ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Geraldo Oliveira Neto


Poemas    

estrangeríssimos & conectadérrimos

 

bashô baixou um gif
duvivier cronificou coxinha!
duvidando de brad pitt ao fazer
uma propaganda do trump
que trazia camões comendo
um mac fixe

 

ao assistir jogos de inverno.
leminski tuitou maiakovski
que por sua vez retuitou lô borges
que não compartilhou ninguém
 
troca-troca de likes entre
arnaldo batista e eike – maravilha!
vimeo coisas que não queríamos
recorreram à lei caroline
“don't want a short dickman”
mas era larga, ilimitada banda
casa de homero
rua de hobbes
númer0

 

 

 

 

 

 

golden shower

 

um brinde ao sincero
e banguelo sorriso das crianças
a cura das mandalas
a coragem de mariguelas mandelas marielles
que francamente andaram por aí lutando
um brinde a madonna, lady gaga, kabalah
vizinhas tagarelas, ao vazio visível em cada uma delas
a possibilidades, belo poema da wislawa
às mulheres gordas e magras
às listras das zebras, os textos de zambra
as farsas da nasa
aos comprimidos de azia após feijoadas
um brinde ao peixinho nemo, a sereia ariel
e toda disneylândia 
um brinde aos brochas, ditos duros - beijos na alma
brindemos raduan e as lavouras arcaicas
aos que vivem estados alterados de consciência 
em seus sítios
que semeiam e colhem flores plásticas
para buquês de brutamontes
aos nossos próprios fantasmas camaradas
e graças a glória dos backups automáticos
a cura da maconha as cadeiras de balanço
e um dos meus sapatos virados de ponta-cabeça
meus poemas permanecem óbvias banalidades.

 

 

 

 

 

 

suor

 

teimo ao tentar
rimar em momentos kármicos
temo em morrer de guarda-chuva
num repente térmico

 

descompasso acelero
culpa do café expresso
o médico diz que não posso
o problema é que ele é russo, eu não ouço

 

fantasio detalhes demais
visto noivas mentiras
descasco dogmas e mangas-espada 
para justo ficar

 

suando dentro-fora
o corpo sopra perversos
versos pelos poros 
rompem a epiderme

 

meros épicos
vermes solitárias
sorvem servem
a sucumbir-me

 

 

 

 

 

 

praça sete

 

éramos complexos e enfumaçados
alugávamos mapas astrais nas praças por qualquer trocado
formavam-se rodas filas indianas e finlandesas
vozes multiplicadas em muitas consoantes
enquanto assobiávamos sem culpa alguma copos d’água
na maioria das vezes mastigar piscas-piscas em pleno meio-dia
ao invés de recitar poemas era um colorido muito mais
sincero do que cinza
confundíamos espelhos com outros dez espelhos
cilada desesperada para hipnotizar cachorros e moscas
certamente nascia errada mais uma forma irônica
de arrecadar dores dólares olhares e cigarros jogados num chapéu
entretanto era suficiente para alimentar em casa
nosso jardim de plantas carnívoras

 

 

 

 

 

 

diva trash

 

você e suas drogas exóticas
fazendo as mesmas caras e bocas
dando pinta de gótica-trevosa tipo rainha elvira
numa velha mansão em fallwell
“mirror mirror on the wall
who’s the most drop
dead gorgeous one of all?”
já fizemos isso antes diante deste mesmo espelho
quando fingíamos ser parentes próximos
e vestíamos parábolas para além destes quartos
sejamos sensatos ali do outro lado belezas imediatas cansam rápido
e são facilmente dizimadas por meia dúzia de medusas
que curiosamente menstruam em perfeita sincronia

 

 

 

 

 

