ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Frederico Klumb


Uma chola ao meio-dia    

Nenhuma das pessoas caminhando pela rua tal do bairro da liberdade, naquele quase exato meio-dia, se apaixonaria pela velha. A dona de suas saias longas arrastava os pés de terra como se os pés e a mesma terra fossem ainda marrons e a liberdade fosse antes de ser um nome. Algum tempo atrás o arroz também servira a algo mais que um nome. Se bem que ali igualmente o arroz era algo mais. E, contudo, na cabeça da velha, isso parecia não valer coisa alguma.

 

O que acontecia na cabeça da Chola era um ruído soando insistente, dificultando qualquer movimento que a deixasse confortável naquele lugar. A cabeça decide sozinha, a cabeça da gente é um bicho estranho, é a cabeça da gente que escolhe a semelhança. Ou a nega. Que naquela cidade nova só era possível afirmar a diferença, como numa espécie de dívida. Com a terra própria? Por vezes, o corpo defende-se por instinto. Ou talvez nada disso. Há momentos na vida em que nosso desejo, tudo o que se quer, é estar só.

 

Mas então as saias ainda beiravam a calçada. E aquele terreno até que podia ser um pavimento, algo sobre o que pisar e suster o corpo. Enquanto se está vivo é possível caminhar.
Estando ali caminhando, a velha cismou de pensar naquela sua diferença: mesmo que o chão sob os pés fosse duro, quase como o da sua terra natal, quando pensava em alturas e altitudes tudo era muito distinto, tudo muito baixo e plano, nada que pudesse verdadeiramente lembrar Cochabamba.

                                                 
Qualquer inclinação e os trechos calçados sobre viadutos nessa grande cidade - tão maior que qualquer outra da Bolívia -, nada ali parecia muito. Em sua cabeça, o trajeto que vencia a pé, na enorme São Paulo, continuaria a ser fabricado e refabricado, até o fim dos dias no hemisfério, com pedras mais feias e mais baixas, ladeiras mais planas e sempre menores, menores e iguais às de outras iguais grandes cidades.

 

Cem metros para frente, não sei quantos passos: uma porção de coisas juntas passando pela cabeça, pelo corpo. Mais um pouco, ainda falta? Será que é muito? Essas coisas enchendo as pernas. E a faziam pensar que o chapéu ali talvez não fosse boa ideia. O calor não era bem exato e no céu o ponteiro do sol não batia também um bem exato meio-dia. Além disso, ela pensou, ali era Japão, ali era Brasil, ali o chapéu não era nome, era só um troço que alguém não entendia e insistia em olhar fixo, como se fosse outro olho.

 

Mais para frente ainda e não chega nunca. Nesse ponto agora, quem sabe por questão de lógica, subiu pela espinha um movimento de pescoço em direção ao céu. Com o chapéu mesmo, do jeito que estava, mas como se não fizesse mais tanto sentido vesti-lo: acho que gosto do sol de São Paulo assim desse jeito, grande e meio amarelo engordurado, diferente de outros que já tinha visto. Acho que o sol é mais alto em São Paulo do que vejo do meu quarto, mesmo sem lembrar direito agora. E deve estar certo eu ver o sol muito mais longe daqui, a velha pensou. Além de concluir em seguida que, na Bolívia, mesmo nas cidades mais baixas de seu país, o sol obviamente estaria mais perto de seu corpo e isso era bonito e era algo de que podia se orgulhar.

 

Continuava, um tanto empapada de suor. Estando quente desse jeito, o melhor é dar ao corpo o mínimo desconforto possível, não permitir que o incômodo a fizesse perder o que guardava na cabeça e levava para as pernas velhas enquanto caminhava, as fotos de antes, a montanha e a altura de Cochabamba. Não abrir a cerca deixando fugir seu sino insistente.

 

Olhou para os lados. Não estava por completo só. Havia as saias e havia arroz. Os japoneses até que não parecem um povo tão ruim, um pouco ranzinzas os velhos às vezes, mas ali servia.

 

E como é bom de verdade pensar no céu, pensou outra vez. As mãos ainda pouco tortas, ainda um pouco gordas e frescas – há coisas que só alcançam seu estado final de secura e aridez na mais avançada velhice –, dedilhavam papéis desenhando em pontos minúsculos a gordura da manteiga que trabalhavam: “São Paulo para iniciantes”.

