sorrirem. Não tenho mais o engenho de fazer piadas. Quando rio, e às vezes até dou algumas gargalhadas, é fruto de humor alheio. E embora goste demais destes momentos mais descontraídos, eles são raros.

 

Junho/2019

 

 

Ricardo Ramos Filho, é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil.  Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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