ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Walter Cabral de Moura


Poemas    

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO


Tudo era mais fácil no tempo da escola –
devíamos satisfazer questões simples:
dizer quando se dá solstício,
responder quem foi Heródoto,
calcular o raio da esfera,
classificar orações subordinadas.
O professor anotava o ponto
e a campainha tocava.
Hoje as pessoas lá fora
agridem-se com interjeições e crases
enquanto os números fazem terrorismo
com cifras todo santo fim de mês.
Pior que já não há sinetas que toquem
mas sim buzinas e grupos de pagode.

 

(É lenta a palavra Tempo: 2012)

 

 

 

 

 

 

AGORA JÁ NÃO OS POSSO ENTENDER

A Alberto Bechara Asfora e à esperança de paz na Palestina

 

Expulsaram-me da terra onde nasci
mas eu os posso entender:
disseram possuir uma escritura
muito antiga, que lhes foi
passada por Deus, pessoalmente.
Mataram dois de meus parentes
mas eu os posso entender:
acharam que na casa onde viviam,
ou quem sabe na casa vizinha,
escondiam-se ferozes terroristas.
Tentaram também matar-me
mas eu os posso entender:
acreditam, não de todo sem razão,
que vivo poderei ser perigoso
para a segurança deles.
Pretendem que eu não tenha memória
e agora já não os posso entender:
como pode um homem esquecer-se
dos campos onde sempre viveu,
dos risos e choros de sua infância,
da aldeia onde ficaram seus pais?

 

(É lenta a palavra tempo: 2012)

 

 

 

 

 

 

DE SEMPRE


Foi quando morri. Apareceu-me um anjo.
Grande, sereno, imperturbável.
– Que fizeste lá?, perguntou-me.
– Nada. Alguma poesia.
– Isso muitos fazem, retrucou. Que mais?
– Respirei.
– Isso, mais ainda. Algo mais?
– Dormi, sonhei, o de sempre.
Olhou-me sem paixão. Era um anjo
(não havia como enganar-me,
 embora não mo tivesse dito).
Fez menção de ir-se. Perguntei-lhe:
– E agora?
– Nada. É aguardar.
– Ele?
– Quem mais?
– É verdade que usa barbas? Sempre achei esse fato
   extraordinário.
Quase riu. Mas era um anjo,
estava a serviço.
Voltou-me as costas, mas antes de ir
disse-me:
– Toma. Vou emprestar-te.
– ?
– A antologia poética organizada aqui.
– !!
E tirou, não sei de onde,
um grosso volume, que me passou.
Grande, sereno, impassível.
Interpretei esse gesto como um ato de simpatia
(embora não mo tivesse dito).
Após o que, foi embora caminhando,
nunca mais o vi.
Ainda não sei se Ele tem barbas.
Enquanto isso, tenho ocupado meu tempo
a ler o volume, a respirar,
dormir, sonhar, o de sempre.

 

(É lenta a palavra tempo: 2012)

 

 

 

 

 

 

DUVIDOSAS CERTEZAS

 

Está dito, em livros velhos:
nem toda certeza é vera;
aparecem escaravelhos
mesmo à vigília severa

 

toda a insônia do mundo
não diminui, nem um segundo

 

a chance grande, e terrível
de acordar numa manhã
e descobrir que, sem aviso

 

instalou-se a incerteza
na alma, e sentou à mesa.

 

(inédito)

 

 

 

 

 

 

FIAM LIGEIRO AS PARCAS


Nasceu, cresceu.
Fez-se homem feito,
médio sujeito –
normal, igual.
Não arriscou,
pouquinho amou.
Não perdoou,
acumulou
rancor, metal.
E nesse vau
envelheceu.
Se lhe doeu,
dissimulou:
só conjugou
o verbo eu.
Quando acabou,
nem percebeu
que não viveu.

 

(É lenta a palavra tempo: 2012)

 

 

 

 

 

 

JOÃO CHEIO

A Norma Godoy

Com apenas um real
joão comprou a esperança:
apostou na loteria.
Sua chance de acertar em cheio
é de uma em um zilhão
mas joão não quer saber disso,
joão está cheio dessas regras.
Revogue-se a lei das probabilidades!
Revoguem-se as disposições em contrário!
Revogue-se a lei da gravidade,
joão quer voar!
(olhando bem, joão parece um balão
 cabeça cheia, cabeça oca)
joão quer sonhar
com ficar rico, não trabalhar
dar com um pé no patrão,
comer na mesa farta
ter a mulher que queira
na cama que escolheira
falar como achar milhó
atropelar a gramática que nunca teve
errar nas contas que nunca foram a seu favor
joão tem pouco dinheiro
só o do ônibus cheio em que cochila à noite
e o da esperança vazia no bolso furado.
Acorda, joão!
Tua parada chegou,
vai pra casa, abre o refrigerador vazio
bebe água gelada, dá um beijo frio
em tua mulher de ventre cheio,
depois dorme, e sonha, joão
porque amanhã é outro dia
cheio.

