ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Camila Ferrazzano


Eu não sou mais uma poeta cool    

NA ÍNTIMA HISTÓRIA DA HUMANIDADE
 
durante o velório do
falecido marido  a viúva,
secretamente,  afunda-lhe
um bilhetinho no paletó; 


"hoje não chego pro jantar"


 
as falidas festas de
aniversário  que renderam
falsificadas felicidades  são
dedilhadas pelo tataraneto 
que abre o álbum de
fotografias  e inveja os
tempos áureos de outrora


há um pai que enterra seu
natimorto  e oito pessoas erguem o
pequeno caixão estão todos
constrangidos por tamanha leveza 
embora nada disso tenha sido
documentado


na íntima história da
humanidade napoleão
bonaparte chorou  por sua
prematura calvície  apesar
disso,  napoleão bonaparte
conquistou a frança e um
pontudo chapéu


(os sussurros que
compõem os grandes
acontecimentos,  são
brisa das moiras 
andando  nas pontas
dos pés)

 

 

 

 

 

 

NOS ALMOÇOS DE DOMINGO NÃO SE FALA EM POLÍTICA

 
o tio e seu espetinho 
ficaram
consternadíssimos  ao
saber da morte animal 
como oferenda

 
acha rudimentar 
esse tipo de
religião  e ri de
boca cheia  com
a própria
imitação de um
índio


no entanto não acha graça
quando a sobrinha  - uma
beatnik fora de época - diz
que entre o churrasco  e o
sacrifício  o que muda  é a
bebida alcoólica


a mãe descobriu que carne
vermelha, envelhece e mastiga sua
interminável alface, em silêncio
pensa que nas questões de grande
porte não tem muito o que
acrescentar


é um almoço familiar e até o
vovô veio;  estipularam nas
coxias da cozinha que hoje
não se fala em política

 

 

 

 

 

 

EU NÃO SOU MAIS UMA POETA COOL

 
o que vem a seguir do indício,
não apetece; respostas soam tão
desonestas  como a matemática
sobre o travesso-ruído que a
natureza oferece


não era pretensão me tornar uma
poeta que fala de plantas lua ou
mar  a mim sempre me fisgou o
que diz respeito ao paracetamol 
e ao uso exacerbado do
paracetamol  principalmente em
metrópoles cosmopolitas


é com vergonha que versifico  a súbita
comoção que me abateu  ao ouvir o
toque das folhas do salgueiro
deslizando uma sobre as outras a convite do vento


constrangida escrevi no extrato
bancário  “nenhum homem me tocou
como esta árvore”  creio que aqui,
tenha iniciado minha derrocada pois
na mesma noite, notei que a lua
testemunhou  as atrocidades públicas
e as mulheres espancadas  com o
mesmo brilho que incendiou o coração 
de federico garcia lorca

 
envoltos embaixo do mesmo céu
há milênios  visitantes tão
deselegantes quanto provisórios; 
fincamos bandeiras e acumulamos capital  na mesma proporção  que
nossos muros sobem


não sei se por isso escrevo insistentemente  
sobre prédios não sei se por isso escrevo
insistentemente  não sei se por isso escrevo
não sei se por isso  não sei se  não sei

 

 

 

 

 

 

