ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


Os desfechos imagéticos da arte de perpetrar finais    

 

O fim da vida traz um filme com as cenas reversas sobre o que vivemos, perpassadas pelo filtro da memória. A morte não seria a banalização da vida, mas sim sua metáfora, um corte, não só na carne, mas também no sistema pulsional humano. Pois leio ao reverso os poemas da poeta Patricia Porto, onde ela põe seu ponto final em frases-versos de forma tão cortante quanto concisa. É como se ela trabalhasse o poema do fim para o começo e recursivamente. Usando palavras chaves para estabelecer mecanismos próprios de sua dinâmica estética, Patricia não só fecha muito bem seus poemas como cria uma certa imagem mais alusiva para a palavra desfecho. Como lançar um projétil no alvo da palavra final? Ela consegue. E fecha e deixa em aberto para a recepção.

 

Há muitas portas que Patricia Porto abre num sentido de dialogar com um totem ou desfigurar um totem, ou um conjunto de símbolos cristalizados que representam um pensamento de difícil questionamento e ação. Pois “Casa de Boneca para Elefantes” relaciona espaços entre alteridades num mundo gládio ou gladiador, onde não há mais tempo para o exercício da fala e muito menos para o exercício da escuta; linguagem que opera sempre sobre o outro sem esquecer o outro.  Este animal político, policromático, pluralista, que passa por cima das questões que sinalizam migrações está em versos que atravessam fronteiras e esmigalham a bioanimalidade-bélica, que apenas gera binarismos de ordens separatistas – para mim, num rompante mundial – entre invenções de extremos: Leste/Oeste, Norte/Sul, homem/mulher, direita/esquerda...

 

Patricia se posiciona na luta diária pela alteridade do ser-com e do ser-consigo, e em seus versos vemos um grito nuançado pelo rigor estético de uma construção de sintaxes perfeitas, tão cheias de sutilezas que se tornam “meta-língua-cinema” em seu enredo imagético provocativo de versos longos e cortes abruptos, algo próximo ao desmonte da cineasta tcheca Vera Chytilová em seu filme mais iconoclasta, chamado “As Pequenas Margaridas” (“Daisies”, 1966) que nos traz jogos de imagens de subversões, banquetes e catarses de sentidos metafóricos quase simultâneos, o que é  tudo em termos de edição, tanto em teknè quanto em poiesis. Dessa forma, esta “poeta das imagens” não escreve-discursa sua estética dos sentidos somente no conteúdo do desnudamento do humano, mas vai fundo em suas neuroses de guerra, em seu enclave de desconstruir e construir identidades avulsas, e vai ainda mais além, pois sua estrutura poética irá sedimentar no livro uma densidade formal rígida de sucessão de linhas estéticas tênues e instigantes ao leitor, tanto no combate direto ao fascismo cotidiano, quanto no desmascaramento do ódio encruado nas relações sócio-afetivas.

 

Nesta posição de operação, ela coloca o poema de frente para observar o que pode uma sublevação da ordem vigente perante a força da palavra poética:

 

“Eu paguei muito caro pelos meus livros
a literatura me foi muito cara,
Levou meus tostões
e noites de deserto afiado.”

 

Para o mundo hoje, qual a função da poesia? Atravessar uma mediação entre corpo biológico que produz pensamento e reproduz uma linha entre gêneros, os cortando em pedaços no espectro cultural, onde cada um de nós se forma? Vamos questionar a família com seus filhos idôneos e sedados para se tornarem apenas obedientes? Qual espectro que queremos de uma escola sem partido, onde o aluno reprogr(ama-se) de um código genético aqui não programado pelo corpo humano, mas sim pela indústria cultural geneticista que elimina formas de amar que não-heteronormativas?

 

Por isso é ainda mais preciso olhar detidamente o título que a poeta deu ao seu livro e a relação das partes com o todo, a relação do conteúdo com a cultura dominante, a animalidade de um ser incômodo como um elefante na sala, um elefante diante de nós, visto em sua extraordinária força e natureza de estranhamentos.

 

Fernando Andrade, jornalista e crítico literário.

 

Fernando Andrade, 50 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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Paginação:

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