ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Heleno Álvares


Sonho real    

Fui convidado a participar de uma feira literária em Miracema do Tocantins (antiga Miracema do Norte), onde conheci uma linda moça, parecida com a atriz Thaís Araújo, além de ter o jeito de uma amiga de Belo Horizonte que, por grande coincidência tinha o seu mesmo nome e sobrenome: Yolanda Martins. Uma com "Y", outra com "I".



Iolanda também mostrava alguns poemas na feira. Conversamos bastante. Muita afinidade se revelou. Forte foi a atração. Nos entendemos muito bem. Em seguida, voltei à Palmas, onde estava morando. Uma semana depois tornei a encontrá-la e o caso começou. Relacionamento ficou sério. Ela ficava em casa quando ia à Palmas. Pouco depois se engravidou. Ela estava com 23 anos e 5 filhos. Sim, isto mesmo! O primeiro foi aos 15 anos.



Nosso ritmo de vida continuou o mesmo: ficava uns dias com os filhos, depois ia à Palmas, e os deixavam com seu ex-marido, de quem havia se separado havia pouco tempo. Ficávamos juntos no final de semana. 



Era um relacionamento tranquilo. Certo dia, "de repente, não mais que de repente", como diria o poeta Vinícius de Moraes, ela me telefonou dizendo que havia tido um aborto espontâneo, mas que passava bem. Estava muito triste com a perda da criança. Eu queria saber onde estava. Não quis contar. Contou que ia mudar, talvez do país.



- "Foi tudo muito bonito e bom nosso relacionamento, mas agora não dá mais, tenho outros planos de vida", me falou. Insisti em saber o motivo daquela atitude maluca. Não disse. Desligou. Não acredito na história do aborto. Encontrei, dias depois, uma amiga nossa, que me informou que Iolanda estava indo para Dublin, Irlanda. Mas, não tinha deixado nenhum contato. Fiquei arrasado. Sem a companheira e o filho futuro. Deve ter encontrado algum irlandês, que se comprometeu em assumir a paternidade daquele garoto que iria se chamar Yuri. Estava próximo o seu nascimento, pois, já eram 6 meses de gravidez.


 
20 anos se passaram.



Fui em Belo Horizonte. Em um dos bares, onde curtia boa música, tinha um rapaz que tocava violão e cantava muito bem. Quando deu o intervalo da apresentação, o chamei  para saber de onde era, das influências, e lhe dar os parabéns, enfim.



Ele me contou que era de Dublin. Gostava de Chet Baker,  Jim Hall e Brubeck, entre outros. Contei que era de Araxá. Nesse momento, se surpreendeu: "de onde?!", repeti, sem entender aquele espanto. Contou que sabia de um poeta, de quem sua mãe sempre falava. Tinha seu livro "Desordem Contemporânea", que ele gostava. Você conhece?" Agora foi minha vez de ficar surpreso.



- Gostou do livro?

 


- Sim. Curti muito.



- Qual seu nome completo?



- Yuri Martins Devlin



- Sou o poeta de quem está falando. Este foi o meu primeiro livro.



- Então, você conheceu minha mãe, certo?



- Sim, meu filho!



Ele não acreditou. Chorou. Chorei. Choramos. Contei-lhe a história inteira. Bebemos umas para comemorar. 



Dia seguinte, me ligou marcando um encontro. Feliz, fui. Quando o vi, do seu lado estava Iolanda. Que separou do irlandês e voltou ao Brasil. Estava em Beagá acompanhando Yuri, que foi encontrar sua namorada. Ela me pediu desculpas pelo modo como tudo ocorreu. - A única forma de se desculpar é autorizar Yuri a fazer um exame que comprove minha paternidade, pois, assim terei como provar que ele é meu filho. Na certidão continua constando o nome do irlandês, que foi quem o criou. Quero o documento como troféu conquistado 20 anos depois do esperado. Concordaram. O resultado oficializou o fato. Nisso, chega a namorada do Yuri, Clarice, elegante como Alaíde Costa; diva, feito Billie Holiday; sedutora como Norah Jones. Os dois compõe uma bela dupla. Contou ser de uma cidadezinha ali perto, Raposos.  - Conheço muito bem. É a cidade de minha primeira esposa. Ela comentou da coincidência e me perguntou como se chamava. Disse o nome completo.

 

- "Como assim?!  Ela é minha mãe! Agora me lembro que já falou de você." 



- "Você não nasceu minha filha, só para ser minha nora. Fico feliz em vê-los juntos", disse.


Uma semana depois nos reunimos todos. 



Emoções. Histórias. Lembranças. Eis um pouco do cardápio que saboreamos.

 

- Luana, minha filha, aqui termina a hi(e)stória que queria lhe contar.
Agora, é a sua vez. Conte a sua. 



- Ainda estou fazendo a minha, papai. Espere mais 20 anos e eu conto. Tá bom?

 

Heleno Álvares é poeta, jornalista e compositor letrista. É natural de Minas Gerais, Araxá. Já publicou 4 livros de poemas e um de contos. Como jornalista já entrevistou grandes nomes da Cultura brasileira, como, por exemplo, Milton Nascimento, Ivan Lins, dom Pedro Casaldáglia, Roberto Drummond e Campos de Carvalho, entre tantos outros. Seu trabalho como compositor ainda encontra-se inédito.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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Henrique Dória, Adelto Gonçalves, arrudA, Caio Junqueira Maciel, Camila Ferrazzano, Carlos Barbarito, Cecília Barreira, Diniz Gonçalves Júnior, Elizabeth Hazin, Fernando Andrade, Frederico Klumb, Geraldo Oliveira Neto, Graciela Perosio ; Rolando Revagliatti, Heleno Álvares, Hermínio Prates, Humberto Guimarães, Ieda Estergilda de Abreu, Jacob Kruz, Jayme Reis; Myrian Naves, Jean Narciso Bispo Moura, José Manuel Morão, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Bachiega, Luiz Otávio Oliani, Marcelo Frota, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial., Noélia Ribeiro, Octavio Perelló, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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