A ATROFIA EXISTENCIAL E COTIDIANA DO PUNHO DE UM POETA


 
Minhas plantas morrem todas afogadas ou de sede. As metáforas, em compensação, seguem martelando insistentemente atrás da testa. Reivindicam o direito ao grito. Mas cartazes são frases curtas e impactantes. Ninguém protesta em verso. Ninguém enfrenta o inimigo em dodecassílabos - que pena! Nossas armas são gatilhos frios. As balas, projéteis. O espaço conotativo foi abolido depois que o “não” de mulher era incompreensível aos tímpanos masculinos. Quando um advérbio simplório perde sua função sintática não é possível falar a língua dos homens tampouco a língua dos anjos. Um negro tomou um mata leão dos seguranças do transporte público porque queria se matar nos trilhos do metrô Paraíso. Os seguranças do transporte público disseram que aquele era o procedimento padrão; desmaiar um potencial suicida com os bíceps do seu braço treinado. Para acalmá-lo, disseram. Um homem negro, num chão branco e asséptico, morreu com um mata leão de um segurança do supermercado extra. Não sei o que escreveram em sua lápide. Ou que choro teu filho chorou. Trezentas e trinta e quatro notícias invadem minha retina toda manhã. O domingo bucólico é serventia da torre de marfim. Como que um poeta gasta seu café matinal?

 

 

 

 

 

 

VERSINHOS DE UMA DOMESTICADA
 
sem anestesia local
matei as erupções
do tórax suicidei
meus rompantes 


e engatei num s’il vous plaît arranhado

 
ofélia de minhas tripas, 
bordei-as numa coroa de
flores fiz do escarcéu um
silêncio enigmático


ergui a sobrancelha e trancei as pernas

lavei as mãos antes do
alimento como se não
sorvesse indicadores  e
respeitei a bula dos remédios

 
contra indicados e indicados também


se esfreguei o chão da chacina  e
costurei - sozinha - os membros
arrancados não foi para na hora da sutura

você me olhar com desejo

 

 

 

 

 

 

FOGO DE CHÃO

  
o homem da minha
vida  por me amar
demais  disse que
precisava partir


desde então, abri um açougue;

apetece-me mais as
carnificinas literais às
metafóricas  além de
fazer menos sujeira não
é meu fígado
defumando ESSE
POEMA NÃO É
POLÍTICO

 
a crise lírica do universo está
compondo desassossegos
burocráticos  dançar é matéria
bruta

de quem não entendeu que pernas caminham 
- para frente! - e nada
mais  o caráter
pragmático abocanhou
feito extinto tubarão
branco  a linguagem do
não-dito; só é possível
compreender  aquilo que
não importa  só é
possível soletrar  o que
está ao alcance da mão 

 

(e mesmo assim se confunde a esquerda
com a direita) o espancamento indígena é
nota de rodapé  na história da
humanidade  talvez isso diga muito sobre
a incapacidade  de calçarmos sapatos
que não os nossos quem dirá sobre pés
que andam nus  só interessa o discurso
que me contempla  a alteridade é
músculo atrofiado  só é possível dizer da
parte que me cabe deste medieval
latifúndio  nesta pangeia desterrada  o
movimento das placas tectônicas  é tão
rápido quanto a aproximação  do branco
ao preto;  compostas das mesmas sete
cores  que pictoricamente refletem em
direções opostas no limite, os extremos
se tocam  mas a geografia não conta
bobagens a xenofobia se inicia na
têmpora  que grita ao estômago  “esse
não é o seu lugar”  o exílio é interno 
apartados de nós mesmos  não existe
como voltar pra casa a cisão é homérica;
é mais fácil dedar a boceta do mundo 
que dedilhar a epiderme em sua face 
depois do smartphone a retina alheia é
tão mito quanto odisseu tô cansada do
discurso embalado a vácuo  e com
saudade do homem que reúne multidões 
para proclamar:


não sei.

 

 

 

 

 

 

PIJAMAS ESCAFANDRISTAS PARA QUEM TEM MEDO DE DORMIR

 
queria ser poeta  mas o mar
não me comove  já corri em sua
direção e nada me ocorreu  no
embrulho do pastel, escrevi; 
“quando se está descalço de si
mesmo não há imensidão que
impressione”


indivisei-me da terra  não
como romântica mas como
falida  dilui-me entre os
polímeros  não como hippie 
mas como anônima de mim 
perdi os contornos  substitui
pernas por dúvidas  e
anunciei alcoolismo por
vergonha de dizer a verdade
não sei se por obsessão ou
abcesso  insisto em esquecer
os pés pendurados  no
pescoço do meu homicida  
toda vez que lhe cutuco o
ombro,  decidida a calçar
minha narrativa, distraio-me
do colar carnívoro  e lhe beijo
a boca dançamos um ula-ula
macabro  dizemos te amo em
castelhano por fim acordo de
novo, amputada não dá pra
ser poeta  com o ventre
adubado de porra e
anticoncepcional vencido tô
polinizando beijos tabagistas 
e os pássaros anunciam
aurora, é quase dia: 


que bom.

