ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Maria Estela Guedes


Ksar el Kebir    

Em Novembro passado estive em Marrocos, num congresso de mulheres escritoras. Passei diversas vezes por tabuletas, na estrada, a anunciarem Ksar el Kebir. Não pude ir lá, mas jurei ir, na melhor oportunidade. Não foi na melhor, foi agora, em Maio.

 

Acabo então de chegar de Marrocos, onde andei à procura de Dom Sebastião, na companhia de uma pintora interessada nos pigmentos azuis, Manuela Jardim. Existem ainda bastantes sinais da nossa presença no Norte de África, mas não em Alcácer Quibir. Todos aliás garantiram que nada havia para ver, português ou marroquino, em Ksar el Kebir.

 

Falso. Pode não haver sinais de Dom Sebastião na cidade, mas a estação de comboio merece ser conhecida, tal o contraste com a pobreza circundante: belo edifício por fora, desenhado a preto e branco, parece um salão de baile por dentro, com um lustre capaz de envergonhar Queluz…

 

Em Ksar el Kebir começamos a sentir-nos na África Negra. Não é só a questão de nos mercados de rua e na rua em geral se verem mais negros do que em Tânger, Tetuão ou Asilah/Arzila, é algo menos concreto, que vem do ar e se sente também na parte da América do Sul que devia ser África, se no curso da formação da Terra os dois continentes se não tivessem separado. Na Bolívia, a caminho das reduções jesuíticas, na Gran Chiquitanía, território dos índios Chiquitos, experimentei as mesmas sensações; porém, na Bolívia, por estranha coincidência, passamos por algo verdadeiramente comum a África, se bem que na área da civilização e não da natureza: as casas cobertas de colmo à beira da estrada, à sombra de frondosos mangueiros carregados desses frutos que na Guiné se dizem no masculino, à francesa, e eram petisco apenas para crianças e macacos: os mangos-da-terra.

 

Viajámos de comboio entre Arzila, Ksar el Kebir e Rabat, e a dado passo apercebi-me da imensa extensão de planície que atravessávamos. Nada de relevante na quadrícula do terreno cultivado com oliveiras, cereais, leguminosas, aqui e ali as figueiras, pinhais, extensas cercas erigidas com ciprestes, os raros rios a que chamam oueds, povoações pobres, de olhos postos no alto pelas palmeiras e pelo minarete da mesquita, muito frequentes as barragens de Opuntia ficus indica, os catos espinhosos que dão os figos-da-índia. Rebanhos de ovelhas serpenteiam nos montes, à frente de uma pastora; ninguém parece apascentar as vacas, nem os burros e cavalos, invariavelmente com albarda.

 

Perto de Sidi Kacem, embora longe do mar, uma outra quadrícula, que diria serem salinas. Nada mais, exceto o bafo do Sahara e a interminável travessia de uma terra menos plana que espalmada. De facto, apurei na Internet, alastra por seis mil quilómetros quadrados a planície do Al ou El Gharb: O Ocidente, significado da palavra em árabe. Onde foi morrer Dom Sebastião, em corpo, visto que em espírito permanece vivo? No equivalente verbal do nosso Algarve, e é caso para dizer, avaliando as dimensões da planície: tão grande campa rasa para tão pequenino corpo! E quem sabe se o corpo não terá sido enterrado num desses cemitérios modestos, à beira da estrada, para mais rápida chegada à Jerusalém Celeste?

 

Se em Ksar el Kebir não há grande lembrança de Dom Sebastião, nem da Batalha dos Três Reis, já em Arzila temos uma grande muralha, com portas e torreões de origem portuguesa. Circunda a cidade velha, como é próprio das muralhas, e a sua mais bela volta, parcialmente caiada de branco, delineia a zona de praia e portuária. Foi ali que Dom Sebastião desembarcou, à testa da nossa jovem e formosa cavalaria. A muralha rompe-se em várias portas que dão acesso à extraordinariamente colorida medina (em Julho alberga um forum internacional de arte de rua), de casas e janelas em inumeráveis tons de azul e verde, as cores da cidade. Encimando uma delas, a Bab Homar / Porta Homar, conserva-se, em mau estado, muito delido já, o escudo português. Valia a pena restaurá-lo, tanto mais que, na zona do porto, a muralha se encontra em reparações.

 

A nossa memória subsiste longe e enche-nos de encantamento, como se a maior profundidade do ser português enraizasse algures, em Goa ou em Minas Gerais, em cidades como Ouro Preto, que vive, como Coimbra, à sombra das repúblicas e estas da Universidade, ou em casas antigas de Diamantina e Tiradentes. Em Marrocos, comendo petinga e carapauzinhos fritos na rua, em humílimas casas de porta aberta na garagem, sentimo-nos em Lisboa, no mês dos santos populares. Visitar estes países é convocar memórias como a de Dom Sebastião, memórias que são saudades do futuro, como é próprio dos messianismos. Salvação é algo prometido para o Além, se sentimos saudades disso é porque antes do Além já lá estivemos e achámos que era bom. Chamava-se, o lugar passado, Paraíso na Terra. O que o Messias promete é esse mesmo Paraíso, mas no Céu.

 

Sim, espiritualidade, sim, mas em 2019, jamais em Maio! Quem o podia adivinhar? Maio é mês de Ramadan, tudo fechado, os muçulmanos só começam a trabalhar depois das 15h. O tempo devido a Sebastião foi gasto nas demandas de restaurantes abertos, e o melhor que por vezes encontrámos foram as sardinhas fritas na rua. Fresquíssimas, saborosas, vale a pena experimentar, fique porém o conselho: antes de irem veranear para um país islâmico, vejam bem se o passeio não coincide com o Ramadão.

 

 

 

 

 

 

 

Maria Estela Guedes

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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Nuno Baptista


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