 

Subiu a rua Tamandaré e não parecia encaixar no triângulo de papel. Os pontos não se ligam por palavras, por vezes não se ligam por formas, uma reta não é uma forma, uma reta é uma reta, isso eu aprendi. O sobrinho estaria na Igreja Nossa Senhora do Líbano, à esquerda do triângulo, à direita do Sindicato dos químicos, mal para o arroz. De resto no corpo, a bolsa de pano amarrada na cintura, a parte pesada do peso na frente, sem nó, que ficava atrás, roçando as costas, como quando subia a montanha verdadeira, como quando andava nas pedras.

 

Nos casos em que era a mãe quem carregava uma bolsa, à maneira do que se via grafado na fotografia (guardada dentro da bolsa da Chola), o pesado não parecia atrapalhar, mas era estranho. A mãe no papel olhava e posava tranquila, mas de maneira que, na foto, a coluna parecia ficar também muito mais para frente, seu peso em direção à terra, não devia, mas parecia possível.
Mais cem metros: saias salas celulares calles carros edifícios, nomes. Passaram duas meninas, muito perto de suas mãos de Chola e manteiga, ocupadas com o mapa.

 

Bolsas distintas, se vê e é logo. Sentou-se ela mesma um pouco, na beira de um canteiro, e tirou umas folhas de coca da bolsa que era a sua. ­

 

Outro papel, mascou lento, o céu nunca é igual. Mais duas casas de uns três minutos. As ruas são sempre iguais para andar, mesmo que eu não goste tanto dessas e mesmo que eu prefira as minhas. Os pés aprendem as ruas, porquê têm de tirar o corpo da cama logo cedo. Chegou um rapaz meio novo, a Chola ainda sentada, apoiada de leve no canteiro e mascando. O rapaz vestia terno e não carregava nada. Fez que ia não foi na segunda foi, a senhora fala português, um pouco, a senhora é do Brasil, não, posso tirar uma foto, sim, e tinha então uma máquina, pequena, invisível se o bolso de dentro do terno e a magreza dele. Bateu e foi.

 

Velha sem nome em São Paulo ficou sentada só. Ninguém sabia o nome da árvore dentro do canteiro em que ela sentava. Ninguém sabia o nome dela além de Chola, se muito. Ninguém passava por ela. E a São Paulo gigantesca, mundial, tudo aquilo, onde dizem que tem tudo, aquela. Cansou no canteiro, esqueceu um pouco do tempo. Correu o dia já era outro céu.
Às cinco, finalmente, a igreja. Entrou. Uns poucos, o padre. Falou o nome do velho, Alberto, falou o nome do garoto, Einar. Deu cinco ele veio, de dentro da sacristia.

 

Sentaram num banco de madeira, grande. Tirou da bolsa a fotografia: outra imagem, uma outra pessoa na foto, em outro lugar. Era uma velha ainda mais velha, a coluna arqueada para frente, com uma trança longa, muito diferente do cabelo da Chola ali dentro da igreja, muito diferente do cabelo da Chola que segurava agora a fotografia, claro que muito diferente do cabelo da Chola que havia subido aquela ladeirinha de merda que ela viu e que viu que a cidade também, de merda, como quase toda a cidade. Mas na foto, entre a Chola e sua mãe, algumas coisas diferentes e muitas outras iguais. Toda uma tabelinha, 7 erros para marcar, o cabelo bastante distinto ainda que houvesse o chapéu, o que nos obriga a encerrar a coisa toda, o pequeno jogo.

 

Mas daí, ali de pé, dizer para o garoto o que todos dizem, o que já está dito: “felizes os felizes”/a água fria arrepia a gente e depois nos deixa o corpo todo molhado/o céu é azul: Essa é tua avó.

 

Olhando a foto agora ela mesma percebia: está bem claro, é tudo diferente, o cabelo, um pouco do formato do nariz, algo da boca. Mas, ao mesmo tempo, já estou achando que somos quase iguais, é tudo um pouco parecido, o cabelo, alguma coisa no formato do nariz, como a boca fica mais miúda quando fecha.