 

 

 

 

 

 

HUMANO, IMOLESTAVELMENTE HUMANO
 
 
ontem lancei um livro  e sai quicando
escada a baixo  um estranho pediu o
exemplar e na hora da compra quase
o interceptei; “senhor eu não sei quem
você é  não quer me convidar prum
vinho  antes de me ter pelada em tua
cabeceira?” ontem pari um livro e
segurei nas mãos de minhas esposas 
suando feito bicho, suando feito mãe 
materializando o pleonasmo do verso
anterior  em fotos fracassadas e
dedicatórias  tão curtas quanto longas
demais ontem arremessei um livro no
ponto G do sofrimento feminino,
acertei a fronte das histórias que vi-
vivi-revi e rimos tanto mais tanto que
depois choramos e depois voltamos a
rir porque, veja só,  tem algo de
imolestavelmente humano no patético


ontem depositei um livro  na conta dos
tantos livros esquecidos  que por
projeto político ou falta de fábula sendo
dostoievskis tolstois balzacs e grande
elenco servirá o estômago das traças 
com a mesma competência  que o meu

 

 

 

 

 

 

NÃO DEU TEMPO DE SER A FUCKING BUTTERFLY

 
a garoa fina ensopa a meia (eu sei que
não vai dar) mais quinhentos metros
ou só o semáforo  essa corrida é
decisiva essa barganha é com deus
ele tira os estilhaços da íris mas você
precisa chegar eu já perdi oito quilos  e
essa filha da puta continua  o escândalo embaixo da pele (eu já
cheguei, nosso senhor, e agora?)
depois você chora  depois batiza o
filho que era engano não imagina os
olhos nem o tom de voz  ou o pai
segurando  os objetos impregnados de
ausência sei que o cheiro do shampoo
dói todo dia é aquele dezembro  dos

beijos pingados no rosto inclinei-me nua sobre a mesa estendi os lábios em
ninfetagem  tomei paulada na cabeça 
e acordei num hospital em el salvador 
em que gritavam sobre a grande
guerra fiz do meu corpo carcaça
devorada e agora tô espirrando
inseticida na língua  sou a pretensa
butterfly de casulo chumbado deu
tempo não de voar nesta merda
arrombaram o que eu tinha de melhor
antes dos 23  sobrou essa vertiginosa
queda rumo lugar-nenhum ao som de
um eletrônico e remixado belchior

 

 

 

 

 

 

POEMA SOBRE AS INFOTOGRAFIAS DA GUERRA
 
depois da guerra 
os inimigos
tombados 


lado a lado 
alagados por um
mesmo 


vermelho rubro
 
mulheres estupradas
vagueiam entre a pilha
de corpos  uma chuva
fina cai igualmente  sob
alemães e sovietes 


e as sortudas sobreviventes

 

há em todos 
o rosto do
choro 


e um silêncio ensurdecedor


 
milhares de vozes conceberam o
ato discursos eloquentes e bem
intencionados mas neste preciso e
anônimo frame 


soam todos insuficientes


 
(na íntima história da humanidade  os versos são insultos)

 

 

Camila Ferrazzano nasceu em São Paulo. É uma atriz perpetuamente em formação que  atualmente cursa a Escola de Arte Dramática da USP. Escritora para impressionar o pai e poeta para fumar melhor.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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Paginação:

Nuno Baptista


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