ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Henrique Dória


EDITORIAL: O GAROTO BERARDO    

A postura de José Berardo na Comissão Parlamentar de Inquérito à sua dívida para com a Caixa Geral de Depósitos foi idêntica à de um garoto que passou uma rasteira a um colega que ia a correr e o fez estatelar no piso de pedra, ficando-se a rir do que fez.


Portugal inteiro ficou indignado. Ficaram indignados os que sempre disseram o melhor de Berardo e até os que o condecoraram. Num histeria coletiva, os que o incensavam pedem agora que lhe sejam retiradas as condecorações e a comenda. Estranhamente nem Rui Rio, nem Assunção Cristas nem António Costa mostram querer pedir contas a tantos empresários ditos de sucesso que fizeram o que Berardo fez: pedir dinheiro à CGD ( diga-se Estado, diga-se todos nós) para os seus empreendimentos ruinosos, empréstimos de milhões que não pagaram. Trata-se de cerca de 100 brilhantes empresários, o jet-set da nossa praça, fervorosos defensores do mercado e críticos ferozes de qualquer intervenção do Estado na economia, que ficaram a dever à CGD, 2,5 mil milhões de euros. Se o condicionamento industrial do salazarismo, que protegia a incompetência dos nossos empresários, acabou, não acabou o vício dos nossos empresários viverem à custa do Estado. Portugal tem patrões à moda do salazarismo, e não empresários ao par da sociedade da informação e da inteligência do século XXI.


Por isso, o desplante de Berardo quando diz que até fica aliviado se lhe retirarem as comendas não é de estranhar.


O que é de estranhar é que se silenciem os nomes de quem, na CGD, concedeu créditos tão avultados a essa gente, sem o mínimo de garantias que exige a qualquer comum mortal que peça 2.500 euros à CGD. Na verdade, não se acredita que gente que ganhava milhões por estar á frente da CGD, como Santos Ferreira e Faria de Oliveira, fosse tão incompetente que não soubesse como conceder empréstimos com garantias seguras. É isso que o gerente de qualquer balcão da CGD faz a quem pede a módica quantia de 2.500 euros.


Se não eram incompetentes, o que sucedeu para que o calote de Berardo e seus pares existisse e assumisse aquela proporção? O que sucede agora para que Rui Rio, Assunção Cristas e António Costa não se indignem tanto com esses responsáveis da banca e não peçam ao Ministério Público que investigue o que sucedeu, nomeadamente a responsabilidade desses administradores da CGD pela sua gestão danosa, para utilizar uma terminologia suave?
E mais ainda: por que só agora a CGD, o Millennium BCP e o Novo Banco iniciaram os procedimentos judiciais para executaras dívidas de Berardo e outros, quando eles não têm vindo a cumprir desde 2012?


Será que o fizeram para que passassem todos os prazos, incluindo os de impugnações paulianas, para que fosse possível recuperar esses créditos através das vias legais?
Os administradores desses bancos, o Banco de Portugal, os 2 governos em funções desde 2012 a 2019, e o Ministério Público, devem ao país uma resposta sobre estas questões.

 

Henrique Dória

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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