ANO 5 Edição 81 - Junho 2019 INÍCIO contactos

Flávio Sant’Anna Xavier


A única pesquisa Ibope sobre o governo Bolsonaro revela quadro atípico    

A única pesquisa Ibope sobre o governo Bolsonaro revela quadro atípico. Sua aprovação despencou quase 15 pontos. A avaliação positiva do governo (ótimo ou bom) caiu de 49% para 34%. É muito se comparado ao início dos governos de FHC (41%), Lula (51%) e Dilma (56%) no mesmo período de primeiro mandato. O que mais chama atenção nem é esse dado, mas que sua maior queda ocorreu na faixa dos dois a cinco salários mínimos: cerca de 18%. Para quem ganha até um salário-mínimo – a grande maioria do contingente trabalhador – apenas um terço dos entrevistados apoia o governo Bolsonaro.

 

Trata-se de uma constatação sombria antes de tudo, pois são nos primeiros meses, logo após o sucesso nas urnas, que o governo se encontra mais forte e é capaz de pautar o legislativo com as suas bandeiras mais caras. Embalado pelo sucesso espontâneo e massivo do eleitorado, onde quase venceu no primeiro turno, é um choque de pessimismo para um governo que pretendeu encarnar o novo na política.

 

Eleito por um partido inexpressivo e sem base parlamentar, o governo Bolsonaro ousou: preencheu os cargos estratégicos com os militares. Precisamente com o contingente do Exército que comandou a missão humanitária no Haiti, durante o governo Lula. Na época, Lula almejava presença do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, um dos seus delírios, e, para tanto, assumiu como estratégica a participação brasileira no país mais miserável da América.

 

E foi este contingente do exército brasileiro que se confrontou com a difícil tarefa de lidar com o caos haitiano, sua pobreza extrema, a trajetória de autoritarismo e total abandono da comunidade internacional, que ganhou experiência administrativa para compor a base do governo Bolsonaro - ele próprio egresso e expulso das fileiras militares.

 

É um paradoxo inédito na conjuntura brasileira: pela primeira vez na história republicana, os militares exercem um papel decisivo num governo civil, eleito democraticamente. Todos parecem convergir para que este eixo militar representa a estabilidade e harmonia em meio ao caos.

 

Nenhum analista político previu esse papel estabilizador dos militares, são eles que significam a grande incógnita brasileira, seja porque não constituem partido político e também pelo papel sangrento que desempenharam em mais de duas décadas de uma das piores ditaduras da história brasileira. Até que ponto os “generais do Haiti” estão comprometidos com a democracia e a estabilidade?

 

Tudo, porém, deve ser relativizado se exercermos o dom da comparação.

 

No núcleo mais próximo a Bolsonaro encontram-se seus filhos, parlamentares eleitos à sombra do presidente paterno. Avança uma investigação de enriquecimento ilícito tipicamente brasileiro: o parlamentar nomeia assessores “fantasmas”, que devolvem parte dos seus vencimentos ao empregador, que, por sua vez, granjeia grande acúmulo de riqueza ilícita. No caso do filho Flavio Bolsonaro, Senador eleito pelo Rio de Janeiro, além do enriquecimento ilícito oriundo desse esquema, popularmente denominado “rachadinha”, há indícios de ligações com o chamado “Escritório do Crime”, uma das milícias mais influentes no Estado. Comenta-se seria esse esquadrão da morte, que compete com os traficantes de droga dos morros pelo domínio de territórios, o responsável pelo assassinato da vereadora do PSOL, Marielle Franco, em março de 2018.

 

A suspeita que a investigação atinja o próprio Presidente torna-o alvo de impeachment, exatamente porque se elegeu com a promessa de combater a corrupção e traz um ingrediente de radicalização a esse cenário. Não basta cair, faz-se necessário cair como vítima.

 

Há, pois, ao que tudo indica um embate dentro do próprio governo: entre a ala militar, que confere um inédito tônus de estabilidade e gerenciamento da máquina administrativa, e a dos filhos do Presidente, que organizaram toda sua campanha nas redes sociais e que mantém, ademais, estreitos laços com a ultradireita americana. E em torno desse núcleo a poderosa bancada evangélica, que com os armamentistas e latifundiários forma o BBB (bíblia, boi e bala), base social da radicalização de direita no eleitorado.

 

Dessa tensão parece emergir um novo alvo do governo Bolsonaro: a de que o Centrão – grupo hegemônico no parlamento caracterizado pelo fisiologismo – seria o grande inimigo, mais que o próprio PT e a esquerda, a ser eliminado, pois estaria a chantagear o governo da forma mais descarada: sem a liberação de dinheiro ou a nomeação de apadrinhados não haverá reforma da previdência nem qualquer combate à corrupção.

 

Contra esse novo inimigo tratou de mobilizar sua tropa mais atuante e encher as ruas, onde faltaram bandeiras de fechamento do Congresso Nacional e do próprio Supremo Tribunal Federal (STF), cujo presidente sempre foi visto como amigo da corrupção.

 

Uma encruzilhada perigosa para a democracia. Um governo radical de direita que perde apoio rapidamente e trata de radicalizar com ameaça de fechamento do Congresso e do STF.

 

Uma vez entrevistaram o Mujica, ex-presidente do Uruguai, sobre Lula e a corrupção. Ele respondeu que Lula confessara que sem pagar aos parlamentares do Centrão não haveria governo, e que ele teria de se sujeitar. Essa versão coloca uma questão: como enfrentar o Centrão sem ceder ao seu apelo fisiológico? Bolsonaro escolheu colocar povo na rua, o que foi atendido por uma grande parcela da classe média que lhe apoia desde o início. Na semana seguinte outro contingente de estudantes formou contraponto, protestando contra os cortes orçamentário nas universidades. O embate da democracia ganha a rua.

 

Isso no mundo da política, mas a realidade é muito mais ampla. A economia se deteriora velozmente desde 2015, quando Dilma Rousseff adotou o receituário ultraliberal. Atualmente, meio milhão de trabalhadores desistiu de procurar emprego e se entregou ao mais puro desespero existencial. Essa semana, um pobre homem foi preso ao roubar comida. Quando os policiais chegaram na sua residência, ele tratava de descongelar um pedaço de carne para alimentar seus filhos, que jejuavam há dois dias. Houve comoção entre os policiais, que então arrecadaram alimentos à família faminta.

 

Saber se o apelo de Bolsonaro, de radicalização e de hegemonização do núcleo mais radical de seu governo, chegará a este contingente de famintos e desesperados é o grande enigma do atual momento democrático, onde quase inexiste oposição e os meios de comunicação, antes decisivos, são incapazes de influenciar a realidade, monopolizada pelas redes sociais.

 

Vive-se conjuntura onde partidos e sindicatos não mais importam. Sua influência na sociedade é quase nula. O que dirige e influencia é um tipo de comunicação direta, pelas redes sociais, e do qual Bolsonaro exerce enorme poder.

 

Se nada se alterar profundamente é possível que essa radicalização reforce o governo ou o derrube. Vivemos em agonia, um estado trágico e incerto em que os sintomas de morte e vida se confundem: um passado não morre totalmente, um futuro nascente não vinga. A democracia e o autoritarismo lutam em desespero. Desta luta nascerá o caos ou a harmonia. Bolsonaro vingará com sua agenda ultradireitista ou sucumbirá na sua própria agonia. Quem viver verá.

 

Flávio Sant’Anna Xavier é procurador Federal e escritor

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2019


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