ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


O teu que é mais azul: o sol forte da memória nos poemas de Eloésio Paulo    

 

O recente livro de poemas de Eloésio Paulo, O teu que é mais azul (São Paulo: Scortecci, 2019), traz um título inquietante e que, antes mesmo de ler a obra, me remeteu a um trecho do Poema sujo, de Ferreira Gullar, no qual o poeta maranhense dá cor àquela palavrinha que soa como palavrão: “Azul é teu cu”. Ao abrir a página do índice, vejo que o livro é estruturado em quatro partes, sendo que a primeira traz o provocante título de “AZUL-BOSTA”. Percebo, então, que a associação que fiz é coerente, pois o cu tem a ver com a bosta, mais do que com as calças.

 

Nessa primeira parte, contendo trinta poemas, há o lado mais complexo da obra: “Não tente simplificar”, nos alerta Eloésio, logo no primeiro poema, “Este processador”. O que se depreende desse texto metapoético a sinalizar para “a epopeia desolada” que virá, é que a poesia eloésica trabalha com fragmentos da memória, a resvalar no hermetismo, privilegiando elipses e, sem temer eclipses, buscará o sol forte para aclarar, em níveis de fecunda poesia, os aspectos sombrios das reminiscências.

 

Munido de um caniço pensante, o poeta, com a isca da metáfora, vai pescar o passado, mesmo sabendo que pode voltar com o “samburá de ar”. E cito a estrofe em que esse verso aparece, uma vez que oferece bom exemplo de assonâncias e aliterações, fazendo com que pulse, diante de nós o peixe vivo da palavra poética: “Isso é que é poesia/ olhar o azul vazio/ e nem se importar/ de que o samburá de água/ volte samburá de ar.

 

No poema “Azul-Bosta”, evoca-se um personagem apelidado “Cu Verde”, com seu ofício de pescar homens “oficialmente/ mais esquivos que piabas”. O sorriso ambíguo dessa figura acena para o jogo das ambiguidades que vai percorrer esse e outros textos do livro, em que o claro-escuro opera uma dança com outros matizes, e sacanagens de meninos se juntam às sacanagens agrotóxicas. O sexual, o social e o espiritual, às vezes em “alternância confusa”, como se lê em “Paisagem do avião”, incitam e provocam o leitor, em meio à tilápia voadora e freiras feias evocadas “para a maior glória da Besta.” O poema que dá título ao livro aborda a “era da inocência”, ou seja, a infância, onde, à sombra das mangueiras, o idílico e bucólico é raramente enodoado por curras. É nesse período em que“as sereias afinavam seu canto” e que a poesia começa a crescer. E o poeta está atento, com “o ouvido da memória”. O desfile de cenas da infância proporciona um mosaico aparentemente caótico, capaz de arrancar do leitor a frase que se lê em “O espírito da tragédia”: “– Quem diabos é o responsável pelo raio desta programação?” A resposta é óbvia: é o próprio poeta, que no conciso espaço do texto almeja domesticar sua fúria selvagem sob um sol podre.

 

Ao ler um livro de poemas, sou perturbado por certos vocábulos recorrentes. Aqui, por exemplo, é o sol que gira em torno de meus olhos. Pesco os belos versos: “Irmão sol, a cada dia me matas/ com tua beleza que não está em mim”. E o sol me acompanha na segunda parte do livro, “Inseto insensato”, composta, em sua maioria, por hai kais e epigramas. Se a concisão já era o forte, mesmo nos poemas mais longos, aqui a concentração é como o sol concentrado em pílula (evoco, claro, João Cabral). Há muita beleza nesses breves versos, muito sol e lua conjugados, lirismo que não ofusca. O humor também é recorrente, com a boa jogada de se criar o “poema-charge”, em homenagem ao cartunista Glauco. Se há textos que nos fazem pensar em estilo leminskiano e pitadas pilhéricas da poesia marginal dos anos 70, realço que, na maioria deles, vê-se um trabalho de bricoleur, de leitor erudito a fazer alusões ao repertório clássico, que vai de Homero a Manuel Bandeira, passando por Mallarmé.

 

Na terceira parte do livro, “Persona”, o eu-lírico muda de gênero: é a voz feminina, matreiramente valendo-se da embalagem para “criar um clima/ a fim dele pensar/ que está mesmo por cima.”  Não há como conter o riso e a reflexão em textos em que Eloésio faz uma leitura irônica do cotidiano machista brasileiro, como em “Fruto de nosso ventre”, em que o adjetivo “choca” é saborosamente empregado para qualificar a insípida cerveja e a mulher sem atrativos. A oposição azul e rosa, motivo de diatribes atuais em questão de gênero, recebe uma mirada irônica no poeminha “Menina é mãe”, onde, creio, caberia um artigo antes da mãe, para materializar um insulto.

 

A última parte é nomeada de “Mirex”. Até onde sei, é marca de formicida; pode ser neologismo a sugerir mirada sintética sobre variados assuntos: morte, droga, psicanálise, pintura, religião, velhice, sexo, a própria língua portuguesa e, por extensão, a poesia. Se, na primeira parte, havia um poema autocrítico, pedindo socorro a Manuel Bandeira, aqui o poeta constata que seus poemas “não estão bem acabados//Em compensação/(retrucarei)/ eu também não.” O que me chama atenção nessa seção é a oposição entre torre e coto, o que se eleva e o que é curto, entre Babel e papel picado. O alto e o rebaixado, da humanidade, por onde transita essa poética do Eloésio – poeta da inquietude e que se elege elefante, seu alter ego em “Presságio”: “a tromba a engolir poeira e barro/ a memória enorme para que tanta memória?” A memória, entre outras coisas que é matéria de poesia, serve para nos trazer nomes pouco lembrados, como Donizete Galvão, poeta mineiro da Borda da Mata, posto em epígrafe na terceira parte.

 

Ao fim da leitura, pode ser que o leitor fique um pouco atrapalhado diante de tantos poemas, com temas díspares, mosaico de vozes e inesperados sóis afugentando sombras. Porém, em “Poema-Imóvel” (num livro a enfatizar a mobilidade da memória), Eloésio de Paulo define: “Um poema é bom quando atrapalha.”

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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