ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Ngonguita Diogo


Sagrada família    

Os miúdos estavam sujos. esta afirmação é injusta, porque na verdade o que eles tinham sujos eram só os corpos, as suas almas eram mais impecáveis do que a fuba de bombo. Alguns traziam os pés descalços  e um futuro predestinado. O brilho espelho do meu carro serviu para que inspecionassem os seus  rostos com caretas engraçadas. Sorte a deles porque acabara de lavar o carro no rio Kipacassa a meia hora.

 

Alguns  riam-se mostrando as falhas na fronteira entre as gengivas e os dentes. Será sarro? Será o maltrato por uma alimentação imprópria? Usarão pasta dental? Duvido. As mãos pintadas de barro castanho claro, quase amarelo e carvão, seguravam as mangas colhidas em algum lugar, algumas estavam fixas nas bocas, o suco alaranjado escorria entre os dedos até ao cotovelo, mas nada era rejeitado, os petizes lambiam-se gulosos.

 

Alguns insectos disputavam o nectar zumbindo à volta das crianças que não se importavam. Os marimbondos eram audazes, roubavam o sumo e até o sangue nos braços dos petizes. Os miúdos defendiam-se  com gestos agressivos enxotando os vampiros. Esses bichos são muito ambiciosos, quem sofria duplamente eram os braços antes picados esmurrados dos miúdos.   

 

A disputa por um espaço para ver o rosto à volta do carro não me aborreceu. Era a vida que se apresentava inocente. No meio de tanta algazarra uma criança de tronco nu olhou-me com curiosidade. Fui hipnotizada pela profundidade e concentração daquela miúda. Tinha força nos olhos que contrastava com o seu corpo franzino, porém saudável. A miúda era feia. Exibia tranças velhas feitas num cabelo fraco e amarelado. Vestia uma saia castanha suja.

 

Ela parecia estar hipnotizada, porém me hipnotizava. Para baixar a tensão sorri. Ela  sorriu com toda a ternura de uma criança camabuim. Não era feia. Sorrir é a melhor maneira de ser bonita.

 

As crianças continuavam activas, por alguns instantes esqueceram-se do espelho no carro e correram curiosas para ver o que carregava um cupapata que estacionou na porta da soba. A curiosidade morreu quando descobriram que só carregava uns sacos vazios. De volta à viatura, descobriram uma nova utilidade de entretenimento, desenhavam na chaparia. E eu que pensava que o carro estava limpo!

 

Tinham o futuro predestinado.  Quando crescerem serão camponeses, carvoeiros, pescadores, talvez caçadores. Não serão astronautas, engenheiros de inteligência artificial, físicos nucleares, ou nefrólogos; Tinham o futuro predestinado, ou não. Esta foi a infância de Agostinho Neto e chegou a Presidente de Angola. Cada um escreve a sua história. Nada está predestinado. Alguns poderão ser astronautas, engenheiros de inteligência artificial, físicos nucleares, ou nefrólogos e o que elas quiserem.

 

Habituada à beleza das coisas, a figura patética que me olhava incomodou. O homenzinho que carregava uma corcunda pesada, tinha as pernas enfezadas mas viandam  sorridentes, insultando o circuito de meu olhar indigente.

 

Tentei buscar em mim algum resquício de simpatia, mas não consegui, o meu lado ruim ocupou todos os meus sentidos.

 

O homem prejudicado no osso esboçou um sorriso fitando-me atrevidamente, ao notar a minha insegurança gargalhou alto, percebi que o som  era belo,  alguma coisa de bom  tinha, pensei. Estudei-o com o olhar como ele o fazia ironicamente.  O confronto de olhares durou o tempo relâmpago até que outra mulher roubou-lhe a atenção.

 

Ela era estrondosamente bela. Uma figura desenhada na mais perfeição das artes, caminhava dengosa ao encontro de um jovem tão belo como ela.

 

O corcunda  atrevido lançou-lhe um olhar fulminante, a jovem nem percebeu. Continuei atenta aos movimentos do infeliz que caminhava taciturno ao encontro de uma outra mulher que passava, ao aproximar-se dela o seu semblante mudou, arreganhou os dentes num sorriso matreiro, mostrando-se interessado na jovem que  também o rejeitou.

 

Eu devia simplesmente ignorá-lo  e seguir o meu caminho, contudo a minha alma arredia insistia em acompanhar o prejudicado com o olhar, percebi que coçava o sexo e este apresentava-se robusto. Uma menina que aparentava sete anos de idade atirou-se aos seus braços, reconhecia, ela também usara as paredes do meu carro como espelho. Fiquei ainda mais atenta, intrigada escondi-me atrás de um arbusto e continuei a olhar.

 

O prejudicado ofereceu a criança um sambapito,  ela esboçou um sorriso de satisfação ao receber, ele coçou novamente as partes pudicas  e estas pareceram-me ter crescido  ainda mais, quando o prejudicado agarrou na mão da pequena. Aproximou-se uma mulher sorridente, ele também sorriu, a cumplicidade entre ambos era evidente, a criança estava feliz abraçada aos dois, ele era o homem mais feliz do universo, eu continuava escondida a apreciar o cenário até que a menina correu para esconder-se atrás do arbusto, numa brincadeira de esconde, esconde e   apercebeu-se da minha presença, saí do meu esconderijo envergonhada.

 

Um clarão cobriu o céu, a trovoada assustou-me. Liguei a ignição do carro para sair daquele lugar onde as gotas frias da chuva  já agrediam a chaparia da viatura. Olhei para trás e vi as crianças felizes tomando banho e cantarolando porque Deus lembrou-se de lavá-las, o homem prejudicado ralhava com elas dizendo que poderiam ficar doentes, Enquanto eu saboreava o aroma petricor.

 

Porque a chuva que limpa o corpo das crianças é a mesma que limpa a chaparia do meu carro.

 

Ngonguita Diogo é pseudónimo literário de Etelvina da Conceição Alfredo Diogo. Nasceu em 1963, em Cazengo, Província do Kwanza Norte/Angola. É formada em Administração de Empresas, poetisa e declamadora.

Tem as seguintes obras publicadas: “No Mbinda o Ouro é Sangue“, 2010 - Conto; “Weza a Princesa“, 2010 - Infanto-Juvenil; “Sinay“, 2011 - Romance; “A Minha Baratinha“ 2011 - Infantil; “Acudam Maria do Rangel“ 2013 - Romance;“Da Alma ao Corpo“ 2014 – Poesia “E Assim Virei Maria“ - CD de poemas. Tem poemas publicados no Suplemento “Vida e Cultura” do Jornal de Angola, no Semanário “O Independente” e na “Revista Omnira“ em Salvador da Baia. É Membro da Academia de Letras do Brasil e do“Movimento Lev arte Angola“.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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