 

E a cena final:

 

Na fotografia ainda, os dois olhando: Einar vendo a avó e sim é isso mesmo e não, acho que não, não é parecido assim.

 

E o que se vê na foto e o que os dois conversam: muito capim rasteiro e muita pedra e poeira em volta, um verde amarelo, como tá tudo aqui?, o chapéu coco inglês, uma saia quase vermelha, também ela parece pesada no papel, agora até que tá bom, no tecido tava difícil. Quase um dos pés inteiro pra ver, a metade até o dedão muito perto da madeira do cajado e o cajado encostado no solo, mas cortando, um pequeno machado que poderia segurar o corpo caso fosse preciso, a mão livre tentando o nariz. Por que a mão não escondeu um dos olhos?, mirava a lente sem medo, poderia esconder os olhos fosse preciso, mas não parecia que fizesse. E entregava, com esse gesto, um olho inteiro para a lente. Esse olho livre, o que diz? Ele beira a franja, os fios brancos já, todos brancos, descendo pela testa, não muito, bem discreto o que se vê bem dessa franja, embora não falte nada mais também para sabê-la bastante mais branca que a trança, essa sim, que se vê mais e mais longa no papel. Nesse momento, quando os olhos alcançam a trança: toma, esticou pro rapaz: tu sangre, tu cuerpo. Acho essa fotografia bonita.

 

O rapaz olhou um pouco e depois mais. Ficou quieto, a outra esticou: e aqui de trabalho então, o que têm pra fazer?
Ah, dá pra arrumar, têm coisa sim. Mas acho que tem mais o tecido mesmo. A gente faz o que tem, menino. O que tem é o que deixa a gente vivo. A velha, que havia se mantido de pé já durante uns quinze minutos, caminhou um pouco por dentro do salão da igreja. Poucos passos, não foi longe, apoiou os dois braços num dos bancos e esticou levemente as costas para trás, como se alongasse algum músculo ou espreguiçasse à sua maneira. Mais três passos, sentou num banco vazio e só. Ficou ali quieta e muda, imóvel, como se não existisse.

 

Não foi Einar quem pensou, mas poderia:

 

A chola, uma ilha. Se alguém de cima da pedra antiga olhasse a terra o mar e o céu do seu corpo. Não.

 

Frederico Klumb é um poeta, prosador e roteirista brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, em 1990. Cursou Cinema na PUC-RJ e publicou poemas e contos em revistas especializadas, nacionais e estrangeiras, a exemplo de Modo de Usar & Co, Escamandro, Garupa, Dusie e Incomunidade.
Em 2016, publicou o volume Almanaque Rebolado (Azougue / Cozinha experimental / Edições Garupa), um guia artístico-pedagógico para criação poética, escrito a vinte mãos e fruto de residência no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica (CMAHO). 
Em 2017 publicou Arena (coleção megamini / 7letras) e exibiu o curta-metragem Agharta em festivais nacionais e internacionais de cinema, a exemplo do Festival Internacional de Curta-metragens de Hamburgo.
Participou de antologias como Golpe: manifesto (Nosotros editorial) e da exposição Rejuvenesça: Poesia Expandida Hoje.
Em 2018 publicou cinema circular (transferidaça) e máquinas mancas da manhã (pela Edições Garupa), além de diversos vídeo-poemas, que podem ser vistos em sua página pessoal no vimeo: https://vimeo.com/user43080611 .
Em 2019 publica reedição de cinema circular e o inédito Bichos contra vontade, ambos no prelo e pela editora 7letras.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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Colaboradores de Maio de 2019:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, arrudA, Caio Junqueira Maciel, Camila Ferrazzano, Carlos Barbarito, Cecília Barreira, Diniz Gonçalves Júnior, Elizabeth Hazin, Fernando Andrade, Frederico Klumb, Geraldo Oliveira Neto, Graciela Perosio ; Rolando Revagliatti, Heleno Álvares, Hermínio Prates, Humberto Guimarães, Ieda Estergilda de Abreu, Jacob Kruz, Jayme Reis; Myrian Naves, Jean Narciso Bispo Moura, José Manuel Morão, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Bachiega, Luiz Otávio Oliani, Marcelo Frota, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial., Noélia Ribeiro, Octavio Perelló, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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