ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Um mundo coberto de toscos    

A humanidade aos poucos vai se embrutecendo. É curioso notar como as pessoas vão perdendo sensibilidade, conhecimento, tornando-se cada vez mais toscas. Aqui do meu canto, escrevendo por necessidade, faz-se imperioso em mim registrar algumas irritações, não consigo evitar, produzo este texto certo de serem esquecidas as sentenças alinhavadas – ler é antigo e démodé. Observo também indícios claros: o ser humano tornou-se um bicho ensinado. Levanta, cumpre suas rotinas matinais mecanicamente, observa a tela do celular algumas vezes antes de sair, passará o restante do tempo atento à telinha do aparelho até voltar novamente para casa. Repetirá fragmentos de uma rotina incorporada ao seu existir feito autômato, viverá alheio ao mundo, evitará pensamentos e diálogos. Transformado em cachorrinho de estimação fará xixi na hora certa, correrá alegre atrás da bolinha arremessada, latirá efusivo e abanando o rabo para o seu dono. Os indivíduos pararam de pensar, elaborar raciocínios mais consistentes, deixaram-se levar para um não lugar onde podem ficar inertes, livres de estímulos externos, protegidos de qualquer obrigação de interagir com seus pares. Basicamente comem, dedilham mensagens – o máximo de comunicação permitida, penduram-se calados nas conduções em trajetos compartilhados com outros humanos silentes, tristes, desinteressados do seu entorno, vagões de metrô silenciosos, ônibus quietos. Se alguma voz é ouvida, alguém gravou recado no telefone móvel, a população decidiu trocar ideias assincronamente. Talvez por preferir não ter de responder imediatamente, por ser tosca e um pouco lerda em matéria de raciocínio, precisa de tempo para poder elaborar uma satisfação apropriada. Mais tarde, quando os toscos deixarem registrado no aplicativo suas considerações a respeito do estímulo recém ouvido, serão breves, impessoais, objetivos. Meia dúzia de palavras simples somadas a alguns grunhidos darão satisfação ao destinatário. Assim como não conversam tête-à-tête, preferem abolir a destinação inicial da invenção de Graham Bell, é raro alguém usar o dispositivo para conversar. Até porque no mundo dos autômatos toscos em que vivemos perdeu-se a condição de interação.

 

E como desabituou-se de ouvir o outro, o bicho homem passou a desconsiderar totalmente seus iguais. Se existiu algum dia na humanidade uma coisa chamada empatia, a capacidade de alguém se impregnar do semelhante, colocar-se no lugar dele e chegar a sofrer por ele, identificação bonita e própria de uma decência quase pré-histórica, hoje os umbigos cresceram a ponto de ninguém conseguir mais alhear-se deles. Todo mundo vive apenas preocupado com suas questões comezinhas, a dor alheia não comove o homem tosco. E como são rudes e alegres, solitários e medíocres, ignorantes e egoístas, fazem sempre escolhas estranhas sem jamais calcular a dor infringida, nunca imaginam ou preocupam-se em poder estar colocando o outro e a si próprios em perigo. Alegremente burros!

 

Observam diferenças no vizinho e se pautam por elas. A pessoa contígua terá sempre diversidade indesejada. A xenofobia se encorpou e quase tudo é estranho no outro. Ameaçados pelo temor ao desconhecido, os toscos, unidos, formulam um pensamento enviesado e impregnado de aleivosias. Quando votam, escolhem figuras capazes de refletir sua falta de pensamento lógico e coerente. E como são muitos, afinal a ignorância é uma forma de destruição e destruir é mais simples do que criar, suas opções muitas vezes prevalecem. Graças a Deus, pois nada é mais tosco e impiedoso. O Deus dos imbecis é sempre um imbecil supremo, reflexo da imbecilidade de seus imbecis seguidores. Apaziguados por suas crenças convenientes, os toscos gozam vidinhas de zumbis felizes. E como nunca souberam enxergar direito felicidade, harmonia entre indivíduos, ou justiça, e são incapazes de imaginar uma sociedade ideal, saboreiam o mundo distópico por eles inventado, a parte que lhes cabe neste latifúndio chamado vida.

 

Outro dia em uma venda desejei uma bonita berinjela. Perguntei se era orgânica. O jovem vendedor tosco me respondeu:
- Não, ela vem com bastante agrotóxico.

 

E assim caminha a humanidade. Morreremos mudos, sem educação, armados – não confundir com amados, de câncer. Se antes não sucumbirmos incendiados pelo aquecimento global.

 

Maio/2019

 

 

 

Ricardo Ramos Filho, é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil.  Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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