 

(É lenta a palavra tempo: 2012)

 

 

 

 

 

 

O NOME DAS COISAS NO MUNDO


O que no mundo é coisa e não palavra
na mente se faz nome e não só coisa.
Nome e coisa lá, assim ligadas,
a ponto que uma já sem outro é nada.
Em cada língua, nomes têm as coisas,
inda que os não peçam, estas que o são;
sem seus nomes as coisas se não mudam,
muda sem eles, a mente não as chama.
Se servem ao mundo as coisas, sem seus nomes,
a nós só servem, pois, se nomeadas.

 

(É lenta a palavra tempo: 2012)

 

 

 

 

 

 

PAISAGEM DA JANELA


Uma nuvem cor de rosa
tangencia a lua cheia
assim dizendo, se roçam
de longe vendo, se enroscam.
Talvez conversem, nuvem e lua
talvez se beijem, a lua nua
talvez estejam no cio
decerto tudo é macio:
uma nuvem cor de rosa
e a lua cheia de abril.

 

(Livro dos silêncios: 2000)

 

 

 

 

 

 

POEMA TARDIO


A todos os novos poetas
Ai de mim que cheguei tarde!
Como farei poesia
se está agora quase tudo dito?
Líricos poetas já estiveram aqui
que cantaram amores, umas solidões
além de abandonos e beatitudes,
versejaram enlevos e contemplações.
Trêmulos cantores já estiveram aqui
a solfejar revoltas e desilusões
e cravaram facas e rasgaram as roupas
e deixaram, lívidos, a mensagem atônita.
Báquicos amantes também não faltaram
que já bem louvaram corpos excitados
e já bem dançaram danças sensuais
e melhor gozaram e chegaram à paz.
Ai de mim que cheguei tarde!
Nada me restou, exceto estas palavras
que ninguém já ouve, que ninguém mais quer
que recolho, lento, como se amanhã
fosse um tempo findo que não haverá
e toda a poesia que pudesse ser
fosse ver, sentir e enfim calar.

 

(É lenta a palavra tempo: 2012)

 

 

 

 

 

 

SONETO À AMADA, AO LER CAMÕES


A Suely, à distância
No meu cabo Guardafui,
longe de ti         afastado,
a tua ausência institui
esta tristeza ao meu lado.
Sem ter o engenho e arte
daquele outro exilado,
não é menor, verso à parte,
o sentimento guardado.
Pois a dor que tanto abate,
as saudades infernais
no peito tenso e doído,
sentiu-as também o vate –
que me excede em tudo mais,
exceto no amor vivido.

 

(É lenta a palavra tempo: 2012)

 

 

 

 

 

 

Tuxaua grande
que aí assistis
arredai que já
acercam-se alfanjes
sandeus estão a caminho
para vos expulsar, tapuios.
Tacape será inútil
os néscios têm motosserras
intentam matar a mata.

 

Ide, tuxaua, evadi-vos
subi à mais alta serra
não tendes senão as pernas
é desigual essa guerra.
Tuxaua, sede expeditos
conduzi vossos tapuios
imitai monteses cabritos
asilai-vos cumeeiros
que não tardam os beócios.
Fazem da selva negócio
convertem em capim ligeiro
o secular jatobá
trazem bois, cabras, vaqueiros
derrubam o taperebá
querem ouro, diamantes
e vos deixam agonizantes.
Fugi, fugi, não durmais
a floresta, vossa mãe,
já se inquieta em ais
não tendes tempo a perder:
o amanhã não virá mais.

 

(Livro dos silêncios: 2000)

 

 

Walter Cabral de Moura (1955) é do Recife, Brasil. Biólogo e servidor público federal. Publicou por conta própria: Brilha, Cosmos (1975); Livro dos Silêncios (2000); e É lenta a palavra tempo (2012),todos de poesia. Participou das coletâneas poéticas Fauna e Flora nos Trópicos (Fortaleza, 2003); Pernambuco, Terra da Poesia (São Paulo, 2005); Antologia de Escritas n° 4 (Lisboa, 2008); Antologia de Escritas n° 7 (Lisboa, 2010); Antologia de Escritas n° 10 (Lisboa, 2013) e Estranha Beleza - Antologia Brasileira da Retranca (Itabuna, 2018). É membro da União Brasileira de Escritores - seção Pernambuco.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'The marriage of the artistic expression of the North and of the South on this continent (Pan American Unity)', 1940


Paginação:

Nuno Baptista


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