 

o diretor

 

serei diretor tenho me preparado
passar a vida naquele vuco-vuco
filmando com gostosas e um anão eunuco
numa suruba o roteiro precisa ser surreal
no mínimo engraçado
sexo estilo buttman é só penetração
“oh yes cum on my face fuck me harder”
e coisas do tipo
gosto mesmo é de satyricon e casanova
puta poesia pornográfica do fellini
só não consigo entender toda esta adolescência
se masturbando em inglês hollywoodiano
punheta não pode ser traduzida
por isso serei diretor

 

 

 

 

 

 

saltimbancos

 

o encantador de serpentes em mim cospe
enquanto seus répteis barítonos
assobiam em coro “my cherie amour”
a cartomante avisa – garota já faz mais de mês
que você anda com uma elefanta na barriga
o atirador de facas acerta quem estava com o molho
de chaves das jaulas de três tigres tristes tibetanos
o canhão embala à lua o ex-marido da trapezista míope
que tinha um caso com a mulher barbada
convidam o equilibrista de pratos para um casamento grego
macacos recitam maiakóvski sobre a corda bamba
a contorcionista búlgara aprimora a técnica
do quadradinho de oito
no improviso o poeta traduz pro sânscrito
a frágil matemática das roletas-russas
a família de motociclistas abandona o globo da morte por
[motivo fascista
o circo esvazia
ao lado da máquina de algodão doce
jaz a placa: faltam palhaços

 

 

 

 

 

 

rota 66

 

deixamos los angeles com as pernas entre os rabos.
os que lá ficaram queriam esmagar nossos crânios.
tentávamos ser mais fortes que dramáticos,
sob a tutela de setenta anjos histéricos
caminhávamos estradas como se engolidos
por sedentas serpentes
altivo à colina tudo via o condor daltônico
sob o viaduto em itálico um singelo letreiro latejava

 

“ninguém é totalmente feliz,
só de bermuda e cânhamo”

 

 

 

 

 

 

mel e mar

 

à deriva hei de viver
para lavrar até errar
não há ciência
que confirme
se o mel e o mar
marmelam
ou se existem
galinhas d’angola
namorando agora

 

 

 

 

 

 

terno rosa

 

apenas peço estradas distraídas
tropeços tramelas
tocar estrelas estrambólicas
amarelas
remá-las depressa
ou até mesmo
rimá-las longe do brilho
transcrito nas estrias naquele
transtorno extremo de entornar
estrofes destras
dentre degredos dispostos
a travestir traumas inversos
é só então
de terno rosa em verso e prosa
retornar rei ao trono
que nunca foi meu

 

Geraldo Oliveira Neto é mineiro, natural de Araxá, 35 anos. Teve os livros “Escapismo” (2016) e “Sincericídios” (2018) ambos publicados pela Editora 7Letras. Sua poesia é calcada no som das palavras, sobretudo nas repetições voluntárias, nas aliterações & nos jogos de desmonte & remodelagem, parte do princípio básico, a palavra, ou as palavras. Em sua obra é recorrente o diálogo com a estética e poética escapista. Seu próximo livro, “Gauguin decide partir” será publicado junto as atividades do Festival Literário de Araxá (FLI-ARAXÁ) que acontece no mês de junho.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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Colaboradores de Maio de 2019:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, arrudA, Caio Junqueira Maciel, Camila Ferrazzano, Carlos Barbarito, Cecília Barreira, Diniz Gonçalves Júnior, Elizabeth Hazin, Fernando Andrade, Frederico Klumb, Geraldo Oliveira Neto, Graciela Perosio ; Rolando Revagliatti, Heleno Álvares, Hermínio Prates, Humberto Guimarães, Ieda Estergilda de Abreu, Jacob Kruz, Jayme Reis; Myrian Naves, Jean Narciso Bispo Moura, José Manuel Morão, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Bachiega, Luiz Otávio Oliani, Marcelo Frota, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial., Noélia Ribeiro, Octavio Perelló, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

FRANCESCO DEL COSSA e outros colaboradores, 'Maggio', 1468-1970.


Paginação:

Nuno Baptista


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